Em feira, empresários buscam aproximação com catadores de rua

Haroldo Ceravolo Sereza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Com duas garrafas PET, o ex-catador de rua Claudinei de Lima, faz 10 metros de varal.

  • Catadores mineiras observam fardo na entrada da feira, em São Paulo

  • Claudinei de Lima transforma garrafa PET em fios, que se transformarão num varal, ao fim do processo

  • Luminária feitas a partir de bagaço de cana em projeto da Pastoral do Povo de Rua

O varal PET que ele criou começa com o corte da garrafa para a separação da base. Depois, ela é lavada. Em seguida, cortada em pequenas fitas, quase fios, que serão trançados por uma máquina.

O processo que ele desenvolveu virou máquina. Na verdade, máquinas.

Uma empresa especializada em equipamentos para reciclagem, que já vendia prensas, cortadeiras de papel e esteiras para cooperativas de catadores, contratou Claudinei como funcionário e, com sua ajuda, está desenvolvendo versões mais seguras e precisas dos equipamentos que ele inventou. E levou-as para a 1ª Expocatadores, que acontece em São Paulo.

"Essa máquina pode cortar até 6.000 fundos de garrafa PET por hora, mas a gente pode fazer versões diferentes, dependendo da demanda", explica Valter Akio Hatisuka, 20, filho do dono da Fragmaq e estudante de engenharia mecânica.

Segundo ele, a versão completa do equipamento pode sair por valores que variam de R$ 50 mil a R$ 100 mil, dependendo da customização. Nas contas da empresa, as cordas de varal agregam quase 10 vezes o valor da garrafa PET - sem contar a venda do fundo e das pontas das garrafas, que são resíduos do processo.

Cada varal é vendido por cerca de R$ 1,50, ou aproximadamente R$ 11 o quilo, enquanto as garrafas PET são vendidas por R$ 1,20 o quilo.

A aposta da empresa, assim como a de outras envolvidas no setor de reciclagem, é que as cooperativas de catadores, organizadas, consigam crédito público, preferencialmente a fundo perdido, para a compra desses equipamentos.

A ideia é seduzir líderes do movimento de catadores quanto à viabilidade do maquinário - gente como Márcia Isaías Gonçalves, que saiu de Minas Gerais com a amiga Laurinda Pereira dos Santos para participar do encontro. Longe do estande da empresa, Márcia citou ao UOL Notícias a cordinha PET como uma das novidades preferidas do evento.

Enquanto o movimento de catadores se organiza em busca de reconhecimento político e faz uma série de reivindicações - entre elas, o pagamento pelo setor público pelo serviço de recolhimento de resíduos que poderiam parar em lixões -, os empresários veem nessa organização uma oportunidade de negócios lucrativos.

A aposta na organização dos catadores é também a da Inbra Metais, que recicla latas de alumínio para a produção de lingotes. De acordo com Elder Rondelli, gerente do projeto, o objetivo é eliminar atravessadores, aproximando os catadores dos fornos que derretem alumínio da sua empresa. "É essa sucata que move o nosso business", explica.

Assim, a empresa quer estimular o relacionamento direto das cooperativas de catadores com o setor da empresa que compra matéria-prima dos "garimpeiros urbanos".

"Não quero comprar individualmente. Quero que eles cresçam, que eles recebam mais." Rondelli explica que, no setor de sucata, quanto maior o volume, maior o preço, o inverso do que costuma ocorrer em outros setores da economia. Ao eliminar o atravessador, a empresa também ganha, pois acaba ficando com parte do lucro que para na mão dos intermediários.

"Nossa empresa começou como sucateira em 1934. Em 1976, ela comprava tanta sucata que o proprietário decidiu ter sua própria fundição. Em breve, vamos estar produzindo 8.700 toneladas por mês de alumínio. Quero tirar as aspas da palavra sucateiro", completa.

Veja também: com exposição, catadores buscam visibilidade para poder cobrar pela reciclagem

Os negócios na feira, em si, no entanto, não prometem ser grandes. Nenhuma das duas empresas esperava fechar grandes negócios no evento.

No estande da Caixa Econômica Federal, dois funcionários recebiam os catadores, explicavam como obter recursos do Orçamento Geral da União e também "vendiam" a conta social da instituição, com linha de micro-crédito de R$ 500 - uma conta que pode movimentar, no máximo, R$ 1.000 por mês.

Artesanato
Para além da via industrial, a Expocatadores também serve de vitrine para o artesanato produzido a partir de materiais recicláveis.

É o caso, por exemplo, das luminárias feitas a partir de bagaço de cana na oficina Arte e Luz da Rua, mantida pela Casa de Oração da Pastoral do Povo da Rua, em São Paulo.

Segundo a coordenadora do projeto, Hedwig Knist, alemã, o produto, no caso, é um meio. "A oficina é um meio de estimulá-los a ter atitude de trabalhador: respeitar os colegas, aceitar os conflitos, ser pontual", diz. O objetivo final é reincluir moradores de rua no mercado de trabalho. Atualmente, cerca de 20 pessoas são atendidos pela oficina.

A Expocatadores segue até sexta-feira, no Mart Center (r. Chico Pontes, 1.500, Vila Guilherme, zona norte de São Paulo). A Feira de Exposições terá visitação gratuita, das 10h às 22h. Parte das atividades, ligadas ao movimento, é fechada para catadores e inscritos nos seminários.

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