Omissão na manutenção do asfalto na época seca explica mais buracos nas ruas de SP no atual período de chuvas, diz especialista

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Apesar de o governo municipal se vangloriar de ter executado o “maior programa de recapeamento da história de São Paulo”, uma das mais renomadas especialistas brasileiras em pavimento asfáltico argumenta que o estado sofrível das vias da capital paulista nesta temporada de chuva é decorrência de omissões na época de seca.

Como explica Liedi Bernucci, engenheira responsável pelo Laboratório de Tecnologia de Pavimentação da Universidade de São Paulo (USP), a falta de manutenção é um “problema cultural brasileiro” que também acomete as autoridades da cidade. “Deveriam ter feito um trabalho melhor, selando trincas, fazendo recapeamento, preparando o terreno para a chuva”, critica.

Conhecedora profunda da malha viária da cidade, a especialista explica que, pelo o que as evidências indicam, houve um descaso com a questão em 2009. “Seria mais econômico fazer essa manutenção preventiva. Mas preferem investir em novas obras do que cuidar do que já existe”, diz.

A própria secretaria de Coordenação de Subprefeituras, órgão responsável pelo serviço, assume que o ano passado foi atípico. Por conta de contenções orçamentárias justificadas pela crise financeira internacional, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) recapeou (reformou por inteiro) apenas 60 km dentro do lote previsto para 2009, contra a média de cerca de 250 km executados dos anos anteriores – e prometidos para 2010.


Mesmo o trabalho de tapa-buracos, no ano passado, apresentou um índice inferior ao de 2008. Foram 691,6 mil, contra 719 mil do ano anterior. Além disso, Liedi questiona o método usado em boa parte desse trabalho. “Alguns reparos são feitos corretamente. Mas uma quantidade considerável é feita com métodos equivocados, sem se 'recortar' o buraco e somente tampando temporariamente o problema, sem a técnica adequada”, explica.

Com essas distorções, neste começo de ano a Prefeitura está sendo obrigada a correr contra o relógio para tapar o maior número de buracos, mesmo sob a chuva. Nesse caso, como explica a engenheira, a questão é mais de segurança do que de pavimentação. “Tecnicamente, não é recomendado fazer o reparo em dias de tempestades. Mas, infelizmente, é preciso executar a tarefa de todo jeito, pelo menos para evitar um alto número de acidentes ou de carros danificados”, defende.

 

O governo se defende

Em nota, a secretaria de coordenação de Subprefeituras informou que, de 2005 a 2009, investiu mais de R$ 440 milhões no maior programa de recapeamento da história da cidade. Segundo o órgão, ao todo, foi renovado o asfalto de cerca de 10 milhões de metros quadrados, numa extensão aproximada de 953,5 quilômetros - totalizando mais de 990 vias. Nos outros governos, entre 1989 e 2004, o governo estima que a prefeitura havia executado recapeamento de somente 316 quilômetros de vias. Além disso, a nota informa que o prefeito Gilberto Kassab voltará o ritmo de recapeamento neste ano, tentando manter a média de 300 km recapeados ao ano.

 Pelos números oficiais, no entanto, mesmo nesse contexto paliativo, o trabalho está deixando 1,5 mil buracos sem atendimento em 2010. Isso porque, pela média das autoridades municipais, foram abertos 70 mil buracos desde 1º de janeiro – uma média de 2 mil por dia em épocas de chuva. Por outro lado, incluindo os mutirões realizados, o governo só conseguiu tapar até agora 68,5 mil, considerando a média de 1,8 buracos dia (referência oficial de 2009). 

Contrato
Além de maiores investimentos, Liedi acredita que seriam necessárias mudanças contratuais para que o serviço de manutenção da malha viária paulistana funcionasse melhor. Como a Prefeitura informa, o modelo atual funciona por volume de trabalho. Por exemplo, paga-se pela quantidade de massa usada ou de buracos tapados.

Como argumenta a engenheira, algumas cidades do país e do exterior adotam um modelo diferente, em que a empreiteira é paga não somente pelo trabalho executado, mas por zelar por determinada área. “Nesses casos, a empresa é contratada para cuidar de certo bairro, por exemplo. Então ela fica responsável por gerenciar a região, tapando buracos que surgirem ali por determinado período de tempo”, explica. “Fica mais fácil de fiscalizar. Do jeito que é feito hoje, cria-se uma tarefa quase impossível, que é vistoriar todos os buracos tapados pela cidade, sem critérios mais rígidos”, diz a especialista.
 

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