Juiz permite acareação entre casal Nardoni e mãe de Isabella; júri continua quinta-feira

Rosanne D'Agostino*
Do UOL Notícias

Em São Paulo

O juiz Maurício Fossen, do 2º Tribunal do Júri do Fórum de Santana, em São Paulo, decidiu no começo da noite desta quarta-feira (24) deferir o pedido da defesa de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá para que haja uma acareação entre o casal e Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. Pai e madrasta da menina respondem pelo homicídio ocorrido em março de 2008, quando Isabella caiu da janela do 6º andar do edifício London, zona norte de São Paulo.

A decisão de Fossen não significa, entretanto, que haverá acareação. O advogado Roberto Podval afirmou que somente vai saber se o confronto será necessário após os depoimentos de seus clientes. Porém significa que Ana Carolina Oliveira ainda não pode deixar o Fórum de Santana, onde permanece confinada desde segunda-feira (22) quando o júri teve início. A sessão de hoje foi suspensa e deve ser retomada nesta quinta-feira (25) com o depoimento dos réus.


O juiz chegou a dizer, informalmente, que iria indeferir o pedido, mas voltou atrás para respeitar, segundo ele, um direito constitucional dos réus.

O promotor do caso, Francisco Cembranelli, já havia se manifestado sobre o pedido de acareação. Cembranelli classificou a atitude de “lamentável” e disse que a mãe de Isabella não está bem confinada por mais de dois dias no fórum.

O terapeuta de Ana Carolina Oliveira, José Milton Kotzent, disse que a mãe de Isabella está abatida e triste e pediu ao juiz Maurício Fossen para conversar com sua paciente.

Enquanto esteve retida, Ana chegou a ser atendida por um médico do Judiciário. "Ela deu todos os passos para trás no que avançamos nesses dois anos", avaliou Kotzent. Segundo ele, que trata de Ana Oliveira desde a morte de Isabella, a mãe sofre de transtorno de estresse pós traumático e precisa de acompanhamento médico.

Mais cedo, o advogado Roberto Podval havia resolvido dispensar todas as suas testemunhas de defesa para que o júri popular pudesse ouvir Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá sobre a morte da menina. Podval adiantou que aposta no depoimento do casal para "definir" o julgamento.

Das dez testemunhas que deveriam depor hoje, apenas três foram ouvidas: a perita do Instituto de Criminalística Rosângela Monteiro, o jornalista Rogério Pagnan e o investigador do 9º DP Jair Stirbulov - este último depoimento durou apenas 15 minutos.

No primeiro dia de julgamento, a defesa desistiu de ouvir seis testemunhas. Já a acusação abriu mão do depoimento da avó materna de Isabella, Rosa Oliveira.

Terceiro dia de julgamento
O terceiro dia do júri do casal Nardoni foi retomado na manhã desta quarta-feira com o depoimento da perita Rosângela Monteiro, do Instituto de Criminalística de São Paulo, que falou até às 17h. Monteiro desenhou em um quadro branco as marcas de sangue encontradas na calça da menina Isabella Nardoni.

Às perguntas do promotor Francisco Cembranelli, ela afirmou que marcas encontradas na camiseta que Alexandre usava no dia do crime são totalmente compatíveis com as do assassino que jogou Isabella pela janela. Disse também que sangue de Isabella foi encontrado em diversos pontos do apartamento.

Quem depôs em seguida foi o jornalista Rogerio Pagnan, da “Folha de S. Paulo”. Pagnan afirmou que o pedreiro Gabriel Santos Neto, que trabalhava em uma obra vizinha ao edifício London, apenas viu o portão aberto no dia da morte de Isabella. O jornalista fez uma reportagem afirmando que a obra poderia ter sido arrombada na noite em que a menina caiu do 6º andar do prédio.

Ontem, o júri ouviu três testemunhas da acusação, que tentaram comprovar que o casal, pai e madrasta da menina, a agrediu e a jogou pela janela prédio. Fotos do corpo de Isabella durante necropsia no IML (Instituto Médico Legal), mostradas no depoimento do legista Paulo Tieppo Alves, chocaram algumas pessoas. A avó de Isabella, mãe de Ana Carolina Oliveira, chegou a deixar o plenário.

A delegada do caso, Renata Pontes, que também depôs, defendeu as investigações do caso, negou que tenha havido abuso de autoridade policial contra o casal e afirmou ter “100% de certeza” de que Anna Carolina e Alexandre mataram Isabella.

 

O que deve ainda acontecer no júri do ano
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são réus por homicídio triplamente qualificado e fraude processual (entenda as acusações). O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana.

No primeiro dia ocorreram interrogatórios do processo. Também foi ouvido o testemunho-chave da acusação. Ana Oliveira, mãe de Isabella, chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus e relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com sua ex-mulher.

O casal é julgado por quatro mulheres e três homens, que devem dar o veredicto até a sexta-feira (26). Destes, cinco nunca participaram de um júri e receberam orientações do juiz Maurício Fossen.

Antes do sorteio dos jurados, a defesa do casal fez requerimentos para adiar o júri e realizar diligências. Todos foram negados pelo juiz.

Ao final dos depoimentos de todas as testemunhas, ocorrem os debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São três horas para cada parte. Se o Ministério Público pedir réplica, de uma hora, a defesa tem direito à tréplica, também de uma hora.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres.

*Com informações da Agência Estado

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