Progresso esperado com energia eólica não reflete realidade de comunidades do Ceará

Kamila Fernandes
Especial para o UOL Notícias
Em Fortaleza

No Porto das Dunas, área de belas casas de veraneio conhecida por abrigar o parque aquático Beach Park, no município de Aquiraz (na região metropolitana de Fortaleza), as torres de energia eólica passaram a fazer parte do cenário local há 10 anos. Até bem pouco tempo, era lá o maior parque eólico do país, com 20 turbinas que têm capacidade para produzir 10 MW de potência no total.
  • Kamila Fernandes/UOL

    Considerada uma das formas mais limpas de se produzir energia elétrica em vigor no mundo, a energia eólica, porém, tem sido questionada no CE


A mesma imagem que os moradores e os turistas que sempre passam por lá se acostumaram a ver agora faz parte da realidade de duas pequenas comunidades de Camocim (a 370 km de Fortaleza). As 50 famílias que moram na praia do Xavier e na de Barrinha têm agora entre si o maior parque eólico do Nordeste, inaugurado em setembro, com capacidade de gerar 104,1 MW de energia.

Lá, há denúncias de que os pescadores passaram a ter dificuldades de acesso à sede do município, pelo cercamento da área do parque eólico, e que sofreram danos em suas casas durante a construção da obra. A proximidade de um projeto tão grande também não trouxe um benefício que poderia parecer até óbvio: a tão sonhada energia elétrica. As casas da região continuam sem luz.

"E eles ainda perderam aquilo que o Ednardo (artista local) canta: 'Eu venho das dunas brancas / onde eu queria ficar'. Agora eles não têm mais isso", disse o promotor Paulo Henrique de Freitas Trece, que atua em Camocim, referindo à paz que a paisagem supostamente trazia aos moradores.

Assim como nessas duas pequenas comunidades, toda a energia gerada pelas usinas eólicas no Ceará é vendida para a Chesf (Companhia Hidro Elétrica do São Francisco) e redistribuída para a rede, não ficando nas localidades ao redor.

"Quando disseram que vinha um projeto desses pra cá, ninguém foi contra, não, porque falaram que ia gerar emprego, renda, desenvolvimento. No fim, só gerou problema", disse João Luís Joventino do Nascimento, o João do Cumbe, líder de outra comunidade onde está sendo instalado um parque eólico, no Aracati.

Lá, a comunidade chegou a interromper uma estrada por onde passavam caminhões da empresa que está instalando o parque, a Bons Ventos Geradora de Energia (propriedade do empresário Lauro Fiúza, presidente da ABEeólica), por 18 dias no mês de setembro, para protestar contra a poeira e a dificuldade de acesso local depois de iniciadas as obras.

Lá, assim como em Camocim, uma ação do Ministério Público Federal pede que a obra seja embargada até a apresentação de um estudo de impacto ambiental detalhado - a Justiça ainda não se pronunciou sobre o processo.

"Eles têm um discurso de energia limpa, só que não tem nada de limpa.
Só estamos vendo nossas lagoas sendo aterradas, sítios arqueológicos sendo destruídos, e ninguém faz nada para amenizar. Parece que somos invisíveis", disse João do Cumbe.

Para Fiúza, qualquer obra gera inconvenientes em sua execução. "Quando um metrô é construído numa grande cidade, há muito desconforto. Quando é feita uma estrada também. Só que isso não é motivo para que o mundo pare", disse. "O Brasil não pode seguir na contramão e investir apenas em termelétricas, por exemplo, já que a capacidade hidrelétrica está bem perto de se esgotar. Temos de diversificar e a energia eólica é extremamente viável tanto pelos benefícios ambientais como pelos custos, que deverão ficar cada vez mais competitivos."

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