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Vinho paulista quer sair do garrafão e ficar fino, mas esbarra no clima e nas críticas

Rodrigo Bertolotto

Do UOL Notícias<br>Em São Roque (SP)

10/02/2010 07h02

 

Para os apreciadores, é o vinho tradicional de sabor docinho e suave. Para os críticos, é um suco roxo que sai do garrafão só para manchar a toalha de mesa. Assim é o vinho paulista, que viveu seu auge econômico até a década de 70.

Era um tempo em que essa bebida enchia canecas e copos. Ninguém rodava taças para conferir coloração ou buquê. Nem havia por aqui sommeliers, enólogos, enogastronomia ou enoturismo. Muito menos existia o termo pejorativo “enochato” para quem sai muito exigente com o líquido depois de um curso de degustação.

Nessa época, São Roque contava com 150 vinícolas e tinha uma Festa do Vinho em seu calendário. Hoje há por lá 13 empresas sobreviventes, e a bebida virou inquilina da celebração da colheita da alcachofra (atual símbolo local), que acontece em outubro.

Especialistas opinam sobre vinho de SP

Em Jundiaí, outro município de vinicultura, o cenário é parecido: resistem quatro vinícolas (com marcas conhecidas como Chapinha e San Tomé), além de alguns produtores artesanais.

Mas há quem acredite que a solução estadual possa vir pela produção de vinhos finos – em São Roque, por exemplo, já há produção industrial da cepa cabernet sauvignon.

E há gente de peso investindo para que São Paulo não seja apenas o maior consumidor nacional do “néctar dos deuses” e se transforme também em fabricante de vinhos finos. A lista inclui a Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), a Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e a Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), além de sindicatos patronais e secretarias de governo – o que incluiu até a redução pela metade do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) sobre o vinho paulista a partir de 2007.

A ideia é adaptar as castas nobres ao clima quente e úmido (propício a fungos e pragas) e combater o “preconceito” em torno da mercadoria local.

Por seu lado, a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) fez até uma cartografia, mapeando quatro regiões paulistas que poderiam fermentar uma bebida bem superior às atuais. A mais óbvia delas foi denominada de “polígono vitivinícola”, inclui São Roque e Jundiaí e ficaria responsável por vinhos leves.

A região entre Franca a São Carlos seria adapta para a variedade shiraz, enquanto a de Jales está indicada para espumantes brancos. A última delas foi batizada pomposamente de “terras altas paulistas” e, por aproveitar o frio da Serra da Mantiqueira, seria ideal para a cabernet sauvignon.

Consumidor pode refinar as vinícolas

Mas nem tudo saiu como planejado. Em simpósio montado no ano passado pela Unicamp, 80 especialistas degustaram, mas poucos aprovaram o resultado.

A polêmica continuou nas páginas da revista Adega, especializada no tema. “O que causa estranhamento é a retomada de uma indústria de produtos ruins, incompatíveis com um mercado em transformação. O desperdício de material científico (e humano) para o desenvolvimento de uvas híbridas (uma mistura de uva vinífera com uva americana, mais resistente a pragas e com maior produtividade, mas sem complexidade), o oferecimento de linhas de crédito pelos bancos para esse plantio, entre tantos outros itens da pauta, não fazem sentido senão com o objetivo do lucro rápido e da manutenção de um mercado que necessita, urgentemente, educar-se em vinho”, escreveu a repórter Sílvia Mascella Rosa.

A pedido da reportagem do UOL Notícias, seis sommeliers provaram um vinho fino e dois de mesa de origem paulista (confira vídeos nesta página). As opiniões ficaram divididas. “Tem lugares melhores no Brasil para vinhos finos. A colheita é no verão, e aqui cai um dilúvio nessa época. Não existe vinho bom com uva aguada”, sentenciou Daniela Bravin, responsável pelos vinhos em três restaurantes.

Já sua colega Giuliana Ferreira, que cuida da adega do Figueira Rubayat, discordou e disse acreditar que a tecnologia pode ajudar o vinho regional. “O Nordeste e o Paraná fazem bons vinhos, por que São Paulo não pode? Os avanços tecnológicos ajudam na plantação e na fabricação também”, argumenta.

Dionísio e a grama da Borgonha

O blogueiro especialista Didu Russo também é dessa opinião. “Hoje você importa levedura para a fermentação da uva com o aroma que quiser: do amanteigado da Borgonha ou da relva do Reno. Mas é preciso seriedade e comprometimento em fazer um produto bom.”

