Brasil precisa diversificar sua matriz energética, apontam especialistas

Ana Sachs*
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Como todo bom investidor sabe, apostar todas as suas fichas em um único tipo de investimento é arriscado demais. Diversificar é a palavra de ordem no mundo das finanças. Para especialistas ouvidos pelo UOL Notícias, os mesmos princípios que ditam as regras no mundo das Bolsas e ações, devem ser regra também no setor energético brasileiro. "O que é importante para qualquer país é ter diversificação, não ficar baseado em só uma matriz. Se não chove por um longo tempo pode ser ruim, mas pode ter vento e sol, e isso seria uma maneira de compensar a falta", afirma Arno Krenzinger, coordenador do laboratório de energia solar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
  • Kamila Fernandes/UOL

    Campos de energia eólica no Ceará

  • Luciana Whitaker/Folha Imagem

    Usina nuclear de Angra 2, no Rio de Janeiro

  • Renato Stockler/Folha Imagem

    Módulos fotovoltaicos em empresa de SP


O blecaute que deixou às escuras total ou parcialmente 18 Estados do Brasil na noite da última terça-feira levantou a questão do quanto o país é dependente da energia proveniente das grandes hidrelétricas. Uma falha - ou uma sequência delas - é capaz de deixar sem energia boa parte do Brasil. "Quanto mais descentralizada a produção, aliada a um sistema integrado (como já é o brasileiro), mas capaz de isolar áreas com eventuais problemas, menor será o alcance dessas panes", avalia o ex-reitor da Universidade de São Paulo e um dos homens mais importantes na criação do Pró-Álcool, na década de 1970, o físico José Goldemberg.

Quais seriam, então, as alternativas? Para os especialistas, as hidrelétricas serão ainda, o principal meio de fornecer energia ao Brasil, mas há outras opções que podem incrementar o sistema e torná-lo menos vulnerável. Entre as opções, a eólica se destaca como a mais atrativa, tanto pelos custos quanto por questões ambientais.

O Brasil possui um potencial de energia eólica de cerca de 140 mil megawatts, de acordo com Jorge Villar Alé, doutor em engenharia mecânica e coordenador do Centro de Energia Eólica da PUC-RS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul). Para efeito comparativo, a potência total da usina de Itaipu, responsável por boa parte da eletricidade usada no país, é de 14 mil megawatts. A capacidade instalada de energia eólica no país, no entanto, é ainda muito baixa diante do potencial: apenas 550 megawatts, concentrados especialmente nas regiões Nordeste e Sul, o que representa cerca de 0,4% da matriz energética do Brasil.

Isso porque o custo para a instalação de parques eólicos no Brasil ainda é bastante alto, se comparado com as hidrelétricas. "O valor médio negociado da energia eólica é de R$ 250 por megawatt/hora, muito superior ao custo das hidrelétricas, cujo preço médio nos leilões é de R$ 120 por megawatt/hora", aponta Villar Alé. Ele explica que sobre as empresas que atuam na fabricação local de aerogeradores - há somente duas no país - incide uma carga tributária de 33%. Já quem decide comprar no exterior o equipamento é taxado em 14%.

Para baratear os custos e tornar esse tipo de fonte energética viável, o especialista defende mais incentivos fiscais por parte do governo e políticas de longo prazo. O pontapé inicial do governo brasileiro nesse sentido será dado no próximo dia 14 de dezembro, quando deve acontecer o primeiro leilão de energia eólicado país.

Foram cadastrados para participar 441 empreendimentos em 11 Estados, totalizando 13 mil megawatts. "Estima-se que no leilão o preço teto deva ser inferior a R$ 200 por megawatt/hora. Mesmo com grandes expectativas acreditamos que os investidores e fabricantes de aerogeradores ainda não se sentem confortáveis com os valores negociados no Brasil, aguardando valores financeiros mais atrativos", afirma Villar Alé.

Denúncias atribuem danos ambientais a parques eólicos no Ceará

As paisagens litorâneas do Ceará têm ganhado novos componentes nos últimos tempos: altas torres brancas com enormes hélices, que captam a força dos ventos para geração de energia. Considerada uma das formas mais limpas de se produzir energia elétrica em vigor no mundo, a energia eólica, porém, tem sido questionada no Estado, onde ações do Ministério Público Federal têm denunciado diversos problemas socioambientais causados na instalação dos parques eólicos



Mais incentivos
A energia solar, com imenso potencial no Brasil, dada a posição geográfica e clima do país, também depende de mais incentivos para decolar. Segundo Arno Krenzinger, os chamados módulos fotovoltaicos, que convertem a radição solar diretamente em eletricidade, tem um custo elevado. "Converter a energia solar em energia elétrica ainda não é competitivo, pois ela ainda é muito cara. Enquanto a energia eólica custa o dobro da hidrelétrica, a solar custa quatro vezes mais caro", afirma.

