Defesa mostra vídeo, e Nardoni diz que tela de janela tinha corte diferente

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias

Em São Paulo

O advogado Roberto Podval resolveu utilizar um vídeo da perícia científica durante o interrogatório de Alexandre Nardoni nesta quinta-feira (25) no júri popular do caso Isabella. Ao questionar o pai da menina sobre o buraco da tela de proteção, que apareceu cortado no dia do crime, Nardoni disse: “O corte era menor, mais redondo.”


O depoimento foi prestado das 10h46 até as 16h20 no Fórum de Santana, zona norte de São Paulo, que julga se Alexandre e a madrasta de Isabella, Anna Carolina Jatobá, são culpados ou inocentes pela morte da menina, que caiu da janela do 6º andar do edifício London, em março de 2008. Jatobá começou a depor depois de Alexandre, que acompanha o depoimento da mulher.

No vídeo, toda a dinâmica do crime foi mostrada, na versão que a polícia acredita ter ocorrido. Podval perguntou a seu cliente como ele olhou pela janela para ver Isabella. “Eu estava o tempo todo com o Pietro no colo. Eu não conseguia encaixar completamente a cabeça”, disse Alexandre.

As marcas na camiseta de Alexandre, segundo perícia do processo, são compatíveis com as de quem jogou a menina pela tela de proteção cortada. O depoimento contraria o que diz o laudo da perícia técnica. A perita Rosângela Monteiro, do IC (Instituto de Criminalística), afirmou ao júri popular que as marcas na camiseta de Alexandre são as de alguém que encostou na tela de proteção com um peso de 25 quilos (equivalente ao peso de Isabella) pendente para o lado de fora da janela. Para ela, foi ele quem jogou a menina.

Sobre a camiseta, Alexandre confirmou ser a mesma que usava aquele dia e disse ainda que foi entregue aos advogados e, posteriormente, à polícia.

Choro sem lágrimas
O promotor Francisco Cembranelli afirmou que o choro de Alexandre Nardoni não tem lágrimas e tentou, em suas perguntas, provar contradições em relação ao depoimento do pai sobre o assassinato da filha.

Nardoni chorou, negou o crime, disse que teve desentendimentos no edifício London, onde tudo aconteceu em março de 2008, e que chegou a receber uma proposta de acordo para assumir sozinho um homicídio culposo (quando não há intenção de matar), livrando a mulher, Ana Carolina Jatobá, das acusações.

Cembranelli questionou Alexandre se havia pertences de valor no apartamento. Alexandre disse que sim. Depois, disse que não se lembrava de ter voltado ao local após a morte para conferir se faltava alguma coisa. Depois questionou se Alexandre, quando viu a filha caída, percebeu se ela estava se mexendo. O réu disse que não. “O senhor não estava lá?”, retrucou o promotor. “Só vi que ela estava caída no chão”, respondeu Nardoni.

Em seguida, o promotor perguntou porque ele não chamou a ambulância imediatamente. Alexandre demorou para responder e chegou a dizer que se tratava de uma situação “embaraçosa”. Já sobre se foi maltratado por policiais, o promotor quis saber porque Alexandre não tinha dito sobre o abuso ao seu advogado. “Eu não me recordo, só me lembro que comentei com o meu pai.”

Durante os questionamentos da Promotoria, o advogado do réu, Roberto Podval, interrompia pedindo que ele apontasse em quais folhas do processo estava o assunto perguntado. Os dois chegaram a discutir, e o juiz Maurício Fossen interferiu.

Por fim, Cembranelli perguntou se Alexandre traía Ana Oliveira com Jatobá, porque o primeiro encontro do casal aconteceu quando Isabella já tinha 11 meses. “Não traí?”, disse Alexandre. Em seguida, perguntou se Nardoni, que não usava óculos, tinha problemas de visão: “Eu sempre usei óculos, o senhor não acompanha a minha vida”, retrucou o acusado. “Então, qual o seu problema de visão?” A resposta demorou a sair: “Ah, é, eu não enxergo de longe”. Maurício Fossen pediu o fim das perguntas irônicas. A sessão foi interrompida para almoço.

Choro e família
Ainda no depoimento, Alexandre afirmou que a mãe de Ana Oliveira, Rosa Oliveira, não queria o nascimento da neta, Isabella. “Eu briguei para ela nascer, porque a avó materna queria que ela [Ana Oliveira] abortasse. A Ana mesma não aceitava essa imposição da própria mãe”, afirmou Alexandre. Neste momento, o avô José Araújo de Oliveira, sorriu reprovando o depoimento. Alexandre disse que Isabella era sua “princesinha”.

