"Mexeram num vespeiro", diz morador da 'faixa de Gaza', Rio de Janeiro

Rosanne D'Agostino Enviada Especial do UOL Notícias No Rio de Janeiro

"Quando eu comecei a ouvir tiro de fuzil, pensei cá comigo, tá tranquilo. Agora, quando veio som de 'ponto 30', aí percebi que a coisa tinha ficado feia." Na manhã daquele sábado, 17 de outubro, Ricardo Paes de Almeida, 43, correu a tempo de avistar a cena: um helicóptero da Polícia Militar era abatido por criminosos no Rio de Janeiro.
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    Na beira da favela do morro da Matriz, fachada para os morros dos Macacos e São João, onde tiveram início no sábado (17) os confrontos entre traficantes e policiais no Rio de Janeiro, moradores juntam o que resta dos tiroteios, já parte da rotina da região



A habilidade de distinguir o armamento, diz Ricardo, vem do barulho dos tiroteios constantes entre a polícia e os traficantes. "G3 faz pá pum, AK [47] faz tra-la-lá, ponto 30 faz bum bum. E 38, essa não existe mais", brinca. Para comprovar, mostra os projéteis que recolheu por onde mora, na beira da favela do morro da Matriz. "Desta vez, só vieram porque caiu o helicóptero, mas aqui é assim quase todo dia."

Na hora do incidente, ele estava em casa. É dono do estacionamento onde, por pouco, não caiu a aeronave, no primeiro dia da atual série de confrontos entre policiais e traficantes nos morros da zona norte. Mais de 40 já morreram.

"Aquele helicóptero veio como uma bola de fogo. Se eu visse aquele piloto hoje, eu agradeceria de joelhos de ele ter desviado. Estava tão baixinho que eu ouvia tudo, os policiais sofrendo, tinha um totalmente queimado, o outro queimando, mas o piloto conseguiu desviar. Passou da pedreira, passou por todos esses prédios aqui e foi cair ali no campinho, onde não tinha ninguém."

Dois policiais morreram na hora. Outro, dias depois. E três ficaram feridos. Os disparos contra o helicóptero, segundo a polícia, provavelmente partiram de uma ponto 30, um rifle antiaéreo de uso exclusivo do Exército, uma das armas apreendidas durante as operações nos morros.

"Nunca vi uma correria tão grande"
Naquela região, a encrenca acontece em três favelas adjacentes. O morro da Matriz dá de frente para o campo onde caiu o helicóptero e serve como fachada para o dos Macacos. Este, controlado pela ADA (Amigos dos Amigos), teria sido invadido pela facção rival do morro ao lado, o São João, comandado pelo Comando Vermelho.
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    A favela do morro da Matriz (foto), serve de ponto de fuga dos morros que ficam atrás, o dos Macacos e o São João. É preciso tirar a foto de longe, porque os moradores alertam: "Cuidado, os olheiros do tráfico estão lá em cima espionando tudo o que acontece aqui embaixo."

Um dos pontos de fuga dos moradores no início do confronto foi o Centro Universitário Celso Lisboa, localizado no pé do morro da Matriz. "Quando começou a invasão, todos os moradores do Matriz e do São João, com medo de represália do Macacos, vieram para cá se esconder", diz o professor Flávio. "Os bandidos amedrontaram a comunidade. Isso aqui encheu de gente. Eu estava no intervalo entre uma aula e outra, de repente, veio aquela avalanche."

"Teve boato de que Macaco tava vindo pelo mato", continua Ricardo. Cerca de 3.000 pessoas deixaram suas casas com as roupas do corpo. "Assim como a polícia não chega no morro e vem dar rosa pra traficante, eles também não dão copo de leite pra polícia, mas eu nunca vi uma correria tão grande. Minha vizinha gritava, porque ela tem medo de ficar aleijada."
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    Ricardo Paes de Almeida, 43, viu quando o piloto do helicóptero abatido da PM tentou desviar do prédio ao fundo. "Assim como a polícia não chega no morro e vem dar rosa pra traficante, eles também não dão copo de leite pra polícia."



