Distorção faz lista de pontos de alagamento minimizar caos das chuvas em SP

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

A rua em que você mora sofre com alagamentos?

Divulgada diariamente para a imprensa e principal levantamento oficial sobre os efeitos da chuva sobre a malha viária de São Paulo, a lista de pontos de alagamento do Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), órgão que funciona como uma central de informações do governo, traz distorções que minimizam o quadro caótico que a cidade vive nos dias de tempestades.

Em uma análise feita em algumas datas desta temporada de chuvas, o UOL Notícias confirmou que vias submersas pelas águas simplesmente não aparecem nos arquivos do CGE.

ZONA SUL - 21 DE JANEIRO DE 2010

  • A Rua Alexandre Levi, no Cambuci, ficou tomada pela água após um forte temporal. Ocorrência não foi contabilizada nem divulgada pelo governo

Ontem mesmo, a assolada rua Alexandre Levi, no Cambuci, foi esquecida pelas autoridades. Completamente tomada pela água, a via ficou com o fluxo de carros bloqueado mas, mesmo assim, não entrou na contabilidade oficial.

Já no último dia 11 de janeiro, a rua Professor Ascendino Reis, na Vila Clementino, na zona sul, próxima ao Tribunal de Contas do Município (TCM), enfrentou um grande alagamento.

Como as imagens captadas no local mostram, veículos ainda tentaram enfrentar a situação, mas alguns foram vencidos pela água. Nos entornos, a cheia obrigou outros motoristas a desviar o caminho, piorando o trânsito na região. Mesmo assim, em uma consulta no relatório produzido pelo CGE, não há nem sinal da ocorrência na Ascendino Reis, subestimando o cálculo oficial. Ontem, da mesma forma, a situação se repetiu.

ZONA SUL - 11 DE JANEIRO DE 2010

  • Apesar da água que chegou a danificar carros, este ponto na rua Professor Ascendino Reis, na Vila Clementino, não existiu para o CGE



A mesma omissão foi flagrada na rua Norma Pieruccini Giannotti, na Barra Funda, na chuva que atingiu a cidade no dia 8 de dezembro de 2009. Imagens mostram os pedestres caminhando pela via alagada, com água quase na altura da cintura. Para os carros, a travessia era impossível. Se procurado no site da central de informações da prefeitura, no entanto, o transtorno na Norma Pierruccinni não está registrado e, portanto, não existiu para o CGE.

Procurado, Hassan Barakat, engenheiro responsável pela área no CGE, confirmou que a medição depende do agentes da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). São os "marronzinhos" que, ao encontrarem um ponto cheio d'água, avisam a central da CET, que por sua vez notifica o centro de emergências. Se eles não viram, o ponto não existiu para os órgãos municipais.

Os agentes, no entanto, além de estarem envolvidos com outras atividades, monitoram apenas 835 quilômetros de ruas, cerca de 5% da malha viária da capital. "Pegamos mesmo os principais corredores e o centro expandido. Não temos a pretensão de fazer essa contagem em toda a cidade, como nos bairros", confirma Barakat. Apesar da afirmação do engenheiro, não há no site do CGE nenhuma ressalva explicando à população que a listagem se trata de um levantamento parcial.

ZONA OESTE - 08 DE DEZEMBRO DE 2009

  • A lista oficial de pontos de alagamento da Prefeitura também não registrou a ocorrência na rua Norma Pierruccinni, na Barra Funda



Prevenção prejudicada
Além de servir de informação rápida para a população, a lista de pontos de alagamento também é enviada, após cada dia de chuva, para vários departamentos da administração municipal, como as subprefeituras e a secretaria de Infra-estrutura Urbana.

Como explica Domingos Gonçalves, coordenador de drenagem da secretaria de Coordenação de Subprefeituras, de posse desse resumo dos dados, o governo tabula as ocorrências para montar um mapa que mostre a periodicidade e a gravidade do impacto da chuva pela capital. "Uma equipe avalia a frequência de cada ponto. Com esse trabalho, a prefeitura pode programar pequenas ou grandes obras e também o serviço de limpeza de bocas-de-lobo", conta Gonçalves.

No entanto, como a lista produzida pelo CGE "esquece" diversos pontos de alagamento, tal empenho pode ficar prejudicado. Ausentes da lista, as citadas ruas Professor Ascendino Reis e Norma Pieruccini Giannotti, por exemplo, dificilmente poderiam ser alvo de um mutirão de limpeza no dia seguinte de uma forte chuva, já que as autoridades não souberam que elas encheram.

Questionado sobre essa distorção, o coordenador de drenagem da prefeitura afirmou que "sempre tem alguém que fica sabendo" dessas ocorrências. "Pode ter certeza que alguém viu esses alagamentos nas subprefeituras locais", disse ele, minimizando a omissão na listagem do CGE.

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