Após 22 anos, vítimas de acidente nuclear ainda aguardam inauguração de Museu do Césio em GO

Sebastião Montalvão
Especial para o UOL Notícias
Em Goiânia

As vítimas do vazamento de césio-137, acidente nuclear ocorrido em Goiânia em setembro de 1987, devem ganhar uma importante homenagem. Está previsto para junho do próximo ano a inauguração do Museu do Césio, um espaço criado para guardar a memória do maior acidente nuclear do mundo em áreas habitadas. A construção será no terreno da rua 57, nº 68, no centro da cidade, no local onde a cápsula com o produto radioativo foi aberta.
  • Sebastião Montalvão/UOL

    A construção será no terreno da rua 57, nº 68, no centro da cidade, no local onde a cápsula com o produto radioativo foi aberta


A pedra fundamental do museu foi lançada pelo governador de Goiás, Alcides Rodrigues. "Nada mais justo do que lembrar aqueles que foram atingidos pelo acidente, que perderam a vida ou ficaram com graves sequelas. O museu também vai lembrar que é preciso prevenir para que novos acidentes como este não aconteçam nunca mais", disse o governador.

A previsão é que o museu fique pronto em junho do ano que vem. "Acreditamos que essa é uma iniciativa interessante, já que é muito importante que essa tragédia não venha a cair no esquecimento", disse Odesson Ferreira, um dos membros da família mais atingida pela contaminação.

Ele é tio de Leide das Neves, a primeira vítima do césio-137. A garota, que na época tinha seis anos ingeriu partículas de césio ao consumir um pedaço de bolo após ter manuseado o pó radioativo. Odesson também perdeu dois irmãos (Ivo e Devair) e a cunhada, Maria Gabriela, esposa de Devair. Dezenas de outros membros da família Ferreira foram contaminados.

O projeto de construção do museu está a cargo do artista plástico Siron Franco, que também fez parte do lançamento da pedra fundamental. "O museu será composto por 35 grandes blocos de resinas transparentes. Também teremos fotos das vítimas em tamanho natural, além das matérias dos jornais da época", disse o artista.

No lote onde a obra será erguida ficava a casa de Roberto Santos Alves, que rompeu a marretadas o lacre da cápsula e também foi contaminado. A cinco minutos de caminhada do local, na rua 26-A, está o terreno onde ficava o ferro-velho para onde todo o produto foi levado. Nos dois locais, a tragédia parece fazer parte do passado. A não ser pelo visual nada agradável dos grossos revestimentos de concreto que cercam as áreas.

Veja reportagem sobre os 20 anos do caso


A população vizinha utiliza os terrenos no dia-a-dia. Na rua 57, até a última quinta-feira (data de colocação da placa anunciando a obra do museu) o local vinha sendo utilizado como estacionamento de clientes de um mercado popular nas proximidades.

Na vizinhança, a grande parte dos habitantes que viviam no local na época do acidente se mudaram. Outros, porém, lembram com clareza da tragédia. "Todos os dias eu passava em frente a esse terreno para ir ao mercado. No dia, instalaram uma corda fechando a rua e nos disseram que tínhamos que dar a volta. Estava cheio de polícia, de bombeiros. Não sabíamos o que estava acontecendo", conta a aposentada Valdivina Porto.

Ela diz que não foi contaminada, mas chegou a ser encaminhada com centenas de pessoas até o Estádio Serra Dourada onde foram submetidos a testes de radiação. "Felizmente não fomos contaminados. Mas teve gente aqui que ficou sem a roupa do corpo. Perdeu móveis, tudo. O museu vai garantir que essa tragédia não caia no esquecimento. E será uma homenagem a todas as vítimas", afirmou.

"Esperamos realmente que seja construído esse museu. Para deixar o lugar mais agradável. E pelo que vimos na placa, será um lugar muito bonito", diz Edácia Maria de Deus, que ao lado do marido Ismael é proprietária de um bar bem em frente ao terreno. Ela disse que mora há 15 anos no local e a nova construção vai valorizar a rua, que apesar de estar na região central é composta por casas simples.

"Eu gosto muito dessa região aqui e não tenho medo nenhum. A contaminação já é parte do passado. Estamos tranquilos e queremos que realmente construa alguma coisa aí nesse lote", ressalta a dona de casa Maria Geralda, que mora no terreno ao lado. A vizinhança reclama que, por ter ficado aberto nesses últimos 22 anos, muita gente usa o lugar como depósito de lixo.

"Mas agora está até bom. Antes havia um desnível para o fundo e formava uma lagoa. Havia, rato, barata, sapo... até cobra acharam aí. Mas meu marido reclamou e nivelaram. Não acumula mais água", conta Edácia.

No outro terreno, onde ficava o ferro-velho, o único obstáculo é uma mureta de concreto de pouco mais de 50 centímetros na parte frontal. Nos fundos, o muro está caído e o acesso de pessoas, inclusive crianças, é fácil. Existe até uma pintura no chão de uma "pista" de amarelinha usada por crianças da região. Para esse local ainda não existe nenhum projeto de construção.

O Museu do Césio faz parte de uma parceria entre a Secretaria de Ciência e Tecnologia e a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen). "Vamos ter aqui um medidor permanente de radiação, desmistificando o acidente", disse o secretário de Ciência e Tecnologia, Joel Braga Filho. A construção está orçada em R$ 1 milhão. O governo goiano entra com R$ 400 mil e a Cnen com o restante. Além de relembrar a memória das vítimas, o museu tem como objetivo servir de fonte de estudo e de fomento ao turismo científico.

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