Lei antifumo derruba em 80% nível de monóxido de carbono em ambientes fechados, diz InCor

Guilherme Balza
Do UOL Notícias
Em São Paulo

94% da população mundial está exposta a fumo passivo

Mais de 94% da população mundial não está legalmente protegida contra o fumo, ficando assim exposta à principal causa evitável de mortes, disse a Organização Mundial da Saúde (OMS) na quarta-feira


Estudo coordenado pelo InCor (Instituto do Coração do Hospital das Clínicas de São Paulo), divulgado nesta quarta-feira (9), mostra que os índices de monóxido de carbono (CO) provenientes da fumaça de cigarro em estabelecimentos fechados - bares, restaurantes e casas noturnas - caíram 80% desde a entrada em vigor da lei antifumo na capital paulista, em 7 de agosto deste ano.

O levantamento foi feito por técnicos da vigilância sanitária, que compararam a qualidade do ar de 710 estabelecimentos de vários bairros capital paulista em dois momentos: antes de a lei entrar em vigor e após três meses de vigência da lei. Para obter os dados, os agentes utilizaram dois tipos de monoxímetros (medidores do nível de monóxido de carbono).

Nos locais pesquisados, os índices de monóxido baixaram, em média, de 5 ppm (partes por milhão) para 1 ppm nos ambientes fechados. Já nos ambientes parcialmente fechados, a redução ficou entre 66% e 75% - de 4 a 3 ppm para 1 ppm. "Esses resultados enterram de vez o conceito do fumódromo", diz Jaqueline Scholz Issa, cardiologista do InCor e coordenadora da pesquisa.

A pesquisa também foi realizada com 400 garçons que trabalham nos estabelecimentos que integraram o estudo. Entre os garçons não fumantes, a taxa de monóxido expelido caiu de 7 ppm para 3 ppm, redução de quase 60%. Já entre garçons fumantes, a redução foi de 14 ppm para 9 ppm, uma queda de 35,7%. "Para ter uma ideia, 5 ppm é um nível que começa a causar danos à saúde", afirma a pesquisadora.

O monóxido de carbono é um gás tóxico produzido pela queima em condições de pouco oxigênio, está presente não só na fumaça proveniente do cigarro, mas também na fumaça decorrente da queima de carvão, derivados de petróleo e qualquer material rico em carbono. "Eu fiz uma medição na avenida Rebouças [via movimentada na zona oeste da capital], por exemplo, e o índice de monóxido de carbono foi de 6 a 7 ppm", diz Issa.

No organismo humano, o CO reduz a oxigenação do sangue, atrapalhando a condução de oxigênio e nutrientes a células, tecidos e órgãos. Entre as diversas ocorrências resultantes do consumo excessivo de monóxido de carbono está o infarto no miocárdio e o acidente vascular cerebral (AVC).

Em 49 estabelecimentos pesquisados, o índice de monóxido de carbono foi superior a 9 ppm antes de a lei antifumo entrar em vigor. Nesses locais - a maioria casas noturnas - a taxa média de CO antes da lei era de 14 ppm. "Se esse índice fosse verificado em via pública, seria necessário adotar medidas drásticas, como proibir a circulação de carros", afirma a cardiologista. Após a lei vigorar, os índices nesses ambientes problemáticos caiu para 2 ppm.

De acordo com a pesquisadora do InCor, somente em agosto do ano que vem, quando a lei antifumo completa um ano, será possível descobrir se houve redução na ocorrência de infartos e AVCs entre a população.

Garçons comentam a lei antifumo
Apesar dos resultados apresentados pela pesquisa, o garçom Celso de Abreu, 31, avalia que a lei antifumo trouxe mais prejuízos do que benefícios para a sua categoria. "Essa lei reduziu em 40% o movimento dos restaurantes. Isso gerou muito desemprego. Todos os garçons que eu converso falam a mesma coisa", afirma.

Segundo Abreu, no restaurante em que trabalha, uma cantina italiana de alto padrão nos Jardins com aproximadamente 100 funcionários, cerca de 10% do pessoal foi demitido após a lei. "Os clientes preferem ir comer em algum lugar com mesa na rua", diz.

Na profissão há 14 anos, ele não notou diferença na qualidade do ar após a lei antifumo: "os clientes que fumavam ficavam na área de fumantes e ninguém reclamava", acrescenta.

Para Marcílio Menezes, 42, que há nove anos trabalha no balcão de um bar na rua da Consolação, a lei tornou o ar dos bares mais "respirável". "Indiretamente o garçom era o sujeito que mais fumava. Depois da lei, o ar ficou melhor, mais 'respirável'", diz.

De acordo com Menezes, a lei antifumo não reduziu a clientela do bar em que trabalha. "Eu achava que a lei não ia pegar, mas ela pegou. E não teve diminuição da clientela aqui", afirma.

Já para Fernando Ferreira, 19, a lei não modificou substancialmente a rotina do bar em que é balconista há um ano. "Não mudou muita coisa. O movimento caiu bem pouco, porque tem cliente que quer beber e fumar ao mesmo tempo, mas continua praticamente na mesma", diz.

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