Moradores de área alagada da zona leste de SP denunciam dificuldade para notificar casos de leptospirose

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 18h13

Além dos transtornos provocados pelos alagamentos nas ruas, nas casas e nas escolas, e do convívio diário com a água parada e contaminada com esgoto, moradores da região do Jardim Pantanal, na zona leste de São Paulo, precisam enfrentar o descaso nos postos de saúde. Eles reclamam do atendimento médico e denunciam dificuldade para notificar casos de leptospirose.

Médico alerta para exame incompleto e deficiente

É preciso colher duas amostras de sangue para sorologia. Uma logo que o paciente é atendido e uma depois de 15 dias. Isso não está sendo feito na rede pública. Ninguém faz o
exame completo e os casos ficam só na suspeita

Artur Timerman, infectologista

A comerciante Maria Rosália Alves Silva, 44, que mora na Cidade de Deus, um dos bairros da Várzea do rio Tietê, contou ao UOL Notícias que o filho Ruan Lucas Alves Amaral, 15, apresentou os sintomas da doença por mais de 10 dias e mesmo assim a AMA (Assistência Médica Ambulatorial) do Jardim Helena e o Hospital Santa Marcelina do Itaim Paulista se negavam a dar um diagnóstico para leptospirose.

“Ele ficou doente no dia 18 de dezembro. Tinha todos os sintomas, febre alta, dores no corpo, na cabeça, vômito, calafrio. A febre não baixava, mas na AMA só davam dipirona [remédio usado como analgésico e antitérmico] e diziam que era meningite. Ele já tinha tido meningite e eu sabia que não era”, disse.

No dia 22 de dezembro, Ruan foi transferido para o hospital. “No dia seguinte, queriam dar alta. Mas eu disse: só saio com a sorologia. As freiras do hospital me olhavam feio, criticavam o que eu estava fazendo. Mas depois disso acionaram a Vigilância Sanitária e a Secretaria de Saúde. No dia 26, eles colheram o material”, afirmou.

Três dias depois, o garoto recebeu alta e passou a ser atendido na UBS [Unidade Básica de Saúde] da região. Ali, contou Maria Rosália, o pediatra responsável por Ruan instruiu-a a procurar a direção para notificar a suspeita de leptospirose. “A chefe de lá me disse que não precisava e se recusou a notificar”, relatou.

Passados dez dias, a comerciante recebeu a Secretaria de Saúde em sua casa. Os agentes levavam o resultado positivo para leptospirose. Ela foi instruída a continuar o atendimento médico, para evitar problemas decorrentes dadoença. “Mas meu filho não pode sair de casa por causa da enchente. Vai fazer como? Alagou tudo lá em casa e a água está subindo”, disse.

A dona de casa Rosangela Paes da Silva, 30, enfrentou o mesmo problema. Seu filho Kaio, 8, ficou internado durante uma semana no Hospital Municipal Tide Setúbal, em São Miguel Paulista, sem que dessem um diagnóstico preciso. De acordo com ela, os médicos suspeitavam de dengue e leptospirose.

Antes de deixar o hospital, o menino passou por um teste sorológico, mas quase um mês depois o resultado não havia sido passado para a mãe. “Agora ele está em Suzano [a 50 km de São Paulo] com meu irmão, porque aqui ele não podia fazer os exames”, explicou ela, com a água no joelho, na porta de sua casa na Chácara Três Meninas.

Exame incompleto
O infectologista Artur Timerman, do Hospital Israelita Albert Einstein e do Instituto Trata Brasil, uma ONG que trabalha para universalizar o acesso ao saneamento básico, confirma o problema da subnotificação na área do alagamento.

“Existe, sim, uma grande deficiência na comunicação dos casos tanto à Prefeitura quanto ao Governo do Estado. Sabemos que existe um número muito grande de casos suspeitos, que temos convicção de que são casos de leptospirose, mas que ficam só na suspeita porque não é feito o exame completo”, disse.

Segundo ele, para obter um resultado confiável é preciso colher duas amostras de sangue para sorologia. Uma logo que o paciente é atendido e uma depois de 15 dias. “Isso não está sendo feito na rede pública. Ninguém faz o exame completo”, afirmou.