Pelas vielas, era possível ver o tiroteio, que não é novidade na área. Os buracos de bala nas casas e no muro de trás do centro universitário atestam a rotina de violência. "Se em Nova York teve o 11 de setembro [atentado terrorista contra o World Trade Center], aqui teve o 17 de outubro. A novidade aqui foi essa fuga em massa da favela. As pessoas dormiram na rua", contam os professores.

À noite, as aulas ficaram suspensas por uma semana. Durante o dia, a qualquer barulho de helicóptero, os cursos eram interrompidos. Nesta segunda (26), na grande parte das salas só metade dos alunos havia comparecido. Uma semana antes, a faculdade precisou ser esvaziada às pressas em razão de um outro tiroteio.

"Faixa de Gaza" carioca
Apesar da onda de violência, Ricardo gosta de morar na favela, onde está há 25 anos. Na entrada do estacionamento, os estudantes da Celso Lisboa dão de cara com a placa: "A minha educação depende da sua". Para a frase, Ricardo tem um complemento, um refrão de música que ficou famosa na internet "Cada um no seu quadrado". "Quem fez devia ganhar prêmio", diz ele para resumir a vida na favela.

"Eu ando aqui com meus colar de ouro, sou amigo de todo mundo, prefiro tomar minha cerveja no morro, porque é mais seguro. Mas eu não assalto. Eu não conseguiria assaltar mulher bonita. Fazer uma mulher bonita chorar? Nunca. Então, eu prefiro ficar aqui, ganhando meus R$ 2 por carro. Tinha uma barraquinha de empada, que uns meninos ajudavam a empurrar. Hoje, eles são bandidos. Agora você me diz, eu vou parar de falar com eles?"
A pergunta é feita na região que ele chama de "inferno", entre a rua 24 de maio e marechal Rondon. Perto dali, está a Leopoldo Bulhões, conhecida como 'faixa de Gaza' pelo alto índice de criminalidade. De um lado, Manguinhos, Mandela e Parque Arará. Mais para o interior, o Complexo do Alemão, do qual fazem parte as favelas dos atuais confrontos.

"Aqui passa de tudo, é briga de torcida, assalto, tiroteio. Outro dia, um policial tomou 15 tiros, porque não queria entregar a moto. Já estamos todos acostumados. Esse é o mal do carioca, se acostuma com o que é ruim. E se o carioca já é assim, o suburbano é pior ainda", diz, sorrindo.

A guerra por território
O convívio diário com o perigo também gera a resignação de quem mora nas redondezas. "Hoje, parece que eles matam só para ver como o corpo tomba", continua Ricardo. "Pelo menos uma vez por mês tem tiroteio aqui, normalmente quando vem a polícia. Hoje mesmo já teve uns três. Mas isso acontece porque o tráfico está perdendo clientes, aí, precisa invadir o morro vizinho para ganhar mais dinheiro."
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    Em busca de novos pontos de droga, traficantes invadem morros vizinhos há tempos; as marcas estampam o muro de trás do Centro Universitário Celso Lisboa, onde os alunos convivem diariamente com o medo de que novos tiroteios ocorram



Segundo os moradores, uma prova da mudança de perfil do tráfico foi o aparecimento do crack. "É uma droga barata, que antes, os traficantes não deixavam entrar porque causava problemas na comunidade. Mas agora, eles não protegem mais, isso virou simplesmente um negócio, e quem está no caminho, precisa ser eliminado", diz ele.

Dias melhores
O carioca afirma, porém, que tem orgulho de ser da cidade e não perde a esperança. "Eu não quero sair daqui. Não é porque as Torres Gêmeas caíram que todo mundo se mudou. E lá foi pior. O morro é um aprendizado que todo mundo um dia deveria ter. Tem cheiro de tempero, você vê as meninas se emprestando roupa, as crianças se divertindo descendo o morro em cima de um pedaço de papelão. Claro, tem cheiro de maconha, tem arma, mas isso é falta de oportunidade. Coloca um lazer lá pra ver o que acontece."

"Morrer? Eu posso morrer em qualquer lugar. Eu vivo a vida intensamente. Detesto a noite porque sei que vou ficar mais velho. Mas eu sempre lembro de uma coisa e aí eu digo pra esse povo que quer fazer besteira. Olha só, tem um Deus ali em cima de você. Engenho Novo é isso."

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