Psiquiatras veem quadro psicótico e abuso de drogas em assassino de Glauco

Rodrigo Bertolotto

Do UOL Notícias
Em São Paulo (SP)

Uma amiga do assassino confesso do cartunista Glauco Villas Boas conta que ele sempre foi um “fofo” e “atencioso com as pessoas”, mas de uns meses para cá mudou do perfil “boyzinho” para o de “maloqueiro”. O pai dele classifica o filho como um viciado que “requer cuidado especial”. Já a mulher da vítima testemunha que ele estava “totalmente transtornado, com cara de drogado” e se dizendo “o todo poderoso”. Os policiais que detiveram o suspeito no Paraná contam que ele se proclama “profeta” mesmo atrás das grades.

Carlos Eduardo Sundfeld Nunes, 24, confessa que matou a tiros Glauco Villas Boas, 53, e seu filho Raoni, 25, na madrugada da última sexta-feira em Osasco, deixando atônitos familiares, amigos e as pessoas em geral sobre as motivações do crime ocorrido na chácara em que o famoso cartunista mantinha cerimônias de Santo Daime. Cadu, como era conhecido, foi preso três dias depois em Foz de Iguaçu (PR), após trocar disparos com policiais.

Realidade e ficção

  • Christian Rizzi/Gazeta do Povo/AE

    Carlos Eduardo Sundfeld Nunes sorri na carceragem de Foz do Iguaçu, onde foi detido

  • Reprodução

    Tira de Glauco mostra o personagem Geraldão com seus vícios: bebida, drogas, trash food e sexo

Para Daniel Barros, pesquisador do Núcleo Forense da Psiquiatria do Hospital das Clínicas, a falta de nexo das atitudes do criminoso é característica do quadro psicótico, mas isso não exclui certo grau de planejamento. “Ele não tem juízo da realidade, mas consegue se organizar. Não é impulsivo”, afirma o psiquiatra sobre a premeditação e a posterior fuga de Nunes, que pode passar como inimputável diante da Justiça caso se comprove sua insanidade na hora do crime.

Barros escreveu em seu blog que vê um perfil semelhante entre o assassino e o personagem mais famoso das charges de Glauco: o Geraldão.

“Retratado segurando bebida, cigarro e com múltiplas seringas pelo corpo, Geraldão encarnava o homem que, escravo de suas compulsões, tinha as possibilidades da vida esvaziadas: não trabalhava, morava com a mãe, solteiro, ressentia-se de ainda ser virgem. Nada construíra na vida. Esse estado lastimável ser mostrado pela via da comédia não reduzia a acidez da crítica. O homem acusado de matá-lo, ao que consta, ironicamente tem uma vida parecida: não trabalha, não estuda e tem dificuldade em deixar o vício da cocaína”, escreveu no blog “Psiquiatria e Sociedade”.

Mas o psiquiatra do HC não responsabiliza as drogas pelo ocorrido. “O problema é que ele estava psicótico. A droga pode ter sido o gatilho”, afirma. Ele lembra ainda que o assassino confesso foi tentar se livrar das drogas na seita criada por Glauco. “Ele foi buscar salvação em uma seita que usa um líquido que é alucinógeno e gera quadro psicótico transitório. Mas ter escolhido Glauco como alvo de sua agressão obedece ao conteúdo de seu delírio, e era completamente imprevisível”, afirmou Barros em entrevista ao UOL Notícias.

Para evitar que se reforce o estigma do paciente psiquiátrico grave, Barros frisa que a maioria dos psicóticos não é agressiva, mas o consumo de drogas pode desinibir a violência existente.

Já Marcelo Niel, psiquiatra do Programa de Orientação e Atendimento de Dependentes da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), aponta que os delírios religiosos de Cadu são comuns entre psicóticos. “Na década de 50, pela corrida espacial, as pessoas deliravam com ovnis. Depois do 11 de setembro, foi a vez dos terroristas. Mas o delírio religioso é o mais comum. O delirante acredita em uma expansão pessoal, um poder especial que influi sobre todo o mundo”, descreve Niel.

Para ele, a mudança de comportamento também é típica. “O transtorno faz surgir um descuido pessoal, uma mudança de companhias, até pelo ambiente das drogas. Se o transtorno é grave, o doente nem lembra seu nome, não volta ao convívio familiar”, explica o psiquiatra.

Para Niel, há três tipos de relação entre drogas e quadro psicóticos. O primeiro seria o delírio que acontece durante o momento de intoxicação e que passa quando passa a ação do entorpecente. O segundo se definiria como “transtorno psicótico induzido”, alteração do comportamento que se estenderia até um mês depois do uso de drogas. O terceiro, e mais grave, desencadearia um comportamento psicótico permanente, que estava guardado e que foi catalisado pela droga. “Neste último, os sintomas ficam exuberantes, e a droga potencializa o quadro psicótico”, classifica o psiquiatra da Unifesp.

Ele também acredita que o Santo Daime pode detonar o surto psicótico. “O Santo Daime é uma substância alucinógena muito potente, como o LSD e o chá de cogumelo”, conclui Niel, que rotula o delírio psicótico como “crença irreal não compartilhada com seu entorno e sem presença de lógica” – algo que se pode perceber nas atitudes de Nunes.

A prisão
O suspeito foi preso em flagrante na noite de domingo quando tentava fugir para o Paraguai pela ponte da Amizade usando um carro roubado na avenida Francisco Morato, na zona oeste de São Paulo. Ao ser abordado pelos policiais rodoviários federais, ele atirou.

Durante a troca de tiros, Nunes atingiu um policial no braço. O agente não corre risco, mas passou por uma cirurgia para remoção da bala. Com o acusado, a polícia encontrou uma pistola, supostamente a mesma usada para matar o cartunista e o filho dele, e pequena quantidade de maconha. Ele não possui porte de arma.

De acordo com a PF, o estudante ficou três dias escondido em uma mata na região de São Paulo planejando a fuga. Em depoimento ao delegado José Alberto de Freitas Iegas, ele confessou o crime. Cadu foi autuado por homicídio e tentativa de homicídio --pelo crime contra o cartunista e seu filho e contra o policial federal.

O caso
O cartunista Glauco e seu filho Raoni foram mortos a tiros na casa do cartunista, em Osasco (Grande São Paulo), na madrugada de sexta-feira (12). Segundo testemunhas, o assassino confesso chegou ao local e rendeu a enteada de Glauco, que mora em uma casa no mesmo terreno.

O cartunista e a mulher Bia ouviram gritos, foram ao quintal, e começaram a conversar com Nunes. Ele era conhecido da família por já ter frequentado a igreja Céu de Maria, que segue os princípios do Santo Daime e foi fundada por Glauco.

Segundo o relato das testemunhas, Nunes delirava e queria levar todos para a casa de sua mãe, em São Paulo, com o objetivo de afirmarem à mulher que ele era Jesus Cristo. Ele estava armado com uma pistola automática e uma faca. Glauco tentou negociar com para ir sozinho, e chegou a ser agredido. De acordo com o delegado de Osasco, Archimedes Veras Júnior, Glauco não reagiu.

No meio da discussão, porém, Raoni chegou ao local de carro. Em seguida, Nunes atirou contra pai e filho, mas os motivos ainda não foram esclarecidos. Os dois chegaram a ser atendidos no hospital, mas não resistiram e morreram.

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