Júri já decidiu destino do casal Nardoni; sentença começa a ser lida

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Atualizada às 00h26 de 27/03

O Tribunal do Júri já definiu o futuro do casal Nardoni, acusado pela morte da menina Isabella, morta aos 5 anos de idade, ao cair da janela do 6º andar do edifício London, na zona norte de São Paulo. Os jurados estiveram reunidos em uma sala secreta do Fórum de Santana, e a sentença já começou a ser lida.

Os membros do júri são quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão, na segunda-feira (22). Desses, cinco nunca participaram de um julgamento desse tipo. Eles tiveram que responder a quesitos formulados pelo juiz e decidiram se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. A reunião deve demorar cerca de uma hora e, depois disso, o juiz redige a sentença.

De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres da acusação.

"Os olhos do Brasil estão voltados a esta sala, o que aumenta o peso de responsabilidade dos jurados", afirmou o promotor Francisco Cembranelli ao conselho de sentença, antes de começar a expor a acusação nesta sexta-feira.

No fim da sessão de quinta-feira, o advogado de defesa Roberto Podval disse não ter “falsas expectativas ou esperanças” sobre o resultado do julgamento. "Entrei num júri perdido”, afirmou. O advogado disse que a única orientação que deu ao casal foi para que dissessem a verdade, pois não ganhariam o júri "tapando o sol com a peneira". "Eu disse: 'fale a verdade. A gente não tem chance, a chance é pequena, e se tiver, é falando a verdade'".

Desde o início do julgamento, foram tomados os depoimentos das testemunhas e, mais tarde, os dos réus, os últimos a serem ouvidos. Esta sexta-feira marcou a fase final, quando defesa e acusação debatem seus argumentos.

O debate do último dia
O debate foi encerrado com a tréplica do advogado Roberto Podval, que usou menos de uma hora de suas duas horas disponíveis, após a réplica do promotor Francisco Cembranelli. Foi a última oportunidade para ambos se manifestarem antes da decisão.

O advogado Roberto Podval defendeu a absolvição do casal Nardoni. Podval voltou a dizer que faltam provas que incriminem Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá e destacou informações que acredita serem fundamentais para questionar a tese da acusação.

"Me causou estranheza. Com todo esse sangue encontrado no apartamento, Alexandre foi mostrado carregando Isabella, ela tinha sangue na mão. A pergunta que fiz para a perita [Rosângela Monteiro] foi: 'Encontraram algum sangue na roupa dele ou dela?'. E a resposta foi 'Não'. Não pingou nada. A roupa dele não tinha que ter alguma coisa, um pingo, uma gota de sangue? Ele não merece a dúvida da inocência?"

Podval citou também a falta de exame nas unhas do casal, o que, segundo ele, mostra que não há como dizer quem foi responsável pela esganadura de Isabella.

Durante o tempo destinado à réplica da Promotoria, Cembranelli chamou Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá de mentirosos e rebateu os pontos levantados pela defesa do casal, acusado de matar a menina Isabella Nardoni.

O promotor disse que os réus são "mentirosos" e utilizou seus últimos minutos de palavra para atacar a atitude no casal no dia do crime. Ele usou uma linha do tempo para provar que os Nardoni estavam no apartamento no momento exato da queda de Isabella. E listou, em cerca de meia hora, todas as contradições encontradas por ele desde a "noite trágica".

"Quase perdi a fala de tantas mentiras", disse, recuperando o fôlego. Continuou dizendo aos jurados que nenhum deles prestou socorro a Isabella, apenas a mãe, que, logo ao chegar ao jardim onde a filha estava estirada, "colocou a mão no peito dela para sentir seu coraçãozinho ainda batendo". E, apontando para um dos jurados: "O senhor deve ser pai, eu se fosse pai, socorreria a minha filha que estava entre a vida e a morte."

Em suas duas horas e meia iniciais nos debates entre acusação e defesa, Podval afirmou que, assim como os pais de Madeleine McCann, que foram acusados pelo sumiço da menina em Portugal, pai e madrasta de Isabella não podem ser condenados por um crime do qual se dizem inocentes. "Disseram que o pai de Madeleine teria dado um remédio para ela. Qual a prova? É que nem essas presunções todas. A perícia não chegou na autoria. Eles apenas presumem. Quem asfixiou? O promotor não tem certeza. Aí fica a sociedade clamando Justiça. A nossa sociedade não pode permitir isso", pediu Podval aos jurados, para que absolvam o casal.

