Defesa dos Nardoni deve apostar na dúvida, acusação, nas provas; sentença pode sair hoje

Rosanne D'Agostino*
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá enfrentam nesta sexta-feira (26) o último dia no banco dos réus pela morte de Isabella, 5, que caiu do 6º andar da janela do edifício London, na zona norte de São Paulo, em março de 2008. O veredicto, que afirmará se pai e madrasta são culpados ou inocentes pelo homicídio triplamente qualificado, pode sair no final da tarde. O júri popular já dura cinco dias no Fórum de Santana, zona norte da capital paulista.


A Promotoria defende que o pai jogou Isabella pela janela. Antes, ela teria sido esganada pela madrasta e agredida por ambos. Já a defesa do casal insiste na tese de que havia uma terceira pessoa no prédio. As penas para os crimes podem ultrapassar os 30 anos de prisão.

A defesa, para pedir a absolvição total, deve ater-se ao fato de que, até agora, nenhuma prova conseguiu ligar a madrasta diretamente ao crime. Somente a camiseta de Alexandre é uma evidência forte de que o pai jogou a menina pela janela, mas em seu depoimento, Nardoni insinuou que o buraco visto por ele no dia do crime era diferente do examinado pela perícia.

Já a Promotoria deve apostar na dinâmica, montada pelos peritos, baseada no sangue encontrado no apartamento, nos exames feitos em Isabella e na hipótese praticamente nula de que uma terceira pessoa tenha tido acesso ao apartamento naquela noite.

“A prova pericial é a mais técnica de todas. Só que, nesse caso, ela não comprova a autoria. Vai comprovar que Isabella foi agredida e saiu sangrando. Quem agrediu? Aí já não sabemos com certeza. A prova técnica gera convicções, mas nem sempre conclui a autoria”, avalia o criminalista Leonardo Pantaleão, professor do Complexo Damásio de Jesus.

Segundo o especialista, esse julgamento é uma mescla importante das provas técnicas, obtidas pela perícia, e das provas indiciárias, aquelas que apontam que determinada ação ocorreu. “Os jurados não vão se convencer com a prova meramente técnica nesse caso. Mas a defesa também vai ter bastante dificuldade de comprovar que não foram eles. Para isso, vai tentar plantar a dúvida na cabeça dos jurados e tentar convencê-los de que, com base em meras hipóteses, não podem condenar pessoas que podem ser inocentes”, afirma.

Para isso, o advogado Roberto Podval e o promotor Francisco Cembranelli contam com uma maquete que reproduz o local do crime e um vídeo simulando o que teria acontecido naquela noite. Isso somado a tudo que foi produzido no júri até agora: testemunhos, contradições, laudos e, principalmente, a palavra dos réus. “É como se diz e pode acontecer, que mais vale um culpado solto do que um inocente preso”, finaliza Pantaleão.

 

Entenda o que deve acontecer hoje, último dia do júri do ano
O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana. Pai e madrasta são julgados por quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão. Destes, cinco nunca participaram de um júri.

Em seguida, foram tomados os depoimentos das testemunhas. Os réus foram os últimos a serem ouvidos. A última fase é a dos debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São duas horas e meia para cada (por se tratarem de dois réus), o que deve ocupar toda a sessão de sexta-feira (26). Se o Ministério Público pedir réplica, de duas horas, a defesa tem direito à tréplica, também de duas horas.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres. A sentença deve sair ainda na noite de sexta.

Os quatro primeiros dias de júri
No primeiro dia do júri, prestou depoimento Ana Carolina Oliveira, mãe de Isabella. Ela chorou por pelo menos três vezes, provocou o choro de ambos os réus e relatou o amor de Alexandre pela filha e o ciúme que a madrasta teria da relação do marido com a menina e com sua ex-mulher.

O segundo dia de júri foi marcado pelas fotos do corpo de Isabella no IML (Instituto Médico Legal), que chocaram muitos dos presentes. Um dos peritos convocados disse que alguém tentou calar os gritos de Isabella, que morreu de asfixia, fruto de uma esganadura, e da queda do prédio. Pouco antes, ela teria sido atirada com força ao chão, segundo a perícia.

Já o terceiro dia de julgamento finalizou a fase das oitivas das testemunhas, com a desistência da defesa em ouvir os depoimentos que havia convocado. Pela acusação, a perita Rosângela Monteiro, do Instituto de Criminalística, afirmou que marcas na camiseta de Alexandre Nardoni são compatíveis com as de alguém que atirou Isabella pela janela do apartamento. Irônica, ela provocou a reação indignada do réu.

No quarto dia, o mais tenso dia de júri, o casal prestou depoimento e se declarou inocente, chorou, disse que foi achacado pela polícia e questionou diversas provas periciais, inclusive a tela de proteção da janela de onde Isabella foi jogada. A defesa, contudo, admitiu que a chance de absolvição é pequena. Sem acareação, Ana Oliveira, mãe de Isabella, foi liberada após passar mal e ser examinada por um psiquiatra.

*Com informações de Daniela Paixão

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