Para pesquisadora, modificação corporal é um tipo de arte

Rodrigo Bertolotto
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Formada em Ciências Sociais pela Universidade Federal Fluminense, Cláudia Machado de Souza pesquisa atualmente a modificação corporal como uma espécie de arte corporal. Usando seus conhecimentos de antropologia e seu levantamento, Cláudia deu palestra na Frrrkcon, que é a convenção que reúne adeptos da chamada body modification. Leia abaixo a entrevista.

UOL Notícias - Qual é a sua definição de modificação corporal?
Cláudia Machado de Souza -
Ela pode ser caracterizada como um saber da body art que propõe um novo olhar sobre o corpo e suas possíveis transformações. Esta nova proposta relaciona-se com uma construção corporal "antiestética", isto é que se afasta gradativamente dos modelos corporais de "normalidade"- que nada mais são que construções sociais em cada momento, que envolve experimentações e estetizações que podem ter sentidos que são compartilhados com um grupo, ou construídos individualmente.

OS MODIFICADOS

  • Além dos óculos, garoto usa alargador na orelha, boca e nariz

UOL Notícias - Qual é a percepção geral que a mídia dá para a modificação corporal?
Souza -
Uma vez que estes corpos passam por transformações e experimentações corporais singulares, isto é, que não são utilizadas pela sociedade de maneira geral, nasce um grande estranhamento, que acaba sendo traduzido por parte da mídia com o rótulo de grotesco ou patológico. É claro que existem profissionais comprometidos com o conteúdo de suas produções, estes dedicam certo tempo na avaliação de seus convidados, escolha de material fotográfico, mas esses elementos quando mal utilizados acabam por reafirmar apenas alguns aspectos das pessoas que fazem modificações corporais e infelizmente aqueles que são estigmatizantes. É preciso perceber que o campo da body modification não é homogêneo, nele existe uma infinidade de pessoas que têm os mais diferentes motivos para utilizar seu corpo desta forma.

UOL Notícias - A modificação corporal atual busca no passado exemplos desse uso. A atual aplicação não estaria mais ligada a noção de que o corpo todo ser "fabricado" ou "modelado" como os objetos de nossa sociedade? No passado as modificações não estariam mais ligadas ao sagrado e agora ao mundano?
Souza -
As práticas da body modification são inserção e/ou ressignificação de estéticas e maneiras de sentir o corpo próprias das sociedades tradicionais. Os corpos são transformados pela body modification a partir de técnicas como as escarificações, os brands, os implantes da 3d art, ou por releituras das técnicas de tatuagem e body piercing. Esses usos do corpo surgem num momento em que as identidades culturais são cada vez mais fluidas e permitem ao indivíduo expressar na carne seus desejos. Desta forma, o corpo se insere sim num espaço "fabricação" de si, porém isso não inibe o elemento sagrado destas experimentações.

Existem os mais variados significados para os usos do corpo que podem circular pela construção de um sagrado pessoal, uso simplesmente estético, artístico e lúdico. Todos esses significados podem seguir dois sentidos: um grupal, no qual o sentido das experimentações é dividido; outro individual, que só é possível de ser apreendido a partir da narrativa dos indivíduos envolvidos.

O caráter sagrado continua em evidência nas modificações corporais não é à toa que vertentes como os Modern Primitives ou a Church of Body Modification existam hoje e sirvam de influência para muitos adeptos.

UOL Notícias - Há sempre a comparação com a modificação corporal socialmente aceita como os implantes de silicone nos seios. Com que ponto as duas modificações se tocam? Há um componente de exibicionismo?
Souza -
A comparação está ligada a proximidade das técnicas de implantes de silicone e dos implantes da 3d art (arte tridimensional). Quanto ao exibicionismo acredito que possa existir em qualquer modificação, desde aqueles que retratam os arquétipos corporais divididos pela sociedade, até aquelas que destes se afastam. Não se trata de um elemento que esteja sempre vinculado às modificações. O conceito de belo e desejável é uma construção social, há quem ache muito atraente uma mulher com implantes de silicone nos seios, outros uma mulher com implantes de chifres. Tudo isso é muito relativo, está atrelado às construções pessoais de cada um.

UOL Notícias - Como o body modification pode virar body art?
Souza -
A body art atual caracteriza-se pelo deslocamento do corpo como instrumento (conforme era nos anos 60) para objeto da ação artística, podendo ser entendida pelo uso de técnicas como a tatuagem, o piercing e a body modification, bem como, por construções artísticas como performances e freakshows que utilizam de seu aparato estético e/ou técnico no seu desenvolvimento.

A body modification é um saber da body art, porém só pode ser entendida como arte por aqueles que possuem os códigos para entendê-la. Desta forma, não se pode considerar os corpos transformados pela body modification apenas como arte, eles são mais do que isso, são expressões na carne da identidade dos indivíduos.

UOL Notícias - Até onde atua a subjetividade na modificação dos corpos e onde aparece a objetividade, no sentido do corpo que vira um objeto?
Souza -
Os dois elementos estão em constante diálogo, é claro que para os adeptos da body modification isso pode parecer mais expressivo por encararmos parte de nossa realidade como dada, em que não criamos qualquer indagação. Existem muitos exemplos que expressam tal diálogo: Algumas pessoas abrem mão de sua estética corporal, enquanto outras não se imaginam sem as suas modificações corporais e resistem com elas a todos os percalços que esta escolha pode trazer; Algumas pessoas apesar de se verem como modificados, não conseguem resistir a todo o sofrimento que essa escolha pode trazer no que tange a família, ao mercado de trabalho e ao grupo social mais amplo e, portanto podem passar por períodos de depressão como qualquer outra pessoa que não se sente inserida no seio da sociedade.

Existe uma infinidade de relações que articulam a subjetividade dessas pessoas e as expressões no corpo, mas no interior do grupo o grau de comprometimento com o seu projeto corporal e o discurso em torno dele atribui diferentes graus de prestígio aos indivíduos. Não se pode exatamente delinear o espaço entre a subjetividade e sua encarnação num corpo objeto desses desejos. Os sentimentos e sua expressão através do corpo pode se dá de diversas maneiras neste campo e seria impossível indicar todas as possibilidades. Mapeá-las é um pouco do que se pode fazer e é mais ou menos isso que faço ao utilizar os relatos dos adeptos da body modification em meu trabalho.

UOL Notícias - Os adeptos apresentam razões subjetivas (forma de expressão), estéticas (forma de diferenciação) e até hedonistas (principalmente as genitais) para as modificações. O que acha disso?
Souza -
Os desejos embutidos na body modification são tão variáveis como o ser humano. De certa forma, tendo a concordar com Steve Haworth (criador da 3d art) que diz que acredita existir quatro razões para as pessoas fazerem modificações corporais: A primeira é por estética; a segunda é para potencializar-se sexualmente; a terceira é para chocar; e a quarta, por espiritualidade. Quando ele faz essa afirmação acaba criando quatro corredores por onde circulam uma infinidade de elementos que explicam os desejos de se modificar, inclusive variadas conexões entre eles. Logo é possível encontrar adeptos que atribuem às suas experimentações sentidos unicamente espirituais, assim como outros que caracterizem certas práticas como espirituais e outras como artísticas e experimentais.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos