Ministério identifica queda em três linhas e atribui apagão a condições climáticas; especialista contesta

Claudia Andrade Do UOL Notícias, em Brasília Fabiana Uchinaka Do UOL Notícias, em São Paulo

(texto atualizado às 12h30)


O secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, afirmou que uma "ocorrência raríssima" levou ao apagão que atingiu grande parte do Brasil na noite desta terça e no início da madrugada de hoje.

O ministro Edison Lobão convocou uma reunião extraordinária do comitê de monitoramento do sistema elétrico para a tarde de hoje, quando as causas do problema podem ser esclarecidas.

Medo e transtornos
na escuridão

  • Situação do trânsito ficou crítica nas cidades afetadas pelo apagão ontem à noite

Contudo, Zimmermann engrossa o coro de que causas climáticas tiveram influência no apagão, o que já tinha sido afirmado pelo ministro no final da noite de ontem. "A ocorrência teve origem em função das condições meteorológicas adversas no Paraná e na região de Itaberá (SP)."

A informação sobre a origem do problema ser climática é controversa. "Apenas tufões, furacões, queda de avião, caminhão que atropela torre ou abalos extremamente graves e muito improváveis não são compreendidos no projeto das usinas, porque cobrir o sistema para todo tipo de evento seria muito caro. Mas raios não explicam de jeito nenhum o apagão. O sistema é projetado para permanecer estável para mudanças climáticas", disse o especialista em setor energético Ildo Sauer, professor do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), para quem a causa também pode estar relacionada a falta de manutenção.

  • Ricardo Nogueira/Folha Imagem

    Apagão em vários Estados do país deixou cidades no escuro, como Santos, no litoral paulista


Segundo o secretário-executivo do Ministério das Minas e Energia, três linhas de transmissão foram afetadas. Duas que ligam Ivaiporã, no centro do Paraná, a Itaberá, em São Paulo. E uma que liga Itaberá à subestação de Tijuco Preto, também em São Paulo. "Itaberá é uma subestação importante. Uma ocorrência ali causou essa situação. Se for logo confirmado que foi a partir de Itaberá, facilita a análise."

De acordo com Zimmermann, o sistema de transmissão brasileiro permite que, em caso de desarme de um circuito, nada ocorra. "Nesse caso, tivemos as três simultaneamente. O sistema para se proteger aciona uma série de mecanismos de proteção para salvaguardar. Prova disso é que quatro horas depois do início da ocorrência, você tinha toda a carga religada no Brasil". O secretário-executivo registrou que o problema teve início por volta das 22h14.

"Não há danificação de equipamento. Há um esforço do setor para avaliar como foi essa ocorrência e quais as medidas (necessárias) para que se minimize esse tipo de situação", afirmou Zimmerman.


Problema diferente de 2001
O secretário-executivo descartou qualquer semelhança entre o problema da noite passada e o apagão de 2001. "O Brasil vem investindo pesado em um sistema de transmissão robusto. Em 2001, o que ocorreu era uma falta de energia. Agora, não tem falta de energia, foi um problema elétrico que levou a essa perturbação. Naquela época não tinha sido feito o investimento necessário em trasmissão e geração e teve que racionar a energia. Diminuiu em 20% o fornecimento, de junho de 2001 a 2002, porque não tinha energia".

Segundo ele, o Brasil agora tem o sistema "mais interligado do mundo", e o novo apagão foi resultado de uma combinação inédita de fatores. "O Brasil sempre teve essa característica de pós-perturbação. O sistema elétrico não é imune a isso, ele fica sujeito a essas perturbações. Agora, o que ocorreu foi uma contingência tripla que é raríssima".

A usina hidrelétrica Itaipu Binacional informou na manhã de hoje que voltou a operar em "condições de normalidade" a partir das 6h (horário de Brasília). O fornecimento de energia está normal na maior parte do país, mas ainda há rescaldos do apagão que deixou grande parte do país às escuras por volta das 22h de ontem.

Itaipu voltou ao normal às 6h

A usina hidrelétrica Itaipu Binacional, que foi desligada ontem à noite, informou na manhã de hoje que voltou a operar em "condições de normalidade" a partir das 6h (horário de Brasília). O fornecimento de energia está normal na maior parte do país, mas ainda há rescaldos do apagão que deixou grande parte do país às escuras por volta das 22h de ontem.

Os Estados mais atingidos foram os da região Sudeste, principalmente Rio de Janeiro e São Paulo. O governo atribui as causas do apagão a fenômenos climáticos: um forte temporal teria atingido linhas de transmissão e levado ao desligamento de Itaipu e interrupção de algumas linhas de Furnas. A usina de Itaipu informa que ainda não tem informações sobre o que teria provocado o blecaute. A empresa vai colaborar na investigação das suas causas. O Ministério das Minas e Energia informou na manhã de hoje que o blecaute atingiu 12 Estados e o Paraguai, mas houve relatos de falta de energia em 15 unidades federativas.

O Operador Nacional de Sistema (ONS) informou pela manhã que está apurando as causas do blecaute e que "qualquer diagnóstico neste momento é puramente especulativo".

Nas cidades atingidas, houve problemas de trânsito e diversas ocorrências atendidas por bombeiros, como pessoas presas em elevadores. Em São Paulo, o rodízio de veículos foi suspenso na manhã desta quarta. Mais de 500 controladores de tráfego foram convocados à noite e na madrugada para orientar motoristas e ajudar a evitar acidentes. Os mais de 4.000 semáforos da cidade entraram em colapso. O metrô parou de funcionar com o apagão, mas voltou a funcionar hoje de manhã.

"Neste momento, 18 unidades geradoras estão em funcionamento: 9 unidades geradoras de 60 Hz e 9 unidades geradoras de 50 Hz", informa a nota divulgada por Itaipu nesta manhã. "A produção total é de 10.450 MW. Destes, 9.800 MW são destinados para atender o sistema integrado brasileiro e 650 MW para atender o Paraguai", diz a nota. Uma unidade geradora de 60 Hz está em manutenção programada e outra de 50 Hz está em "stand by", segundo a usina.

Em outra nota divulgada na madrugada desta quarta, a Itaipu Binacional afirmou que o apagão não teve origem na usina. Houve, segundo a empresa, uma pane no sistema elétrico interligado brasileiro.

"Por efeito dominó, inclusive o sistema paraguaio teve o fornecimento de energia interrompido. A hipótese mais provável é que tenha havido algum acidente que afetou um ou mais pontos do sistema de transmissão, inclusive o de Furnas, responsável por levar a energia de Itaipu para o Sul e Sudeste, acidente este que provocou outros, fenômeno que se costuma chamar de efeito dominó", disse a nota.

"Imediatamente após o blecaute, a usina de Itaipu estava com suas máquinas ligadas, girando no vazio, porém, sem possibilidade de transmitir energia, pois as linhas de transmissão que conectam Itaipu ao sistema brasileiro estavam desligadas", diz ainda a nota. "Itaipu, à 1h do dia 11 de novembro de 2009, aguarda o restabelecimento do sistema interligado para dar início ao fornecimento de energia", finaliza a empresa. O abastecimento de energia começa a voltar em alguns Estados.

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, informou durante entrevista coletiva no final da noite de ontem em Brasília que o apagão tinha acontecido devido a problemas na usina hidrelétrica de Itaipu. O ministro negou que o incidente tivesse sido causado por um hacker que teria invadido o sistema, como chegou a ser especulado.

No último domingo (8), o programa "60 minutes", da rede americana CBS, exibiu uma reportagem dizendo que dois apagões nos últimos quatro anos no Brasil foram causados por ataques de hackers a os sistemas de controle do sistema energético brasileiro.

"Questões atmosféricas, tempestades de grande intensidade, podem ter contribuído para desligar a linhas de Itaipu. Por consequência, pelo regime interligado, outras linhas saem de funcionamento", disse Lobão.

O Paraguai, que faz fronteira com o Brasil, igualmente teve problemas de abastecimento. Por volta das 2h20 o abastecimento foi cortado em Maceió (AL), mas ainda não há informações se o corte tem relação com o apagão no resto do país.

O presidente da hidrelétrica Itaipu Binacional, Jorge Samek, havia afirmado também em entrevista coletiva (ontem à noite, antes da divulgação das notas de Itaipu) que houve avarias em uma ou duas linhas da usina. "Estamos trabalhando com todas as unidades geradoras trabalhando em vazio. Não tem nenhum problema na energia. No ponto de vista de geração não ocorreu problema. São cinco linhas que unem Itaipu ao grande centro, cujas linhas vão para São Paulo, neste processo deve ter ocorrido um grande vendaval, que fez com que uma ou duas linhas tivessem avarias", disse.

As declarações de Samek mostravam que não havia precisão sobre a dimensão do problema. "Torço para que sejam no máximo duas linhas [com problema]. Quando uma delas tem avaria, desliga-se o sistema para que a gente possa recompor isso. Tivemos um temporal enorme aqui em Foz do Iguaçu, árvores foram arrancadas, mas ainda não tenho a exatidão de onde ocorreu o problema", afirmou.

Confusão nas ruas

Jornal paraguaio diz que problema em SP deu origem a apagão; governo nega

O jornal paraguaio ABC atribuiu o blecaute que atingiu grande parte do Brasil e quase todo o Paraguai na noite desta terça-feira a um problema causado em uma linha de alta tensão na região de São Paulo. O ONS (Operador Nacional do Sistema) negou a informação


O metrô de São Paulo interrompeu o funcionamento ontem à noite e filas se formaram em algumas estações do metrô, como Tiradentes, Armênia e Luz. Pessoas se aglomeravam na estação Barra Funda, na zona oeste, onde o policiamento foi reforçado.

"Estava um caos para pegar ônibus, pois está sem metrô. Estava parecendo seis horas da tarde. A cidade está totalmente escura, sem semáforos, na rua só vemos a luz das velas nas casas. Não tinha nem táxi na rua, está todo mundo preso em casa", contou o jornalista Rodrigo Araújo, que estava na avenida Paulista no momento do apagão.

O metrô paulistano parou e alguns passageiros ficaram presos nos trens da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM). Todas as seis linhas da CPTM voltaram a operar antes das 4h desta quarta.

Houve também interrupção parcial no funcionamento de telefones fixos e celulares em algumas regiões atingidas pelo apagão.

Leia relatos de caos e tumulto pelo país

Por volta das 22h desta terça-feira (10), diversas regiões do país foram surpreendidas pela falta de energia e ficaram às escuras. Internautas do UOL enviaram seus relatos de caos e tumulto. "A cidade está uma loucura, muitas pessoas estão nas ruas, nas calçadas, e o pior, está tudo escuro", relata o internauta William, de São Paulo


No Rio de Janeiro, o problema prejudica a circulação de veículos nas principais vias da cidade, como a Linha Amarela, avenida Brasil e a ponte Rio-Niterói, devido à falta de funcionamento da sinalização.

Em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, a energia começou a ser restabelecida por volta das 23h. Na cidade, três pessoas ficaram presas em elevadores e uma caiu em um córrego e machucou o braço. As universidade dispensaram os alunos e o trânsitio ficou complicado.

No Recife, por volta das 21h (horário local), parte do bairro dos Aflitos, Espinheiro, Graças, um trecho da avenida Norte ficaram no escuro. Olinda também foi afetada pela queda de energia. Ainda no Grande Recife, São Lourenço da Mata e Aldeia, em Camaragibe, enfrentaram problemas.

Segundo o jornal paraguaio "La Nación", o fornecimento de energia elétrica ficou interrompido no país por cerca de 30 minutos entre 21h13 e 21h43 (horário local), mas já está normalizado.

Receba notícias do UOL. É grátis!

Facebook Messenger

As principais notícias do dia pelo chatbot do UOL para o Facebook Messenger

Começar agora

Receba por e-mail as principais notícias, de manhã e de noite, sem pagar nada. É só deixar seu e-mail e pronto!

UOL Cursos Online

Todos os cursos