Curiosamente, São Paulo é o berço da vinicultura no Brasil, com Braz Cubas começando a atividade nacional na Capitania de São Vicente. Depois outros colonos portugueses plantaram em Taubaté, que tinha clima mais favorável. No século 19, vieram os imigrantes italianos e foram introduzidas as uvas americanas, que se adaptaram melhor na região que as europeias, mas que geram um vinho inferior.

Essa combinação direcionou os tonéis locais para o “vinho de mesa”, aquele mais açucarado e com gosto de uva que domina 75% do consumo nacional - incluindo aí denominações como “vinho químico”, “coquetel de vinho” e “bebida alcoólica mista de vinho”, nas mais diversas misturas de aguardente, açúcar e corante que garantem embriaguez fácil e ressaca difícil de encarar.

Por seu lado, o Rio Grande do Sul migrou parte de sua produção dessa beberagem (é bom lembrar que os rótulos Chalise e Sangue de Boi são de lá) para uma mais sofisticada há décadas, aproveitando o clima mais parecido ao europeu. A receita das muitas vinícolas gaúchas é garantir os lucros com o vinho docinho e ganhar prestígio e mídia com suas garrafas refinadas.

Fino ou de mesa?

A legislação brasileira define o vinho fino como a bebida obtida pela fermentação alcoólica de uvas europeias da espécie vitis vinifera, em oposição ao “vinho de mesa” feito com uvas americanas, como a vitis labrusca, ou com uvas híbridas, geneticamente manipuladas a partir de cepas das duas espécies.

E é essa fórmula que querem adotar os paulistas, que nos últimos anos tiveram que “importar” uva gaúcha para fermentar em suas indústrias, afinal, a safra local foi trocada por outras culturas (a falta de uvas é, ironicamente, apontada como um dos gargalos de produção, o que só seria superado com dez anos de crescimento das plantações estaduais).

O Museu do Vinho de São Roque ilustra bem essa história. As fotos em preto e branco mostram desfiles de carroças típicas, concursos de misses e premiação para os melhores fabricantes. A outra parede é adornada por rótulos amarelados de vinícolas que não existem mais, como “Tabu” ou “Maravilha”.

A cidade provinciana aposta também no chamado enoturismo, tentando atrair os turistas de fim-de-semana que atravessam 59 quilômetros para escapar da capital paulista. O simulacro de Europa a uma hora de distância inclui pista artificial de esqui e lojas de chocolates e queijos à beira da Estrada do Vinho, com várias adegas e restaurantes nas proximidades.

Em janeiro e fevereiro, a atração é a colheita da uva e a tradicional pisa no lagar para a fabricação do vinho, quando o município chega a atrair três mil visitantes em um fim-de-semana.

E todo passeio termina na loja de vinhos. Mas a fila no caixa é enganosa: o Brasil, cervejeiro e cachaceiro, traga bem menos vinho que seus vizinhos. O consumo per capita da bebida no país é de 1,8 litro por ano. No Chile, esse número sobre para 14,7 litros, enquanto os argentinos ingerem em média 31,6 litros.

Cheiro de pano de cozinha

Os aromas e sabores que pode ter um vinho fino na boca de um enófilo são um capítulo à parte. Confira a lista de coisas que entram em uma garrafa: pétalas de rosa, cachorro molhado, incenso, mexilhões pisados, caixa de chapéu, gengibre, pelo de raposa, folha de tabaco, pimenta verde, pano de cozinha, grama cortada, baunilha, cedro, chocolate, eucalipto, chá, hortelã, manteiga, cravo e por aí vai.

Os chilenos foram os primeiros a seguir a tradição europeia, definindo terroir (termo francês para terrenos ideais para vinhos finos) e atingindo qualidade e preços de nível internacional. Já a Argentina deu uma guinada na última década, saindo de uma produção para o mercado interno (privilegiando a quantidade sobre a qualidade) para refinar seu vinho e ganhar reconhecimento pelo mundo. O Uruguai também está nesse caminho.

No Brasil, o Rio Grande do Sul era o único Estado que produzia vinhos nobres até poucos anos atrás. A serra catarinense, porém, já ganhou notoriedade com seus espumantes brancos, enquanto a região de Petrolina (Pernambuco) começou a se aproveitar de seu clima seco para engarrafar fermentados de classe.

Como São Paulo, outros Estados buscam reconhecimento para seus vinhos, como Paraná e Minas Gerais. E há produtores também no Mato Grosso do Sul e Espírito Santo.

Para todos eles, o ano de 2010 até agora foi trágico. Com tantas chuvas, uma das vítimas do verão foi o vinho nacional. Alguns produtores até atrasaram a poda e a vindima para escapar do aguaceiro. Mas o que fica é a pergunta: a tecnologia vai conseguir driblar a geografia do Brasil para expandir sua produção de vinho?

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