Especialistas ironizam alegação oficial de que apagão no Nordeste foi causado por árvore

Arthur Guimarães
Do UOL Notícias*
Em São Paulo

As explicações oficiais para o apagão que atingiu todo o Nordeste brasileiro e dois Estados do Norte na tarde de quarta-feira (10) foram ironizadas por especialistas ouvidos pelo UOL Notícias.

Incidente que afetou o abastecimento em pelo menos oito capitais – Fortaleza, Salvador, Recife, Maceió, João Pessoa, Aracajú, Teresina e Palmas –, a interrupção no fornecimento de energia teria sido causada por uma árvore, segundo explicação da Eletronorte, empresa de capital misto que administra o sistema elétrico afetado.

Pelo comunicado oficial, os galhos da planta cresceram e se aproximaram dos cabos de transmissão suficientemente para romper o isolamento do ar, permitindo que a energia passasse pela árvore e chegasse ao chão, o que teria neutralizado a corrente e feito o sistema de segurança desligar a linha. O apagão durou de 2 minutos a duas horas, dependendo do local.

Ildo Sauer, professor e diretor de ensino e pesquisa do Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo (USP), “parabenizou” a Eletronorte pela sinceridade no diagnóstico da disfunção. “Temos que condecorar a empresa por assumir esse desleixo na gestão do setor”, disse ele.

Como o especialista argumenta, o que se viu foi uma “confissão óbvia” de que os procedimentos mínimos de administração e manutenção da rede não foram seguidos. “É intolerável. Nenhuma linha pode ser tocada por uma árvore. Tem que haver um acompanhamento e uma limpeza que elimine totalmente esse tipo de risco”, afirma.

Além disso, Sauer também relativiza a potência da árvore nesse tipo de ocorrência. “A árvore em si não é um bom condutor. Mas pode ter água, enfim, uma certa capacidade de conduzir. Mas essa afirmação precisa ser analisada mais de perto, com ensaios técnicos.”

Para o especialista, resta saber se a “omissão” foi por conta de má-administração ou simplesmente por falta de recursos. “Se esse tipo de incidente aconteceu, a população que estava próxima correu riscos sérios. Poderia machucar alguém gravemente. E isso precisa ser investigado”, alegou.

Problema maior, no entanto, estaria no fato de uma linha ter gerado um efeito dominó. “A divulgada confiabilidade de nosso sistema não existe. No máximo, aquela linha poderia ter ficado fora de funcionamento. Mas nunca, nunca, ter causado o desligamento de todo um sistema.”

Será?
Reinaldo Lopes, professor de engenharia elétrica da Fundação Educacional Inaciana (FEI), vai mais além. “Sinceramente, não consigo acreditar totalmente nas informações oficiais. Como vamos saber se é exatamente isso?”, afirma.

Como ele explica, há insinuações de bastidores que indicam que, na realidade, poderia ter havido uma oscilação de frequência causada pelo alto consumo impulsionado pelas altas temperaturas nesse verão. “Dessa forma, o sistema de segurança também iria causar um desligamento geral. Mas, lógico, é mais fácil culpar a árvore”, alegou.

Nos próximos dias, como ele defende, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) deveria fazer uma ampla investigação para saber o que de fato ocorreu. “Eles (ONS) têm capacidade de descobrir exatamente quanto, onde e por que motivo houve o apagão. Nos resta esperar.”

*Com informações da Folha de S. Paulo

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