"A vida de duas pessoas está em jogo", diz advogado dos Nardoni sobre possível acareação

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O advogado de defesa, Roberto Podval, chegou por volta de 9h ao Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, para o segundo dia do júri, que vai decidir se Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta de Isabella Nardoni, 5, são culpados ou inocentes na morte da menina, em março de 2008. Podval comentou o pedido feito ontem por ele para que Ana Carolina Oliveira, mãe da menina, seja mantida confinada no fórum como testemunha para uma acareação entre ela e o casal. “Eu só posso convocá-la se ela ficar [no fórum]. Se dispensá-la, não posso mais. É a vida de duas pessoas em jogo”, afirmou.

O pedido foi recebido com protestos pelo Ministério Público e foi classificado pelo promotor do caso, Francisco Cembranelli, como "desumano". “Ela vai ser privada de assistir ao julgamento dos assassinos. Vai sofrer bastante, vai ficar sozinha, isolada. Ela está sob acompanhamento psicológico”, disse. “Faltou um pouco de bom senso.”

O advogado explicou que ainda não tem certeza se precisará da acareação. “Isso vai depender do depoimento deles [casal]. O depoimento deles pode ter alguma contrariedade com o depoimento dela e aí eu preciso colocá-los frente a frente”, afirmou.

Sobre o depoimento de Ana Oliveira, que aconteceu ontem, Podval afirmou que não pode dizer se ela falou a verdade ou não. “Eu preciso primeiro falar com o Alexandre. E vou falar agora”, disse.

Para ele, o que ficou claro com o depoimento dela é que havia um conflito entre família. “Eles brigavam, tinham ciúmes, não era relação harmônica. E não era culpa de um ou de outro. Isso é da vida. Eu só quero mostrar como não há, como não havia e eu não consigo entender como haveria razão para uma brutalidade tão grande”, falou.

Podval acrescentou ainda que não sabe o que esperar do depoimento do pedreiro Gabriel Santos Neto, que trabalhava na obra vizinha ao prédio dos Nardoni e chegou a dizer que o local foi arrombado. O advogado, que arrolou o pedreiro como testemunha de defesa, disse que Neto “está confuso”.

Nesta terça-feira, serão ouvidos os depoimentos de quatro testemunhas de acusação: Renata Helena da Silva Pontes, delegada do 9ª DP (Carandiru) à época do crime, Rosangela Monteiro, perita do Instituto de Criminalística, Paulo Sergio Tieppo Alves, médico do IML (Instituto Médico Legal), e Luiz Carvalho, primeiro policial militar a chegar na cena do crime. A estimativa do tribunal é de que o julgamento dure até cinco dias.

Testemunhas e jurados passaram a noite no fórum. Já os réus foram encaminhados a unidades prisionais da capital paulista. Ele passou a noite no CDP (Centro de Detenção Provisória) de Pinheiros e ela, na cadeia feminina do Estado, localizada no complexo do Carandiru. Nardoni chegou ao Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, às 8h30 de hoje. Jatobá chegou dez minutos depois.

Por volta de 9h, a avó materna de Isabella Nardoni, Rosa Cunha de Oliveira, chegou ao fórum. Ela entrou carregando uma rosa branca, afirmou que espera a condenação máxima do casal e disse que, para ela, a neta não morreu. “Eles não vão conseguir matar a minha neta, pois ela está viva dentro de mim. Minha neta está dentro do coração da gente", disse.

 

Ontem, o casal Nardoni entrou junto na sala do tribunal. Esta foi a primeira vez que eles se encontraram desde que foram interrogados, em maio de 2008. Jatobá vestia uma blusa rosa e calçava um sapato baixo. Nardoni estava com uma camiseta branca, com uma faixa azul, e calçava um tênis. Ambos vestiam calça jeans. A Justiça não permite a presença de fotógrafos nem de cinegrafistas no local do julgamento.

No único depoimento de testemunha realizado ontem, a mãe de Isabella, Ana Carolina Oliveira, chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus, relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com a ex-mulher.

O depoimento foi tomado pelo juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana, no julgamento que irá decidir nos próximos dias o futuro do pai e da madrasta de Isabella -- que morreu ao cair do 6º andar do Edifício London, zona norte de São Paulo em 2008.

No primeiro dia de julgamento, Ana Oliveira, que evitou citar o nome da madrasta referindo-se a ela apenas como "Jatobá" na maior parte das vezes, disse que havia uma disputa de Jatobá pela atenção de Alexandre em relação à menina Isabella. "A mãe dele contava para a minha mãe que ela tinha ciúme da Isabella, que ela disputava a atenção dele com ela", afirmou.

Oliveira também disse que chegou a manter contato com a madrasta pela internet e que ela sempre perguntava como havia sido o relacionamento deles. "Parecia que estava querendo investigar alguma coisa".

