Cinquenta dias depois de primeira enchente, situação em áreas alagadas de SP piora

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Cinquenta dias depois de registradas as primeiras enchentes nos bairros da várzea do rio Tietê, na zona leste de São Paulo, quase nada foi feito para resolver a situação das milhares de pessoas que convivem diariamente com água e esgoto. As autoridades responsáveis, mesmo quando cobradas judicialmente, não são capazes de dar uma resposta para os alagamentos e continuam a culpar a chuva pela tragédia. Enquanto isso, os moradores veem, dia após dia, a água subir até a altura da cintura.

Além dos arredores da rua Capachos, no Jardim Romano, que enfrenta a água represada desde o dia 8 de dezembro do ano passado, o bairro da Chácara Três Meninas, no Jardim Helena, ambos na região do Jardim Pantanal, teve suas ruas alagadas durante o fim de semana. Em questão de minutos, a água invadiu casas e fez os moradores perderem tudo.

Dezenas de pessoas ouvidas pela reportagem do UOL Notícias disseram que esta é a primeira vez que enfrentam um alagamento assim e que a chuva que atingiu o bairro não foi forte o suficiente para provocar uma enchente dessas proporções.

“Moro aqui há quinze anos. A água nunca entrou em casa desse jeito. E nem choveu tanto para deixar nesse estado”, disse a professora Sueli Aparecida dos Anjos, 53. Na casa onde ela vive, a água chegou até a altura das tomadas e ela precisou desligar a energia elétrica. Está sem luz desde domingo.

Ao conduzir a reportagem pelo labirinto de caminhos tortos da favela que fica na beira do rio Tietê e que ela conhece como a palma da mão por ser professora de diversas crianças da creche da região, Sueli contou que foi morar ali depois de ficar viúva. “Saí de Guaianases [no extremo leste da cidade] e vim pra cá em uma situação muito difícil, com três filhos. Quase fiquei em uma dessas casas aí da margem. Tive sorte. Então, eu digo que hoje estou no paraíso. Por isso corro pra ajudar quem realmente precisa.”

Para ela, quem realmente precisa de ajuda são as famílias que são vistas com água até a cintura carregando sacos e juntando em carrinhos os poucos pertencem que sobraram. Caso de Rafael Dantas da Cruz, 21, que decidiu deixar a casa onde mora há três anos e nesta terça-feira (26) era visto em meio à mudança. “Não sei pra onde vou. Só sei que não dá pra morar dentro da água... Vou pra debaixo da ponte, né?”, afirmou.

O vizinho dele, Joselito Antonio da Silva, 32, também pretende sair, mas não pelo valor oferecido pela prefeitura, que é de R$ 300 em forma de auxílio-moradia. “Tenho quatro filhos para criar sozinho. Não tenho condições de aceitar esse valor. Não existe casa por esse preço”, explicou.

Outra que reclamou do valor do benefício foi Mercedes Mingroni, 54. “Paguei R$ 13 mil por essa casa sete anos atrás e ainda fiz um monte de reformas. Não vou vender. Não vou sair por R$ 300”, disse, revoltada, enquanto o marido tentava usar uma bomba improvisada para tirar a água que acumulou na casa durante o temporal.

“Quem vai se cadastrar é recebido de forma agressiva. Quando as pessoas aceitam sair, não recebem o dinheiro. E ninguém na região quer alugar casa para famílias que têm crianças”, explicou Maria Zélia Souza Andrade, que faz parte do Movimento por Urbanização e Legalização do Pantanal (MULP).

Em umas das ruas do bairro, um grupo de mulheres se espalhava por uma cama que foi montada na garagem, quase na calçada. Nos fundos, a água batia no joelho. “Aqui onde eu agora estou dormindo, eu tinha uma lojinha de doces”, conta Neuza Gomes Ferreira, 43, que vive há seis anos na Chácara Três Meninas com o filho de 1 ano e 3 meses. “Ou seja, além de perder tudo, não tenho como trabalhar”, explicou.

Na rua paralela, Aiac de Souza Santos, 19, deslizava sobre as águas lodosas, enquanto crianças se divertiam brincando de tirar uma cobra da poça. “Chamei os meninos da rua para montar isso aqui. Tem que ter criatividade, né?”, disse ele, sobre uma balsa feita de garrafas pet e paletes. Era assim que ele passeava pela rua da casa onde mora, que, segundo ele, estava com água até a coxa.

“Tá vendo? O lazer na periferia é esse. Quando chove tem lagoa”, resumiu Sueli.
 

Veja onde fica a área alagada

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