Policiais são insuflados a agir como "Rambos", diz coordenador de pesquisa em 6 países

Fabiana Uchinaka
Enviada especial do UOL Notícias*
Em Belo Horizonte

Você concorda com a opinião do especialista? Policiais agem como "Rambos"?


Atitudes abusivas e exageradamente violentas partem, na maioria das vezes, de policiais que se sentem desrespeitados e tiveram a autoridade desafiada, independentemente da gravidade da situação. A afirmação foi feita pelo professor Thomas Feltes, do Departamento de Criminologia e Ciências Políticas da Universidade Ruhr, na Alemanha, que coordenou um estudo em seis países (Brasil, Austrália, Alemanha, Grã-Bretanha, Holanda e Venezuela) sobre uso da força policial.

Segundo ele, reações assim são basicamente influenciadas pela filosofia pregada nas organizações, pelas expectativas criadas por superiores e colegas e pelas políticas adotadas nas unidades, "com grupos insuflados a serem durões e com excesso de autoestima". "Um bando de Rambos", declarou.
  • Fabiana Uchinaka/UOL

    O professor Thomas Feltes segura um jornal alemão que destaca o problema da violência no Rio de Janeiro. "Quando pensam em Brasil, os alemães lembram das praias, do futebol e da polícia", diz



"Descobrimos que, incrivelmente, o mesmo comportamento acontece em todos os lugares pesquisados. A ação racional é substituída por comportamento emocional", explicou.

Isso não significa, no entanto, que a ação policial não seja bem diferente de um país para o outro. Feltes afirmou que menos de 10 pessoas são mortas pela polícia por ano em toda a Alemanha. Enquanto só no Estado do Rio de Janeiro, são em média três pessoas por dia.

"Não é a polícia que é violenta. É a situação no Rio de Janeiro que é violenta. Você precisa mudar essa situação, e então a polícia também vai mudar. A polícia reage a uma dada situação", tentou justificar, acrescentando que a violência nas comunidades fluminenses piorou nos últimos dois anos. "Nem mesmo a polícia mais bem treinada e supervisionada poderia lidar bem com a situação da violência no Rio", disse.

Para ele, os policiais daqui são mal pagos, mal organizados, lidam com milícias e enfrentam conflito de interesses políticos e, por isso, são incapazes de atuar de forma adequada. "Os brasileiros não são culturalmente mais violentos. Não há diferença em termos de países, mas, sim, dentro de unidades policiais", afirmou.

Ele ressalta ainda que essa postura defensiva, que provoca uma reação violenta, deixa a polícia ainda mais desacreditada perante a população. "É um ciclo vicioso. Se a polícia não se mantém calma, a situação vai piorando. Por isso é tão importante educar e treinar os policiais em solução de conflitos e mediação para que a situação se mantenha racional", analisou.

O coronel Fábio Manhães Xavier, comandante da Academia de Polícia Militar de Minas Gerais, concorda e defende que a mudança comece já no recrutamento e no treinamento dos policiais. "A qualidade da polícia depende da qualidade de seus indivíduos, por isso recrutamento, seleção e treinamento são tão importantes e devem ganhar atenção especial para evitar que pessoas que já apresentam problemas se tornem policiais."
  • Fabiana Uchinaka/UOL

    O coronel Fábio Manhães Xavier, comandante da Academia de Polícia Militar de MG, defende novos filtros para o recrutamento e regulamentação para o uso da arma de fogo pelos policiais. "A falta de definição deixa a polícia fragilizada", afirmou



Segundo ele, hoje existe uma dificuldade para estabelecer critérios e filtros que evitem o recrutamento de pessoas que já tiveram um passado ligado ao crime. "Isso é perigoso porque damos treinamento, técnicas de polícia e conhecimento a pessoas que podem usar de forma indevida em prol da própria criminalidade", afirmou.

Para o coronel, o desafio é conciliar o treinamento recebido pelos novos policiais com a atitude intrínseca dos policiais mais antigos, que estão trabalhando em uma área e acham que as coisas precisam ser feitas de uma certa maneira. "É importante incluir policiais que já estão trabalhando nas ruas nos treinamentos e colocar os professores também na rua, para saber o que está acontecendo."

Outro ponto levantado pelo coronel é a falta de definição sobre o uso da força, que, de acordo com ele, "é conveniente para algumas instâncias, mas deixa a polícia fragilizada".

"A inexistência de uma regulamentação específica para o uso da arma de fogo não exime o policial de ter referências sob o ponto de vista ético e comportamental, mas essa regulamentação traria parâmetros para nós avaliarmos na prática como esse policial está atuando e, com participação ampla da sociedade, do Poder Judiciário, da Defensoria e do Ministério Público, aumentaria a legitimidade da atuação policial. Nesse sentido, daríamos mais segurança a esse policial", explicou.

Os especialistas participaram do 1° Seminário Internacional Qualidade da Atuação do Sistema de Defesa Social, organizado pelo governo de Minas Gerais.

* A repórter viajou a convite do governo de Minas Gerais

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