Ainda de acordo com Oliveira, na presença de Jatobá, Alexandre Nardoni tinha um comportamento diferente. "Quando ela não ia com ele [Alexandre] buscar a Isabella, o comportamento era completamente diferente". Ana Carolina disse também que Alexandre ligava para Isabella apenas durante a semana. "Ela [Isabella] não funcionava em horário comercial."

Durante o relato, Alexandre Nardoni se curvava em atenção ao que Ana Oliveira dizia, acenando com a cabeça quando concordava. Já Anna Jatobá se manteve recostada à cadeira, escondendo-se atrás de uma pilastra. Ela carregava lenços de papéis no colo e dava sinais de um choro contido.

Em seguida, a mãe de Isabella foi questionada sobre o dia do crime e disse que Alexandre atribuiu a morte da filha a um ladrão que havia invadido o apartamento.

Pouco depois, questionada sobre qual seria o maior sonho de sua filha, afirmou: "Aprender a ler". "Eu soletrava para ela escrever uma cartinha quando ela me pedia. Aí, ela dizia que, quando aprendesse a ler, ela iria escrever uma cartinha para mim", disse Ana Oliveira, que interrompeu essa parte do depoimento para chorar. "A única coisa que ela sabia escrever era o nome dela", completou, aos soluços.

Nesse momento, Alexandre Nardoni também começou a chorar, e Ana Oliveira continuou o depoimento dizendo que o ex-marido sempre aceitou sua gravidez e que nunca recebeu nenhuma reclamação dele por parte de Isabella. O mesmo disse em relação a Anna Jatobá.

Oliveira é considerada a testemunha-chave da acusação no julgamento. Ela chegou de carro e entrou por uma entrada lateral do fórum, acompanhada pelo pai, José Arcanjo de Oliveira, e pela advogada, Cristina Christo Leite, que também é assistente de acusação no caso.


Entenda o julgamento
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são julgados por quatro mulheres e três homens, que foram escolhidos ontem para compor o Conselho de Sentença. Desses sete jurados, cinco nunca participaram de um júri e, por isso, receberam esclarecimentos sobre como funciona um júri popular por parte do juiz Maurício Fossen.

Houve uma recusa de um jurado por parte da defesa e outra por parte da acusação, ambas de mulheres.

Antes do sorteio dos jurados, a defesa do casal fez requerimentos para adiar o júri e realizar diligências. Todos foram negados pelo juiz.

O promotor do caso, Francisco Cembranelli, defende que Isabella foi jogada pela janela do 6º andar do Edifício London pelo pai. Antes, teria sido esganada pela madrasta e agredida por ambos. Já a defesa do casal insiste na tese de que havia uma terceira pessoa no prédio.

Os dois negam as acusações e se dizem inocentes. 

Ao final dos depoimentos de todas as testemunhas, dos debates, das apresentações da defesa e a acusação, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, Maurício Fossen irá dosar a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres.


Saiba mais sobre os procedimentos adotados para o julgamento

Júri deve durar até 5ª feira, mas o juiz que preside o julgamento reservou plenário por mais dias
Os jurados ficam confinados até o final do julgamento no fórum, onde há dormitórios e refeitórios
Estão envolvidos no julgamento 23 funcionários do cartório do júri, 12 agentes de fiscalização, dois médicos, uma enfermeira, três estenotipistas (que transcrevem as falas), 16 oficiais de justiça, três funcionários da administração, quatro da copa e cinco assessores de imprensa
Ao final de todos os depoimentos, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. De posse do veredicto, Maurício Fossen irá dosar a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres

Veja o rol de testemunhas que devem depor no julgamento dos Nardoni

Ana Carolina Cunha de Oliveira - mãe de Isabella
Renata Helena da Silva Pontes - delegada do 9ª DP (Carandiru) à época do crime
Rosangela Monteiro - perita do Instituto de Criminalística
Paulo Sergio Tieppo Alves - médico do IML (Instituto Médico Legal)
Rosa Maria da Cunha de Oliveira - avó materna de Isabella
Rogerio Neres de Souza - advogado do caso no início
Gabriel Santos Neto - pedreiro de obra vizinha do prédio dos Nardoni
Geralda Afonso Fernandes - vizinha do casal
Carlos Penteado Cuoco - médico do IML
Laercio de Oliveira Cesar - médico do IML
Marcia Iracema Boschi Casagrande - perita
Sergio Vieira Ferreira - perito
Monica Miranda Catarino - perita
Calixto Calil Filho - Delegado titular do 9º DP à época do crime
Luiz Alberto Spinola de Castro - chefe de investigadores do 9º DP à época
Jair Stirbulov - investigador do 9º DP
Walmir Teodoro Mendes - investigador do 9º DP à época
Theklis Caldo Katifedenios - investigador do 9º DP à época
Claudio Colomino Mercado - agente policial
Adriana Mendes da Costa Porusselli - escrivã do 9º DP
Paulo Vasan Gei - escrivão do 9º DP
Rogério Pagnan - jornalista
Luiz E. Carvalho - 1º policial militar a chegar na cena do crime

 

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