Após tremor, Haiti sofrerá com doenças por pelo menos um ano

Maurício Savarese
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Destruição no Haiti

  • Imagens aéreas mostram a destruição em Porto Príncipe, capital do Haiti, depois do terremoto de sete graus na escala Richter que atingiu o país

Infecções e problemas sanitários após o terremoto de terça-feira devem causar milhares de mortes por pelo menos um ano entre os 3 milhões desabrigados no Haiti, disseram especialistas ouvidos pelo UOL Notícias. Estimativas iniciais do presidente do país caribenho apontam até 50 mil vítimas no desastre.

De acordo com os médicos, os primeiros dias após o incidente serão cruciais para salvar alguns dos soterrados e minimizar traumas de parte da população haitiana, que não conta com hospitais adequados nem com água potável e alimentos em nível suficiente. Mas muitos desses atingidos, mesmo sofrendo de doenças e traumas curáveis, vão perder a vida por conta da falta de atendimento médico.

Entre as doenças que podem prejudicar milhares de pessoas no Haiti estão tétano, tuberculose e leptospirose. Os especialistas também temem infecções cruzadas: como muitas pessoas sem equipamento e feridas participam das buscas, podem se contaminar com o vírus HIV e com hepatite A.

"Sem ter nenhuma estrutura, o país vai ter problema com a mortalidade alta nessas primeiras horas com os soterrados e depois com a morbidade a médio e longo prazo. Quem sobreviver vai conviver pelo menos por um ano com risco de doenças que podem matar ou debilitar a saúde pelo resto da vida", disse Evaldo Estanislau Affonso de Araújo, infectologista do Hospital das Clínicas, em São Paulo.

Zilda Arns: uma vida dedicada ao próximo

  • Arquivo Folha Imagem

    Zilda Arns, 75, fundadora e coordenadora da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, participava de missão humanitária e está entre as vítimas do terremoto de 7 graus que assolou o Haiti

"Nesse primeiro momento as situações mais óbvias são de trauma, com muita gente morta ou morrendo em decorrência disso. Vários desses traumatismos poderiam ser recuperados em um local onde houvesse mínima estrutura para lidar com uma tragédia e as pessoas pudessem ser atendidas. Não é o caso e com o tempo os sobreviventes fragilizados vão ter de resistir a doenças", comentou.

A ONG Médicos sem Fronteiras informou na quarta-feira que todos os hospitais de Porto Príncipe, capital haitiana, estão destruídos total ou parcialmente e que faltam medicamentos e profissionais para ajudar nos esforços de resgate das vítimas. A entidade deu seus primeiros relatos de falta de água potável e de alimentos, o que pode nos próximos dias gerar surtos de diarréia capazes de matar principalmente crianças e idosos com saúde mais frágil.

Retirada
Para Paulo Ouzon, infectologista e clínico-geral da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), a principal preocupação no Haiti depois do resgate deve ser a retirada dos sobreviventes das áreas de risco para evitar contágio de doenças. "O melhor é fazer isso rapidamente. Enquanto não fizerem a limpeza da região que foi afetada, a chance de contágio e de surtos de doenças será grande por muito tempo", afirmou.

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"Os milhares de corpos vão ficar ao léu apodrecendo, haverá o mal estar, mas isso não leva a doenças", afirmou Ouzon. "O problema de as pessoas estarem nas ruas por medo de novos tremores e por falta de lugar está na exposição aos roedores, por exemplo, que cria ambiente para doenças até mais graves que a leptospirose. Também há possibilidade de doenças tropicais transmitidas por mosquitos."

  • Arte UOL

    Nome oficial: República do Haiti
    Capital: Porto Príncipe
    População: 9.035.536
    Idiomas: francês e francês crioulo
    Religião: católica, protestante,afro-americanas
    Etnias: negros (95%), mulatos e brancos (5%)
    IDH (Índice de Desenvolvimento Humano): 148º
    Tipo de governo: república presidencialista
    Divisão administrativa: o país é dividido em 10 departamentos


Com 80% de sua população de cerca de 10 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, o Haiti conta com uma frágil rede de esgotos, hospitais mal equipados e importa a maior parte do alimento que consome. Mestrando de Relações Internacionais da PUC-Rio, Danilo Marcondes visitou o país em 2008 para sua dissertação a convite do Ministério da Defesa. Segundo ele, a situação no interior haitiano é menos complicada do que em Porto Príncipe.

"Na capital é um amontoado de gente, é uma cidade sem planejamento onde o deslocamento é difícil apesar de não haver trânsito nem transporte público", afirmou. "Não dá para circular ali e isso deve dificultar os resgates. No interior existe muito espaço para agricultura familiar e, embora a estrutura seja pior, as pessoas estão mais espalhadas", comentou. Marcondes disse que ouviu relatos vindos do Haiti de que pessoas da capital rumavam ao interior para buscar atendimento médico.

"Quando visitei o país fui orientado a tomar vacinas contra febre tifóide, febre amarela, poliomelite e tétano. Falaram sobre malária, uma doença sem vacina. Mas o problema mais grave na saúde não são os surtos, é a falta de alimentos e de água potável, como aconteceu na passagem dos furacões pelo país em 2008", lembrou o pesquisador. Mais de 6 mil pessoas morreram devido às intempéries.

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