Destruído pelo mar, cemitério divide espaço com casas e hotéis de luxo no litoral de Alagoas

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

O cenário paradisíaco das praias de Barreiras do Boqueirão, no município de Japaratinga, litoral norte de Alagoas, revela também uma paisagem fúnebre. Ao lado de casas de veraneio e hotéis de luxo, e a menos de 1km das tradicionais bicas do povoado, um cemitério clandestino divide espaço hoje com a areia do mar.

  • Carlos Madeiro/UOL

    Sem placa, muro ou qualquer indicação, o cemitério está em uma das áreas hoje mais valorizadas do litoral norte de Alagoas

Sem placa, muro ou qualquer indicação, o cemitério está em uma das áreas hoje mais valorizadas do litoral norte de Alagoas. No local, cerca de 30 mortos estão enterrados – a maioria deles em covas rasas e sem identificação. Poucos são os corpos com lápides.

Por muitas décadas, desde o início do século passado, o cemitério serviu como local de sepultamento dos mortos do pequeno povoado. Mas, aos poucos, o avanço da maré foi destruindo as construções e chegando até mesmo às covas.

Diante do avanço do mar e da irregularidade nos enterros do cemitério, a prefeitura decidiu proibir, há pouco mais de dois anos, o enterro de corpos no local. Desde o final de 2007, todos os mortos têm de ser enterrados no cemitério no centro da cidade, que fica a 8km de Barreiras de Boqueirão.

Segundo os moradores do povoado, o avanço do oceano nos últimos anos resultou na destruição completa da igreja de Nossa Senhora da Penha e do cruzeiro que ficava em frente ao cemitério. Hoje é possível ver ainda parte do piso e alicerce das obras, que aos poucos também vai sendo destruída pelo mar. Uma nova igreja foi construída na praça do povoado e hoje abriga a paróquia da região.

Antônio Paulo dos Santos, 84, é um dos moradores mais antigos de Barreiras do Boqueirão e testemunhou o avanço do mar e a “invasão” dos veranistas ao povoado. Ele conta que, em 2000, enterrou a esposa no cemitério, época em que o cemitério tinha outro aspecto. "Ali tinha a igreja, o cruzeiro e ainda um pé de castanhola e uma ruazinha na frente. O mar avançou e destruiu tudo", contou.

Segundo ele, nos últimos anos o povoado ganhou fama e passou a receber turistas – o que, para ele, tirou o sossego do local. “Antes vivíamos na maior tranquilidade, mas o pessoal foi construindo e hoje tomaram os espaços que eram nossos”, afirmou.

Os moradores mais antigos reconhecem que os corpos eram enterrados sem a necessidade de uma autorização formal. “O povo chegava e chamava um homem para cavar o buraco e enterrar. Tinha gente que nem na cidade ia”, conta Maria Souza, 65.

Os pescadores da região também percebem a mudança do cenário e o avanço do mar sobre o cemitério. Eraldo Antônio da Silva, 45, é um deles. Ele deixa sua jangada próxima ao local e é testemunha da destruição causada pela força das águas. "Depois de uma maré brava, ao ir pescar cedo da manhã, percebi que tinha um pedaço de pé ainda com meia encostado no meu barco. A maré alta sempre escava as covas e deixa pedaços de ossos e corpos à mostra", contou. "Já vi um crânio com cabelos sobre as águas", complementa o colega Carlos André dos Santos, 28.

Irregularidades
Desde o ano passado, o MPE (Ministério Público do Estado) realiza um trabalho para tentar acabar com os cemitérios clandestinos. Segundo um levantamento feito pela Sesau (Secretaria de Estado da Saúde), Alagoas possui 166 cemitérios clandestinos – o que significa 43% do total.

De acordo com a superintendente de Vigilância à Saúde da Sesau, Sandra Canuto, um cemitério à beira-mar pode causar sérios problemas ambientais e à saúde. “Ele pode contaminar o mar e também o lençol freático, o que é mais grave, pois nessas comunidades muita gente é abastecida por essa água. No caso do mar, como existe uma grande quantidade de água, não vejo risco de transmitir doenças. Mas de qualquer forma está contaminando”, disse.

Por ser irregular, a superintendente também vê prejuízo para a notificação de óbitos. “Temos a preocupação com as pessoas que são enterradas sem registro. Muitas vezes o enterro é feito por pessoas da comunidade, e não sabemos sequer quem morreu”, afirmou.

E pelas características do cemitério de Barreiras do Boqueirão, o MPE afirma que o local é irregular e não deveria ter sido utilizado para enterro de corpos. "Primeiro que um cemitério não poderia ser construído numa área à beira-mar. Além disso, ele não pode ter casas próximas e deveria ter muros. O que percebemos é que muitos cemitérios enterram de forma irregular, sem autorização, o que é grave", explica o promotor Luís Medeiros, que coordena o trabalho de identificação e regularização de cemitérios irregulares no Estado.

Caso seja necessária a remoção dos restos mortais, o promotor alega que, como o cemitério era clandestino e há corpos enterrados sem identificação, será necessária uma investigação policial. “Precisaremos saber que corpos são esses. Não é uma coisa tão simples chegar e transferir. Precisamos ter ciência de quem é que foi enterrado no local antes de pensarmos em mudar de local”, assegurou.

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