Para o infectologista, o método usado pela rede de saúde pública é deficiente. “Já existe um método mais rápido, o teste de Elisa, que apresenta o resultado da sorologia em uma semana. O exame que está sendo aplicado hoje, o teste de hemaglutinação, é muito trabalhoso e demorado. Um absurdo. É uma questão de incompetência”, declarou.

Entenda a doença

* Normalmente transmitida pela urina de ratos contaminada pela bactéria espiroqueta

* No Brasil, é comum a infecção nas águas das enchentes

* O tempo de incubação
varia entre dois e sete dias

* A bactéria da leptospirose penetra por lesões na pele

* Na maioria dos casos, não é grave. Mas se não for tratada corretamente pode levar à morte

* Os sintomas são febre, dor de cabeça, dor muscular e prostração

* Nos casos mais graves, pode haver hemorragia e icterícia

A Secretaria Municipal de Saúde informou que até o momento apenas três casos de leptospirose foram confirmados nos bairros alagados da zona leste, mas não explicou se o caso de Ruan é um dos registrados. Ela disse ainda que não foi verificado um aumento no número de atendimentos nas unidades de saúde da região. Os casos suspeitos, segundo a assessoria de imprensa, não são contabilizados.

Timerman defende ainda que o poder público distribua antibióticos para combater a leptospirose, invista na prevenção desta e de outras doenças relacionadas à água contaminada, como a hepatite A e a febre tifóide, e aplique vacinas na população que tem contato com a água suja.

“A leptospirose pode ser facilmente tratada com dois comprimidos de um antibiótico que custa barato e resolve 90% dos problemas. Para hepatite A e febre tifóide há vacinas extremamente eficazes, que deveriam fazer parte do calendário de vacinação mas não são oferecidas pelo governo. Mas o pior é que os moradores não recebem qualquer orientação para a prevenção das doenças”, disse.

De acordo com a secretaria municipal, os agentes de saúde visitam as áreas afetadas para buscar casos suspeitos, informar a população sobre os sintomas da doença e sobre como proceder na limpeza das casas.

A doença
A leptospirose é uma doença transmitida, normalmente, pela urina de ratos que estão contaminados com a bactéria espiroqueta. No Brasil, é comum que a infecção aconteça pelo contato com águas de enchentes. Por isso, a recomendação é para que os moradores das áreas afetadas evitem contato com a água, usem botas e luvas, o que, segundo moradores, é praticamente impossível quando se vive há 60 dias com água dentro de casa.

O tempo de incubação varia entre 2 e 7 dias e a bactéria penetra por meio de lesões na pele. Na maioria dos casos, não é grave. No entanto, a doença pode ter quadros mais intensos, com hemorragia, icterícia (cor amarelada da pele e da mucosa), febre, dor de cabeça, intensa dor muscular e prostração. Nestes casos, a taxa de mortalidade chega a 15%.

Como as manifestações iniciais são semelhantes às de outras doenças, como a febre amarela, a dengue e a malária, é preciso fazer um exame sorológico para obter a confirmação. As condições de inundações, porém, favorecem um resultado positivo para leptospirose.

O outro lado
Na tarde desta sexta-feira, a Secretaria Municipal de Saúde informou que "segue rigorosamente os critérios de confirmação dos casos suspeitos de leptospirose preconizados pelo Ministério da Saúde", que "a notificação deve ser feita pelo médico que realiza o atendimento e não pela população", que o tratamento é feito de forma imediata, embora o diagóstico só possa ser confirmado após realizada a sorologia, "que requer tempo". Segundo a Secretaria, os profissionais de saúde estão na região do Jardim Pantanal instruindo sobre os sintomas e sobre os procedimentos de limpeza. Frascos de hipoclorido estão sendo distribuídos à população para desinfecção da água e dos alimentos.

Já a Secretaria Estadual de Saúde, responsável pelo Hospital Santa Marcelina, afirmou que Ruan recebeu o atendimento médico e os remédios necessários para o diagnóstico de leptospirose, que foi confirmado na sorologia.
 

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