Kassab diz que situação de alguns piscinões é "vergonhosa"; reunião hoje definirá futuro do contrato de limpeza

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias
Em São Paulo

  • Eduardo Knapp;Folha Imagem

    O prefeito fez uma nova vistoria nos piscinões da cidade nesta terça-feira (9): na foto, ele observa estado de conservação do reservatório Aricanduva 3

Após sobrevoar nesta terça-feira (9) os 18 piscinões que ajudam a diminuir as enchentes em São Paulo, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) classificou como "ridícula" e "vergonhosa" a situação de alguns dos reservatórios visitados.

Ainda hoje, às 19h, o chefe do Executivo na cidade deverá se reunir com os secretários da Coordenação das Subprefeituras e de Serviços para decidir o futuro do contrato com empresas responsáveis pela limpeza dos espaços.

"Sobrevoei nesta manhã, com os secretários, os 18 piscinões descobertos. Hoje, no final da tarde, teremos um último sobrevoo fotográfico para então nos manifestarmos", afirmou o prefeito. "Continuo assustado com a situação de alguns piscinões. É inadmissível que uma empresa que se proponha a fazer a limpeza e manutenção dos piscinões, justamente em um período de chuvas, não esteja preparada para executar o serviço."

O prefeito já vistoriara no último sábado (6/2) o piscinão Aricanduva 3, quando determinou que todos os reservatórios deveriam ser limpos até hoje. Caso não estivessem, os contratos com as empresas responsáveis pela limpeza seriam rompidos e outras seriam contratadas em caráter de emergência. "A cidade está indignada. Afinal de contas, depois da maior chuva em 77 anos, uma empresa, que recebe recursos públicos para limpar o piscinão, não está preparada para fazer a limpeza adequada. Estávamos de olho, e o flagrante foi muito claro", afirmou o prefeito.

Gestão pública
Apesar do discurso enérgico, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) demonstrou com suas declarações recentes que, na realidade, mais falta do que sobra comando quando o assunto é a limpeza dos piscinões de São Paulo, como aponta reportagem publicada na manhã desta terça-feira pelo UOL Notícias.

Tido como um posicionamento contundente, a "dura" do democrata serviu também para mostrar como é falha a fiscalização dos trabalhos terceirizados na cidade, segundo especialistas ouvidos.

Como eles afirmam, é uma anomalia administrativa São Paulo depender do prefeito, autoridade máxima do município, para que uma distorção desse tipo seja corrigida, quando há inúmeros servidores inferiores na hierarquia que poderiam ter cobrado as empresas bem antes.

Como analisa Maurício Piragino, coordenador do grupo de trabalho de democracia participativa do Movimento Nossa São Paulo, a irritação de Kassab “é o retrato da centralização que está acontecendo na cidade”. Segundo ele, o esvaziamento humano e financeiro das subprefeituras está conturbando a função das autoridades locais. “Os quadros técnicos estão muito fracos. Falta um fortalecimento das subprefeituras.”

Piragino acredita que se colegiados como o conselho de representantes (onde a sociedade organizada ajuda na administração pública) fossem efetivamente implementados a zeladoria dos espaços urbanos seria muito mais eficiente. “Os subprefeitos não moram nos bairros que administram, não têm vínculos com a região. Ninguém conhece melhor um lugar do que quem mora lá. Se tivesse maior participação popular, ele não iria demorar tanto para perceber a sujeira do piscinão.”

Professor aposentado de engenharia hidráulica da Universidade de São Paulo, Júlio Cerqueira César Neto também acha que as medições da prefeitura falharam. “Para começar, o Kassab percebeu a sujeira bem atrasado. Até os jornais já mostraram essa situação, há mais de 10 dias”, critica. Além disso, segundo o especialista, o governo provou, “mais uma vez”, que não consegue organizar o sistema de drenagem. “A prefeitura não está preparada para operar e limpar os piscinões. Deveria ser uma coisa permanente, mas está sendo feita de qualquer jeito e isso prejudica o funcionamento do sistema. Se precisa ir o chefe do Executivo perceber a omissão, é evidente que não está dando certo.”

Falta fiscalização de obras e serviços em São Paulo?

Diretora do Movimento Defenda São Paulo, Lucila Lacreta é outra que relativiza o pulso firme do prefeito. “Parece que ele está empenhado em administrar bem, mas a realidade é que falta dinheiro para a manutenção de obras em geral. Fazem o piscinão, mas não há dinheiro no orçamento para fazer a manutenção adequada”, afirma. Como ela lembra, na última audiência pública para discussão dos possíveis novos piscinões no centro a situação se repetiu. “Tinha projeto, tudo desenhado, mas quando perguntamos sobre quanto custaria para manter os reservatórios limpos, ninguém soube responder.”

Outro lado
A assessoria de imprensa da prefeitura contestou as informações da reportagem e negou a "irritação" do prefeito na vistoria do último sábado. "No sábado, quando vistoriou os piscinões Inhumas e Aricanduva III, o prefeito afirmou, como divulgado em release da Prefeitura no sábado: 'Não encontrei problemas nesses piscinões, mas fiquei preocupado quando fui informado pelo representante de que a empresa não tem condições de limpar todos os piscinões até terça-feira. Se não cumprirem, será rompido o contrato com a empresa e fica autorizada a contratação emergencial de outra empresa'", diz nota enviada nesta terça-feira (9).

"As grandes limpezas dos piscinões só podem ser feitas em períodos sem chuvas. Partindo de uma premissa incorreta, o repórter ouviu especialistas, que fizeram afirmações sobre um fato que não existiu. Júlio Cerqueira César Neto, por exemplo, faz um comentário claro a uma afirmação que é incorreta. Da mesma forma, Lucila Lacreta é levada a crer que o problema é com a falta de verbas para a limpeza, quando o questionamento é outro: saber se as empresas contratadas e devidamente pagas têm condições de executar a limpeza aproveitando um curto período de estiagem", diz ainda a nota.

A assessoria de imprensa finaliza afirmando que "desde 2005, a gestão já retirou dos piscinões mais de um milhão de metros cúbicos de detritos, ou cerca de 1,6 milhão de toneladas. Em 2009, foram investidos R$ 105,8 milhões na manutenção, limpeza e conservação do sistema de drenagem. Desde 2005, esse investimento já soma R$ 428,55 milhões."

A reportagem do UOL Notícias enviou ontem uma série de perguntas sobre o tema para a Secretaria Municipal de Coordenação de Subprefeituras. O órgão, no entanto, somente enviou, no final da tarde, notas divulgadas no fim de semana.

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