"Aquilo ali foi meu pior dia. Ali eu perdi tudo de mais valioso na minha vida. Ali eu perdi o chão. E ninguém estava acreditando no que estava acontecendo", disse Alexandre, que pediu ao juiz que pudesse falar diretamente aos jurados. O relato era sobre quando recebeu a notícia, já no hospital, de que a filha havia morrido. Chorava de frente ao juiz, como chorou às 10h46 ainda no banco dos réus, quando teve início a sessão e pôde ver sua mãe, Cida, no plenário. Ela levantou, bateu no peito aos prantos, e disse: "Meu filho". Recebeu em troca lágrimas e saiu. Não voltou mais.

Abuso da polícia e acordo
Alexandre disse ainda que, depois da queda da menina da janela do 6º andar do apartamento e sua morte no hospital, foi obrigado a passar praticamente a madrugada de domingo até segunda de manhã na delegacia, onde ele e Jatobá foram separados em duas salas. “Não desejo nem para o pior inimigo isso que passei e que estou passando hoje.” Segundo Alexandre, delegados jogaram objetos nele. “Aí começou a sessão de xingamentos. Eu só falava que estava ali para ajudar e que eles podiam até me bater, mas teriam que responder por isso. Aí a Renata [Pontes, que relatou o boletim de ocorrência] pediu para algemar. Eles não estavam se conformando com aquilo”, disse Alexandre.

Mais adiante, questionado pelo promotor Francisco Cembranelli se ele sabia o nome da professora e da pediatra de Isabella, Alexandre começou a relatar mais sobre o que teria acontecido em um interrogatório, que contava inclusive com a presença do promotor. “Eles mostraram a foto da minha filha no necrotério e houve uma proposta de acordo. Ele queria que eu assinasse um homicídio culposo e tirasse a minha esposa do processo. Eu disse que tava querendo descobrir a verdade. O Dr. Calixto [Calil Filho, delegado] explicou qual era a diferença entre homicídio culposo e doloso”, disse Alexandre.

O promotor questionou Nardoni se todos os que ele estava citando haviam participado daquela negociação e perguntou ao juiz o que tinha aquilo a ver com a pergunta que fora feita. “Eu só estou falando o que houve no interrogatório, no dia 18 de abril de 2008”, respondeu Alexandre.

“Que história mirabolante que criaram. Depois passaram esse filminho. Não sei de onde criaram essas histórias”, afirmou Alexandre, que voltou a atacar os policias do 9º DP (Carandiru) onde o caso foi registrado. “Meu pai já identificou que está sendo seguido por policiais de lá”, afirmou. “Tenho medo de retaliações a mim, minha mulher e filhos.”

 

 

O que ainda deve acontecer
Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá são réus por homicídio triplamente qualificado e fraude processual (entenda as acusações). O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana.

O casal é julgado por quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão. Destes, cinco nunca participaram de um júri.

Em seguida, foram tomados os depoimentos das testemunhas. Os réus são os últimos a serem ouvidos. Depois, ocorrem os debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São duas horas e meia para cada (por se tratarem de dois réus), o que deve ocupar toda a sessão de sexta-feira (26). Se o Ministério Público pedir réplica, de duas horas, a defesa tem direito à tréplica, também de duas horas.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres. A sentença deve sair ainda na noite de sexta.

Primeiros dias de julgamento
No primeiro dia do júri, prestou depoimento Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. Ela chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus e relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com sua ex-mulher.

O segundo dia de júri foi marcado pelas fotos do corpo de Isabella no IML (Instituto Médico Legal), que chocaram muitos dos presentes. Um dos peritos convocados disse que alguém tentou calar os gritos de Isabella, que morreu de asfixia, fruto de uma esganadura, e da queda do prédio. Pouco antes, ela teria sido atirada com força ao chão, segundo a perícia.

Já o terceiro dia de julgamento finalizou a fase das oitivas das testemunhas, com a desistência da defesa em ouvir os depoimentos que havia convocado. Pela acusação, a perita Rosângela Monteiro, do Instituto de Criminalística, afirmou que marcas na camiseta de Alexandre Nardoni são compatíveis com as de alguém que atirou Isabella pela janela do apartamento. Irônica, ela provocou a reação indignada do réu.

 

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