Além de incentivos para baratear equipamentos, Krenzinger aponta o modelo adotado em muitos locais da Europa e do Japão como uma forma de tornar a energia solar mais atrativa. O modelo consiste em vender para as companhias elétricas o excedente de energia solar gerado em uma residência que decidisse adotar o sistema. Hoje, quando uma casa opta pela energia solar, ela fica interligada da mesma forma à rede comum de energia elétrica, e seu excedente é utilizado "de graça" pela vizinhança. Armazenar essas sobras em baterias é uma possibilidade, mas os altos custos não compensam, segundo o especialista.

No Brasil, ainda, das chamadas heliotermelétricas, que captam a energia em maior escala por meio de espelhos coletores, só há um protótipo sendo testado em Recife (PE), relata Krenzinger. "O sistema é ainda bastante caro." Hoje, menos de 1% da matriz energética do país é solar. "O percentual é praticamente desprezível", opina o especialista.

Apesar dos altos custos, ele acredita esse tipo de energia pode ser bem empregada em menor escala. "O Estado de Minas Gerias é um exemplo. A Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) usou as placas fotovoltaicas para fornecer eletricidade a áreas rurais que não eram atendidas pelas rede elétrica comum", cita. "Mas ela não pode ser um substitutivo da hidrelétrica", lembra.

Outras alternativas
Para equalizar o modelo de grandes hidrelétricas, que, apesar de ter o megawatt/hora mais barato, deixa o sistema mais vulnerável, Arno Krenzinger defende que as pequenas hidrelétricas são a melhor opção. "Elas são mais caras, mas são uma forma de diversificar. Se faltar água no reservatório grande, isso não quer dizer que vai faltar em todos os pequenos riozinhos do país. O problema todo é concentração, quanto mais eu estiver espalhado, mesmo que todo o sistema esteja interligado, é bom."

Custo de energia renovável é cada vez mais similar ao das termelétricas

Em tempos de apagão, o tema energia volta a circular com força nas principais rodas de debate. Como o consumo só tende a aumentar, está na hora de pensar em outras possibilidades, como fontes de energia renovável, uma alternativa cada vez mais viável



Já o presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear (Aben), Guilherme Camargo, acredita que colocar mais usinas geradoras próximas aos grandes centros de consumo ajudaria a reduzir o efeito "cascata" que causou a falta de luz desta semana. "E, nesse contexto, eu acho que a nuclear é a melhor, pois as usinas termelétricas movidas a combustíveis fósseis são mais caras e emitem gases do efeito estufa", diz.

A especialista em física das radiações e professora da USP (Universidade de São Paulo), Emico Okuno, levanta outras questões no que diz respeito à energia nuclear. A primeira é o custo de implantação de uma usina deste tipo, que é bastante alto. No Brasil, ainda, há a demora na construção, o que encarece ainda mais o projeto. Angra 2, por exemplo, começou a ser construída e 1976 e ficou pronta em 2001, sendo que nos Estados Unidos o prazo médio de construção é de 5 a 6 anos.

Outra grande questão, que faz com que as usinas nucleares sejam alvo de protesto de inúmeros grupos ambientalistas, são os rejeitos altamente radioativos que elas geram, que demoram até 10 mil anos para se decompor. "Não existe um depósito para esse tipo de rejeito em lugar nenhum do mundo. Algumas países já chegaram a jogar no fundo do mar, mas a água salobra e qualquer contêiner pode ser corroído. Outros colocam em minas abandonadas de sal, que também são altamente corrosivas. Enterrar é uma questão complicadíssima, porque você também não sabe por quanto tempo o material do contêiner aguentará", afirma.

Outro grande problema chama-se "descomissionamento" - desmontar um reator quando a usina for desativada e guardar esse rejeitos em algum lugar. "Tem um reator nos Estados Unidos que foi o pioneiro em descomissionamento. Ele funcionou durante 24 anos e deixou 105 milhões de quilos de rejeitos, sendo 70 milhões de quilos de concreto altamente contaminado. O descomissionamento custou 635 milhões de dólares, ou seja, três vezes o preço da construção, que foi de 231 milhões de dólares", conta Okuno.

Segundo Guilherme Camargo, no entanto, "o problema dos rejeitos está equacionado no Brasil". "Eles são guardados na própria usina, com absoluta segurança." Quanto aos custos do comissionamento, ele diz que já estão incluídos no preço da tarifa.

*Colaborou Haroldo Ceravolo Sereza

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