Doadas pelo governo há 4 meses, casas podem ser "engolidas" por encosta em Maceió

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias
Em Maceió

  • Beto Macário/UOL

    Encosta ameaça engolir ao menos 18 casas no conjunto Paulo Bandeira, em Maceió (AL)

    Encosta ameaça engolir ao menos 18 casas no conjunto Paulo Bandeira, em Maceió (AL)

No dia 30 de outubro de 2009, 780 famílias que moravam em favelas na parte alta de Maceió (AL) receberam uma casa nova. Menos de quatro meses após a inauguração do conjunto habitacional Paulo Bandeira, com direito à festa e presença do governador Teotonio Vilela Filho (PSDB), o sonho da casa própria se tornou um pesadelo para algumas famílias.

Antes mesmo da chegada do inverno, as chuvas de verão causaram grande erosão na encosta próxima ao conjunto, que hoje ameaça casas à beira de um abismo de aproximadamente 20 metros.

No conjunto foram investidos R$ 14 milhões, sendo R$ 8,5 milhões do governo Federal e R$ 5,5 milhões do governo estadual. Cada casa possui 31,62 m² e tem dois quartos, sala, cozinha, banheiro e lavanderia externa. O conjunto ocupa 30 mil m² do bairro do Benedito Bentes – o maior da capital alagoana.

As famílias da quadra 22, que comemoraram ter deixado os barracos e sonharam com uma vida mais digna, são as mais assustadas. As 18 famílias do local já alegam que preferiam voltar a viver na favela. “Era muito melhor morar na cidade de lona; pelo menos não tinha risco da casa desabar e morrer. Quando chove aqui, ninguém dorme com medo. A gente não aceita mais viver aqui nessa condição, com medo da casa desabar a qualquer momento“, disse Luciana de Lima, 37.

Já Jeniffer Natali, 16, afirma que a família dela deixou de dormir em casa com medo de desabamento. Na casa dela, os canos do quintal estão à mostra e a encosta fica a menos de três metros da lavanderia. “Não tem condições de viver assim. À noite, eu, minha mãe e minha irmã vamos para a casa próxima de uma colega. É melhor do que dormir com medo de morrer”, declarou.

Com dois filhos, Maria Madalena, 26, alega que, nas noites de chuva, fica assistindo televisão em casa sem dormir e “pronta para o pior”. “Não tem como ficar tranquilo num lugar desses. O povo [do Estado] sabia que estava construindo em um local errado. Aqui era uma área condenada, nos disse um engenheiro”, afirmou.

O avanço da encosta também teria causado acidentes. Maria Aparecida, 45, disse que a neta, de um ano e nove meses, caiu em um trecho da encosta no mês de janeiro. “Aqui, a gente vive com as portas fechadas o tempo todo, com medo de as crianças caírem. Mas um dia, por descuido meu, minha neta veio sozinha para cá e caiu na encosta. E por muito pouco não desabou no precipício. Foi um susto tão grande que passei o resto do dia com dor de cabeça. Ainda bem que ela teve apenas arranhões”, afirmou.

Com quatro filhos, Sebastiana dos Santos, 65, garante que todas as famílias em casas ameaçadas não aceitam mais viver no local. “Pode conversar com todos, ninguém quer ficar. A gente já decidiu que não aceita reformas, paredão, nada disso. A gente quer sair, porque a gente sabe que ainda tem casa vazia no conjunto”, alegou.

Estado diz que não há risco

Em contato com o UOL Notícias, a Secretaria de Estado de Infra-Estrutura reconheceu que existe um problema no local, e afirma que ele é fruto da erosão, por conta das fortes chuvas de janeiro, somada ao desmatamento e lixo jogado pela população na encosta. “Um projeto já está sendo elaborado pelos técnicos, e as obras serão realizar para conter a erosão. Esperamos dar início em março”, assegurou a assessoria de comunicação da Secretaria.

O órgão garantiu ainda que não haverá a transferência dos moradores das casas mais ameaçadas, já que o local não apresentaria risco iminente de desabamento. “O local afundado está apenas em terreno natural, não nas construções. O problema lá é só a erosão e não há risco de desabamento”, informou.

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