Opinião: Glauco ajudou a dar cara aos quadrinhos brasileiros de humor

Pedro Cirne
Do UOL Notícias

Em São Paulo

O Brasil tem uma longa tradição de histórias em quadrinhos - desde o século 19, com Angelo Agostini, passando por Péricles, Belmonte e tantos outros. E passou, por todo esse tempo, por muitas fases. Nos anos 80, houve uma revolução nas HQs nacionais de humor capitaneada por um trio radicado em São Paulo: Angeli, Laerte e Glauco - este último, assassinado hoje dentro de sua casa, em Osasco (SP).

Os três já estavam na área havia anos. Na década anterior, todos foram premiados no Salão de Humor de Piracicaba, criado como uma válvula de escape do humor contra a ditadura militar. Laerte venceu em 1974, Angeli foi terceiro colocado em 1975 e tanto Glauco como Laerte estavam entre os vencedores de 1977 (Glauco ainda ficaria em terceiro lugar em 1978). Em 1979, o cartaz oficial do Salão de Piracicaba foi criado pelo Glauco.

Se eles despontaram nos anos 70, foi anos 80 que tomaram força. Os três publicaram revistas autorais, independentes, com um humor corrosivo, politicamente incorreto e que retratava a geração que surgia. Não foi algo surgido do nada, houve influência dos antecessores, como do mineiro Henfil - na casa de quem Glauco morou quando se mudou para São Paulo, e que muito influenciou a sua carreira.

São dessa época as revistas "Geraldão", do Glauco, "Chiclete com Banana", do Angeli, e "Striptiras" e "Piratas do Tietê", ambas do Laerte. É um período em que a produção nacional de quadrinhos era rica não só em qualidade, mas em experimentalismo. Temas tabus eram abordados com humor, sem meias palavras: sexo, censura, violência, preconceitos.

Mais do que abordados, esses temas eram virados pelo avesso. Mesmo hoje, quando há uma liberdade tão maior quanto a tudo, quantos artistas, em qualquer área, abordam, com tanta franqueza como Glauco o fez nos anos 80, temas como complexo de Édipo e o "problema" de ter um pênis pequeno?

Geraldão, o principal personagem de Glauco, é um símbolo da geração que queria sair de casa, mas não conseguia. Pessoas que querem ter relacionamentos, transar, ter amigos, mas que, por algum motivo, não conseguiam sair da casa da mãe.

 

Falta de dinheiro? Insegurança? Incapacidade de conseguir trabalho? Baixa autoestima? Não importava. Era um retrato dos jovens brasileiros dos anos 80. E continua sendo de uma fatia dos brasileiros, décadas depois.

Charge
À parte seu trabalho como quadrinista, Glauco era ótimo chargista. Sabia observar o universo político brasileiro - e se divertir com isso.

Um exemplo é o que acontecia com o Brasil no final do primeiro semestre de 2002. A Bovespa havia tido seu pior primeiro semestre em 30 anos, e o endividamento do governo estava no nível mais elevado desde 1991, quando a metodologia vigente havia sido adotada. O risco-país estava em alta... Mas o Brasil sagrou-se campeão mundial de futebol no dia 30 de junho. No dia seguinte, em seu espaço na página 2 da "Folha de S.Paulo", Glauco retratou o que via no Brasil. O desenho trazia o título "Riso-País" e a imagem da população comemorando a conquista no futebol. A charge rendeu uma homenagem de seu amigo Laerte, publicada no dia seguinte e republicada abaixo.

  • Folha de S.Paulo - 2.jul.2002

 


É a homenagem de um amigo, sim. Mas é a homenagem de um profissional que reconhece a importância de Glauco teve e, acima de tudo, ainda tem para as histórias em quadrinhos do Brasil.

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