Apostador lesado da Mega-Sena perde o sono uma semana após pesadelo do bolão

Flávio Ilha

Especial para o UOL Notícias
Em Novo Hamburgo (RS)

Uma semana depois de ter sonhado, durante um fim de semana inteiro, com uma vida melhor, o comerciante e motorista Jadir Quadros, 41, não consegue mais dormir. Segundo ele, ainda ecoam as gozações de amigos e até de desconhecidos que o chamaram de burro por ter comprado um bolão da Mega-Sena, que foi sorteado, mas não pago.

Quatro apostadores de bolão buscam prêmio na Justiça

Foram R$ 53 milhões sorteados no dia 20 de fevereiro, mas uma funcionária da lotérica não registrou a aposta. A ação está TRF (Tribunal Regional Federal) da 4ª Região

“Ainda riem de mim na rua, sou alvo de todo tipo de gozação. Me chamam de gaúcho burro, de bobo, de trouxa. Faz uma semana que esse pesadelo não acaba”, diz o motorista, dono também de uma floricultura falida no centro de Novo Hamburgo, onde uma lotérica não registrou o bolão.

Agora, Quadros é uma espécie de porta-voz do grupo de 21 apostadores que irão mover uma ação contra a Caixa Econômica Federal pedindo o pagamento do prêmio de R$ 53 milhões e ressarcimento por danos morais. Alguns dos apostadores, segundo o comerciante, mal sabem assinar o nome. “Esses sofrem ainda mais com os xingamentos”, lamenta.

Pai de um filho pequeno e prestes a ter outro, o pesadelo de Quadros começou na manhã de segunda-feira (22), quando saiu de casa de manhã para cobrar o prêmio do bolão na lotérica Esquina da Sorte. O sonho durou pouco: da manhã de domingo até o dia seguinte. Pouco mais de 24 horas. Ele havia comprado o bilhete na manhã de sábado, depois de pagar várias contas vencidas.

“Eu estava no sítio com a família, tomando café, quando minha sócia ligou domingo de manhã dizendo que o bolão tinha sido sorteado. Estava nervosa, mal conseguia falar”, relata o comerciante, que também faz transporte particular de passageiros depois de desistir do táxi que roubaram-lhe duas vezes.

Eufórico, fez planos imediatamente: dar uma casinha, ainda que modesta, para cada um dos três irmãos e reformar a igreja evangélica que frequenta com a família. Com a sobra, comprar duas ou três licenças de táxi em Novo Hamburgo e formar um frota pequena, capaz de melhorar o rendimento mensal. A floricultura está à venda há meses.

“Eu ia fazer tanta coisa boa”, lamenta. Foi o comerciante quem procurou os advogados do grupo --seus clientes no serviço de transporte particular-- e quem articulou as primeiras reuniões e entrevistas.

São dele também as declarações mais revoltadas. “Na segunda de manhã eu sabia que o prêmio não ia ser pago porque vi que cada um estava mentindo uma coisa. Mas o valor não representa nada para a Caixa, não vale a credibilidade perdida”, argumenta.

O engenheiro Donato Henckel, 55, nem sentiu o gostinho de se saber milionário. Ele comprou o bilhete da lotérica na sexta-feira à tarde, depois de pagar uma conta. Mas só foi se lembrar dos números na segunda-feira de manhã: antes de sair, conferiu o site da CEF e viu que a Mega-Sena havia acumulado.

Mesmo assim, foi conferir o talão de apostas e viu, incrédulo, que os seis números sorteados estavam no volante. “Comecei a tremer, fiquei sem ar”, conta Henckel. Sem entender o que estava acontecendo, foi à lotérica e descobriu que a aposta não havia sido feita. “Imediatamente liguei para meu advogado e fui à polícia”, lembra ele.

Mega-Sena acumulada

Quatro bilhetes acertaram as seis dezenas do concurso 1.157 da Mega-Sena, sorteadas na noite deste sábado, e irão dividir cerca de R$ 72 milhões. Esse foi o segundo maior prêmio já pago pela Caixa Econômica Federal.



Pai de quatro filhos, o engenheiro critica o trabalho da polícia. “Quando cheguei à delegacia eles se recusaram a registrar ocorrência, disseram que precisavam antes ouvir as explicações da Caixa. Depois, não isolaram a lotérica para fazer qualquer tipo de perícia, de investigação”, diz.

Henckel também não poupa a Caixa Econômica Federal. “Tem bolão em tudo quanto é lotérica, sem comprovação nem nada. Na minha opinião, houve fraude sim. Mas se pararem os bolões, as lotéricas fecham. E a Caixa sabe disso”, critica.

O primeiro apostador a conseguir registrar queixa foi o comerciante Jair Lorena, 38. O boletim de ocorrência foi lavrado às 10h02 de segunda-feira (22), depois de muita insistência. “Quando cheguei na lotérica na segunda de manhã achei que fosse um assalto, porque estava cheio de brigadiano em volta”, relata.

Lorena, que é dono de uma lanchonete na periferia de Novo Hamburgo, só foi se dar conta do engano naquela manhã, depois de ler no jornal local que dois apostadores haviam afirmado que acertaram as seis dezenas da Mega-Sena. “Fui conferir e vi que também tinha os números. Avisei a minha mulher e tremi de emoção”, lembra.

Pela sua cabeça, passou logo a intenção de ajudar a família e comprar um computador para o filho adolescente, que quer ser advogado. “E também pagar as dívidas, para viver um pouco melhor”, conta o comerciante, que trabalha 15 horas por dia para tocar seu negócio.

O argumento dele para receber o prêmio é simples: quem adquiriu uma cota do bolão comprou um produto garantido pela Caixa Econômica Federal. Mas que não foi entregue por quem o vendeu. “Não interessa de quem é a responsabilidade. O produto tem que ser entregue”, diz Lorena.

 

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