"Estamos felizes porque estamos vivos", diz sobrevivente; vítimas de acidente aéreo estão no hospital

Andréa Zílio*
Especial para o UOL Notícias
Em Rio Branco

Atualizado às 19h54

"Estamos felizes porque estamos vivos. A aeronave parou no ar e entramos em pânico, e o piloto jogou o avião pra dentro do rio." O relato é de um dos nove sobreviventes do acidente com a aeronave da Força Aérea Brasileira (FAB) na Amazônia, dado ao chefe do Distrito Sanitário Especial Indigena do Alto Juruá, da Funasa, José Francisco Corrêa de Araújo.
  • Arte UOL

O avião modelo Cessna Caravan, da FAB, que havia desaparecido na manhã de ontem (29) quando ia de Cruzeiro do Sul (AC) a Tabatinga (AM), foi encontrado por índios no meio da floresta nesta sexta-feira (30). Segundo o Comando da Aeronáutica, há nove sobreviventes que passam bem. Um dos ocupantes do avião está desaparecido e há indícios de um possível óbito. Ao todo, 11 pessoas viajavam na aeronave.

Seis dos sobreviventes estão no Hospital do Juruá, na cidade de Cruzeiro do Sul, no Acre, recebendo cuidados médicos e os outros três, todos militares, foram encaminhados a outro local. Havia ambulâncias do Samu e da Infraero em Cruzeiro do Sul aguardando a chegada dos sobreviventes no aeroporto da cidade. De acordo com informações do diretor-técnico do hospital, todos passam bem.

De acordo com informações da FAB, os sobreviventes podem seguir, ainda hoje, em um voo da Força Aérea para Tabatinga (AM) e Manaus. Mas, a pedido dos médicos, as vítimas devem permanecer no hospital até amanhã.

Os sobreviventes são três militares identificados como tenente Carlos Wagner Ottone Veiga, tenente José Ananias da Silva Pereira e sargento Edmar Simões Lourenço. Os demais são civis: Josiléia Vanessa de Almeida, Maria das Graças Rodrigues Nobre, Maria das Dores Silva Carvalho, Marina de Almeida Lima, Diana Rodrigues Soares e Marcelo Nápoles de Melo.

Os outros dois ocupantes do avião ainda não encontrados são: João de Abreu Filho (técnico) e o suboficial Marcelo dos Santos Dias, segundo listas divulgadas anteriormente. Um helicóptero HM-3 Cougar do Exército está no local para continuar as buscas. Uma equipe com equipamentos de mergulho será reforçada por barcos e contará com a colaboração de índios da região, diz ainda a FAB.

José Francisco que recebeu os sobreviventes no aeroporto comenta que aparentemente, todos estão bem e sem ferimentos, apenas com muitas picadas de insetos por todo o corpo, já que ficaram na floresta por mais de 24 horas. Araújo relata que todos estão em estado de choque, mas muito emocionados.

O acidente
O Caravan fez um pouso forçado no rio Ituí, afluente do rio Javari, entre as aldeias Aurélio, do povo indígena matis, e Rio Novo, da etnia marubo. Uma aeronave C-105 Amazonas localizou o avião às 9h40, a partir das informações fornecidas pelos índios.
  • Divulgação/FAB

    Imagem de arquivo mostra modelo idêntico ao que desapareceu


O avião acidentado pertence ao 7º Esquadrão de Transporte Aéreo (7º ETA), sediado em Manaus (AM). Ele decolou de Cruzeiro do Sul (AC) por volta das 10h30 (horário de Brasília) de ontem e deveria ter chegado às 12h15 no seu destino: Tabatinga (AM). O avião transportava técnicos da Fundação Nacional de Saúde (Funasa) e emitiu um sinal de emergência 58 minutos após a decolagem. Segundo a Aeronáutica, eram boas as condições meteorológicas no horário do desaparecimento da aeronave.

A causa do acidente será investigada. "A FAB vai abrir inquérito e realizar todo o processo de investigação para saber as causas do acidente", afirma o major Silverí.

Mais de cem militares participaram da operação de buscas e resgates, dos quais 36 pessoas --entre médicos, enfermeiros e especialistas em resgate-- foram deslocados para a região delimitada pela FAB como local do acidente.

A Funasa informou que os familiares dos profissionais que estavam no avião estão recebendo assistência da prefeitura de Atalaia do Norte (AM), município onde residem. O diretor do Departamento de Saúde (Desai) da Funasa, Wanderley Guenka, viajou para Cruzeiro do Sul (AC) para acompanhar os trabalhos da FAB.

Segundo o secretário de Planejamento de Atalaia do Norte, João Bosco Lopes, a população indígena que mora no Vale do Javari, área do Amazonas onde desapareceu a aeronave, foi acionada para ajudar nas buscas. Nessa localidade, a única presença humana é das comunidades indígenas.

Índios ajudam em resgate

As equipes de resgate da FAB recebem a ajuda de índios da etnia matis para chegar ao local onde o C-98 Caravan foi encontrado na floresta amazônica. Os matis vivem na região do rio Ituí, onde a aeronave pousou. Eles foram os primeiros a encontrar o avião, na manhã desta sexta-feira (30).


Para orientar os indígenas que se dispuseram a ajudar em Atalaia, funcionários da Funasa e da Funai fizeram contato por rádio desde o início da manhã desta sexta com as aldeias da região.

Equipe da Funasa
A equipe que estava a bordo do avião fazia o trabalho de vacinação em aldeias indígenas do vale do Javari, no extremo oeste do Estado do Amazonas.

Em nota, o órgão afirma que os "colaboradores foram designados para ações de imunização (Operação Gota) em cerca de 3,7 mil indígenas de, aproximadamente, 40 aldeias, no vale do Javari, no Amazonas".

A operação é uma parceria entre o Ministério da Saúde e o Ministério da Defesa, por intermédio do Comando da Aeronáutica, que levava às populações residentes em áreas rurais e indígenas de difícil acesso as vacinas do calendário básico de vacinação nacional, além de vacinas específicas para povos indígenas.

Motor único em avião aumenta vulnerabilidade

Com apenas um motor, o avião da Força Aérea Brasileira (FAB) é bastante vulnerável. A opinião é compartilhada por dois especialistas ouvidos pelo UOL

Informações técnicas
Além de ser utilizado no transporte de cargas, o Caravan é bastante usado pela FAB no transporte de equipes médicas em missões do Correio Aéreo Nacional (CAN), que leva atendimento de saúde a comunidades isoladas da Amazônia. O avião é usado pela Força Aérea desde 1987.

A velocidade máxima que o C-98 Caravan pode chegar é 341 km/h. A aeronave, de fabricação da empresa norte-americana Cessna, possui 15,88 m de envergadura e 11,46 m de comprimento. O avião é utilizado no Brasil, Estados Unidos, Bolívia e Libéria. A aeronave tem capacidade para até 14 passageiros e um tripulante.

*Com colaboração especial no Amazonas e com informações do UOL Notícias, em São Paulo, e da Agência Brasil.

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