Sobre apagões no Rio, especialistas criticam manutenção e apontam falta de investimentos

Talita Boros Do UOL Notícias Em São Paulo

Moradores de várias regiões do Rio de Janeiro sofreram durante esta semana com constantes interrupções no fornecimento de energia. Na zona sul, por exemplo, blecautes chegaram a durar até 24 horas, e o comércio local se viu obrigado a fechar as portas.

Enquanto a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) cobra explicações da Light, distribuidora de energia responsável por parte da capital, e exige a apresentação de um "Plano Verão" com as principais medidas que devem ser tomadas em curto prazo para acabar com os apagões, especialistas apontam a necessidade de investimentos e criticam a manutenção do sistema.

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Para Adriano Pires, diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, a solução para os apagões não está apenas na manutenção de equipamentos para corrigir possíveis defeitos momentâneos, muito menos em investimentos no mesmo sistema elétrico adotado hoje. "As distribuidoras de energia devem investir em melhorias tecnológicas, ter outras concepções. De nada adianta colocar mais cabos nos canos subterrâneos. O sistema está saturado", disse.

José Goldemberg, professor do Instituto de Eletrotécnica da USP (Universidade de São Paulo) concorda que a longo prazo, novas tecnologias geradoras de energia são o sistema ideal para o país, mas não isenta de culpa a Light sobre os blecautes dos últimos dias.

"Isso se chama falta de manutenção e só. É claro que o sistema cresceu, mas não acredito em sobrecarga. As tubulações do Rio são antigas e precisam de manutenção. Foi negligência da Light que, ao que tudo indica, não investiu o suficiente", afirmou.

Possível solução
A saída para o problema, na opinião de Pires, é investir em tecnologia e buscar alternativas para o sistema: gás natural e paineis de energia solar seriam boas opções de geração descentralizadas, ideiais para substituir o modelo usado hoje, que é igual ao de 10 anos atrás, quando o consumo de energia e o acesso à bens da linha branca eram extremamente menores.

Goldemberg explica que nesse sistema descentralizado, uma casa que tivesse paineis de energia solar suficientes para prover seu gasto, poderia jogar para a rede a sobra de energia produzida.

"Se o Brasil não investir em novos modelos de geração de energia e não descentralizar a operação, novos apagões poderão acontecer", critica Pires. "O país precisa de políticas estruturais para o sistema elétrico", completou.

Incentivo e função do governo
"Também temos que considerar que para a Light ou outras distribuidoras de energia investirem nessas tecnologias teria de haver revisões tarifárias para essas empresas. Seriam necessários incentivos do governo", ressaltou o especialista.

Pires destaca que de nada adianta a Aneel solicitar relatórios e multar as distribuidoras depois que os consumidores já foram prejudicados pelos apagões. Na opinião do consultor, o órgão deveria fiscalizar as concessionárias o ano inteiro e não agir somente em momentos de crise.

O professor da USP acredita que a Aneel não tem funcionários suficientes para fiscalizar todo a rede elétrica do país. "Acredito que a Aneel deve fiscalizar o desempenho das distribuidoras. Acho que eles nem podem checar a manutenção real da rede, não sei se os fiscais têm acesso a isso", disse.

Explicação oficial
Em nota oficial, a Light atribuiu os apagões no Rio de Janeiro a uma falha técnica em três dos oito cabos do sistema subterrâneo da cidade. Segundo a distribuidora, esse problema teria sido causado pela conjunção de índices elevados de carga, ou seja, pela sobrecarga do sistema.

"O aumento do consumo de energia é natural nessa época de altas temperaturas", diz Pires. Na opinião do especialista, a chegada do verão, aliada ao saturamento do sistema, é uma explicação plausível para os decorrentes blecautes no Rio.

O vice-presidente executivo e de relações com investidores da empresa, Ronnie Vaz Moreira, disse nesta sexta-feira (27), que a Light deve acelerar os investimentos para evitar que o forte aumento do consumo de energia provoque novos problemas na rede. "Como o aumento da temperatura veio antes do previsto e com maior intensidade, estamos revisando o plano", disse o executivo, durante de evento promovido pela em Apimec-SP (Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais).

Aneel se manifesta
O diretor geral da Aneel, Nelson Hubner, disse nesta sexta-feira, em entrevista coletiva na capital fluminense, que pelas primeiras análises técnicas sobre o relatório apresentado pela Light a respeito dos apagões que estão ocorrendo no Rio de Janeiro esta semana "não há como não multar a empresa". "A penalidade existe para ser aplicada", afirmou ele, destacando que dentro de duas semanas a agência reguladora deverá emitir um parecer com o valor a ser cobrado da empresa.

Segundo ele, também foi exigido que seja montado um planejamento de longo prazo para que a companhia melhore a cobertura de sua rede. Hubner afirmou que faltou um maior acompanhamento da Light, o que fez com que a companhia não percebesse que estava próxima do limite de sua capacidade de atendimento. "A empresa argumenta que o mercado estava estabilizado há anos e cresceu de repente. Não podemos aceitar isso. Ela tinha que ter mais controle", comentou.

*Com informações da Agência Brasil e Agência Estado

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