Com cemitério superlotado, cidade de Alagoas enterra mortos "uns sobre os outros", diz MP

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

Ter onde cair morto não é mais uma certeza dos moradores de Porto Calvo (AL), a 100 km de Maceió. O único cemitério da cidade, com 30 mil habitantes, está superlotado e a única opção para garantir os sepultamentos de quem não tem gaveta familiar reservada é enterrar os corpos em covas rasas em locais onde já existiriam outras pessoas enterradas.

O fato chamou a atenção do MP (Ministério Público) de Alagoas. O promotor do município, Sérgio Simões, afirma que o cemitério se transformou em um problema de saúde pública para a cidade. "O ideal seria a interdição, mas é complicado, pois os mortos serão enterrados onde? Quem tem condições se enterra nas cidades vizinhas; quem não tem, é obrigado a se submeter a essa situação", explicou.

  • Carlos Madeiro/UOL

    Devido à superlotação, mortos estão sendo enterrados em covas rasas no cemitério Santa Luzia, em Porto Calvo (AL), em locais que já abrigariam outros corpos, diz o Ministério Público

Na última segunda-feira (26), a reportagem do UOL Notícias esteve no cemitério e constatou a existência de dezenas de covas rasas. Uma delas ainda estava com uma coroa de flores postada por familiares e estava no meio de um corredor - que deveria ser destinado à passagem dos "vivos".

Nenhum coveiro foi encontrado no momento, mas os moradores da rua Santa Luzia asseguram que os enterros acontecem a apenas três palmos do chão e causam mau cheiro com frequência.

MP vai à Justiça
O promotor disse que pretende acionar a Justiça para que a prefeitura resolva o problema com urgência. "Vamos ingressar com uma ação para que uma nova área seja destinada para enterro dos corpos. Hoje, os mortos são enterrados um sobre os outros, é uma coisa terrível. Existe uma superlotação", disse.

O promotor conta ainda que recebe com frequência o protesto de familiares e amigos de pessoas mortas que encontram dificuldades para serem enterradas. Uma das últimas queixas veio do proprietário do terreno vizinho ao cemitério, que denunciou uma ocupação irregular da área pelo município. "O dono desse terreno disse que a prefeitura invadiu o local para colocar covas lá. Disse a ele que, se isso realmente acontecer, entraremos com um pedido de reintegração de posse. Só pode ocupar a área depois de desapropriar, e isso não aconteceu", explicou o promotor.

Questionada pelo UOL Notícias, a secretária de Administração do município, Edna Vanderlei, negou a invasão e assegurou que a prefeitura já desapropriou a área para novos enterros. "O terreno tem 47 metros por 30 [metros], e fica ao lado do atual cemitério. Já estamos fazendo a reforma e, dentro de 30 ou 45 dias, vamos começar a enterrar pessoas lá", garantiu, negando pendências jurídicas.

A secretária afirma que, embora o cemitério esteja lotado, os coveiros "sempre acham um lugarzinho" para enterrar os mortos. "Procurando, acha um lugar. É que o povo quer escolher o local. Na semana passada estive lá e vi que [o cemitério ainda] tem áreas", garantiu, contradizendo o MP.

Segundo ela, um decreto será publicado ainda esta semana para regulamentar a ocupação do cemitério e também da nova área. "Vai existir um padrão. A partir de agora será um modelo só. No cemitério, as pessoas estavam fazendo verdadeiras casas, até com calçadas", disse.

Com o decreto ficarão proibidas "obras, construções, reformas ou colocações de lápide" no cemitério. "Vamos fazer também um recadastramento e dar um prazo de três anos para que as famílias dos mortos apareçam e paguem uma taxa. Se não, os corpos serão removidos para outro local", contou a secretária.

Vizinhos reclamam
Além dos parentes dos mortos, os moradores da rua Santa Luzia também reclamam da superlotação do cemitério. Dona Tereza (que não quis dar o sobrenome) mora ao lado do cemitério e conta que convive com o mau cheiro exalado pelos corpos que são enterrados em covas rasas.

Ela conta que é comum confusão por local de enterros e diz que já viu dois corpos chegarem ao cemitério e terem que dividir o mesmo espaço. "Tem dia que a gente sente o mau cheiro da entrada da rua. É insuportável", afirmou.

A vizinha alega que ainda possui um espaço com quatro gavetas no cemitério e uma das vagas está destinada para ela, quando morrer. "Três estão ocupadas por dois filhos e um cunhado, mas a quarta gaveta eu não dou a ninguém, nem a um conhecido. Quero garantir o meu espaço um dia quando morrer", disse.

Segundo outro morador da rua, que não quis se identificar, "é comum os coveiros cavarem para retirar uma ossada das covas e enterrar outro corpo". A prefeitura nega tal prática.

Segundo ele, todos os moradores da rua reclamam da situação. "Quando chove, o mau cheiro piora muito", denunciou.

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