"Cadê a inteligência da polícia?", questionam moradores da Vila Cruzeiro (RJ)

Rosanne D'Agostino Enviada Especial do UOL Notícias No Rio de Janeiro

As marcas de bala são a prova de que ali houve tiroteio, mas são poucos os que têm coragem de relatar o que viram nesta sexta-feira (24) durante confrontos entre traficantes e a polícia na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio de Janeiro.
  • Efe

    Famílias correm enquanto policiais e traficantes trocam tiros em plena luz do dia na Vila Cruzeiro na sexta (24); para moradores, falta planejamento à polícia nas operações nas favelas do Rio



A comunidade faz parte do Complexo do Alemão, mas ir até o local não é tarefa das mais fáceis, mesmo para o taxista carioca Marco Antonio, 51. Quando fica sabendo do destino da reportagem do UOL Notícias, toma um susto: "Menina, eu nunca peguei uma corrida pra lá. E está muito perigoso." Mas logo se prontifica, liga para um amigo que lhe diz o caminho por celular.

A saída é de Copacabana, pelo túnel André Rebouças, que liga a zona sul à zona norte do Rio. Só depois de uns 20 minutos é possível ver as primeiras favelas, mas nem sinal dos tiroteios que marcaram a semana. Mais de 40 morreram, entre policiais, moradores e traficantes.

Com a falta de sinalização, é preciso perguntar a um homem que passava vendendo algodão doce onde é vila que serviu de palco para os confrontos. "É seguindo muito, até lá na frente", responde. "Mas está havendo confronto mesmo?", reforça o taxista. "Tá havendo, mas hoje tá tranquilo", sorri o vendedor.
  • Jadson Marques/AE

    Tiros na Vila Cruzeiro atingem o ex-combatente, Brunio de Barros, 86, causado a revolta dos vizinhos. O militar da reserva do Exército foi levado ao Hospital Getúlio Vargas, na Penha, após ser baleado em um supermercado próximo à favela



À medida em que as ruas começam a ficar mais estreitas e menos asfaltadas, todas as vielas dão em morros, cada um, uma comunidade. Na Vila Cruzeiro, a rotina começa a se normalizar, mas a feira semanal, que acontece aos sábados, está incompleta. Normalmente, ocupa toda a rua. Nesse dia, as barracas estão nas calçadas.

"É que o caveirão [o carro blindado das tropas de elite da polícia do Rio] vem aqui e derruba tudo. Os moradores que pagam por tudo isso", diz uma das vendedoras, que se recusa a afirmar que mora ali. Mas mora, segundo a amiga. "É difícil, a gente fica com receio", conta, se escondendo para não demonstrar que conversa com uma jornalista.

Os moradores, ainda com medo, se recusam a falar. Mesmo sem câmera ou gravador, os garotos que cuidam da bicicletaria na entrada da favela dizem não saber de nada sobre os confrontos. Têm medo de que a polícia volte.

O primeiro a se "arriscar" é o senhor de 72 anos, sentado na barraquinha vendendo água e doces, à frente de uma pequena placa de preços escrita a giz, na casa onde mora. Apesar de viver ali há "50 e tantos anos", prefere não ser identificado. "Aqui, quando não vem a polícia, é tranquilo", diz.
  • AFP

    Helicóptero da PM sobrevoa o Complexo do Alemão, onde está a Vila Cruzeiro; segundo os moradores, conflitos no local são normais, mas o atual confronto chamou a atenção depois que um helicóptero semelhante foi abatido por bandidos

Os confrontos começaram na madrugada do sábado (17). Segundo a polícia, a razão é a disputa por pontos de venda de drogas entre traficantes do morro São João, no Engenho Novo, controlado pelo Comando Vermelho, que tentaram invadir o morro dos Macacos, em Vila Isabel, controlado pela ADA (Amigos dos Amigos).

Nelson, 51 anos, todos eles vividos na comunidade, fala sem medo. "Estamos acostumados [com tiroteios], mas essa história de que isso é uma guerra do tráfico, de um querendo tomar o morro do outro, é mentira. O que acontece é que a polícia resolveu interferir, e eles, aqui, já chegam atirando", critica.

Veja imagens do tiroteio na Vila Cruzeiro



O morador é abordado a todo momento enquanto concede a entrevista, por gente que quer tirar dúvidas, ou simplesmente está curiosa de saber com quem ele fala. É um dos "representantes" da comunidade. E, para defender o que chama de "tranquilo", cita o caso Afroreggae. Segundo Nelson, o problema dos atuais confrontos é o modo como a polícia age.

O líder do grupo Afroreggae morreu em um assalto em Copacabana, na zona sul, mas não foi socorrido por dois policiais militares, flagrados por câmeras de segurança liberando os assaltantes. Eles estão presos, pois também não prestaram socorro à vítima que, segundo um amigo, ainda estava com o coração batendo 50 minutos depois do crime.

"Eles [policiais] são piores que marginais. Há muita corrupção. Quando a polícia entrou aqui para prender o Elias Maluco, eles entraram sem dar nenhum tiro. Isso é coisa desse governador [Sérgio Cabral (PMDB)], que manda eles entrarem aqui desse jeito. Cadê a inteligência da polícia? Se eu tivesse um pedido, eu pediria para ele renunciar."

Nelson também reclama da falta de investimentos na comunidade e diz que, com os confrontos, seu filho não teve aulas, e a escola foi fechada. "O governo tem que mostrar serviço investindo aqui. Trabalhar pelos pobres. Seria bem melhor. Porque se eles não investem, vem o tráfico e faz o papel da polícia."

Governo "não dará trégua"

Para tentar controlar as ações dos traficantes, 10 detentos supostos líderes do tráfico no Rio foram transferidos ontem para a penitenciária federal de Campo Grande (MS). Segundo o governador Sérgio Cabral (PMDB), a troca mostra que o Estado não dará "trégua" para a criminalidade



Já, quando questionado se o tráfico também não prejudica os moradores, Nelson desconversa. Enquanto isso, crianças, ao perceberam a presença da reportagem, começam a cantar o hino ao traficante apontado como líder do morro, chamando-o de "imperador". É Fabiano Atanásio da Silva, o FB, por quem a polícia oferece uma recompensa de R$ 5.000. Seria ele o responsável pela invasão ao morro dos Macacos.

O apelido também é de outro representante da favela, o jogador Adriano, que nasceu e viveu no local. Dado como desaparecido, ele havia abandonado o Internazionale de Milão e a seleção brasileira para voltar às raízes, na Vila Cruzeiro.

Nelson lembra outro caso emblemático ocorrido na favela, o desaparecimento do jornalista Tim Lopes, em junho de 2002 -aprisionado pelo grupo comandado pelo traficante Elias Maluco. "Esse lugar ficou marcado, é perseguido por esse episódio, mas eu gosto de morar aqui. É o meu lar."

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