Durante as argumentações, a madrasta de Isabella teve que ser retirada do plenário duas vezes, pois estava visivelmente nervosa.

Podval também usou uma frase de Chico Xavier: "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim", clamou aos jurados após reconstruir a cena do crime inserindo dúvidas, levantando a possibilidade de que uma terceira pessoa tenha agido sem que ninguém soubesse.

Ciúmes e terceira pessoa
O advogado utilizou todos os argumentos utilizados pelo promotor Francisco Cembranelli nesta tarde, durante a primeira fase dos debates, que é destinada à acusação. Segundo o advogado, quando as investigações afirmam que vizinhos ouviram barulhos no edifício, não levam em conta a que tenha sido uma porta de incêncio batendo e alguém fugindo, ao invés do som da queda da menina do jardim. "Dá para retirar alguma conclusão categórica?", questionou os jurados. "O que tem a ver a porta batendo? O que o senhor está sugerindo?", retrucou o promotor.

Já sobre os motivos levantados pela acusação para pedir a condenação, o descontrole de Anna Jatobá, as marcas da camiseta de Nardoni e o tempo que eles levariam da garagem até o apartamento, Podval retaliou dizendo que Ana Oliveira, mãe de Isabella, também tinha ciúmes da madrasta. "O que fizeram ontem com ela [no júri] foi maldade. O que nós não fizemos com a mãe. Disseram que ela era megera, louca, ciumenta. Aí fazem uma conta e dizem: mentirosos! A menina queria ficar na casa dela [Jatobá]. Ela iria asfixiar a menina que cuidava? E o pai era o grande vilão da história? Só porque eles brigaram? Todo casal briga", argumentou o defensor.

Insegurança do prédio x acordo por confissão
Podval também levantou suspeitas sobre a segurança do edifício London. "Não preciso nem falar desse prédio, vamos falar sobre os edifícios em São Paulo. Veio um jornalista aqui dizer que havia uma parte que alguém poderia entrar, um muro baixo. Dá para saber o que se passou ali?", perguntou, mostrando a reportagem com o pedreiro Gabriel Santos Neto no jornal "Folha de S.Paulo", onde afirmava ter visto o portão da obra vizinha ao London arrombado naquela noite.

Falando muito baixo, para ser ouvido apenas pelos jurados, Podval também disse que o próprio promotor admitiu, durante o interrogatório de Alexandre Nardoni no júri popular, ter participado da reunião em que a polícia teria proposto ao pai de Isabella que assumisse a culpa sozinho por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), livrando a madrasta. "Isso é uma canalhice sem precedentes", rebateu Cembranelli. "Os jurados sabem muito bem que não é o delegado quem diz que tipo de homicídio é. O Dr. Ricardo [Martins, outro membro da defesa do casal] estava lá e pode afirmar que nada disso aconteceu. Hoje ele fugiu aqui da bancada para não ter que assumir a verdade", alfinetou Cembranelli. "Isso nunca aconteceu. Na época ninguém fez nada, e aí vem o réu, que não presta compromisso com nada, falar isso", repudiou.

Dezenas de pessoas estão acompanhando o julgamento do lado de fora do Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, e houve tensão no local por conta de discussões entre populares. Um suposto pastor irritou aqueles que pedem a condenação do casal por ter defendido Alexandre Nardoni e Anna Jatobá.

Promotoria: "Eles estavam no apartamento quando Isabella foi jogada"
O promotor Francisco Cembranelli afirmou que o casal Nardoni estava no apartamento quando a menina Isabella foi atirada pela janela do sexto andar do edifício London, em São Paulo. Segundo ele, a perícia demonstra que "os Nardonis são mentirosos" e não conseguem contestar provas técnicas.

Também de acordo com o promotor, os depoimentos das testemunhas indicam que a madrasta tinha "rompantes e descontroles". Cembranelli ainda ironizou a versão da defesa de que uma terceira pessoa teria cometido o crime.

Cembranelli falou sobre o trabalho feito pelos peritos, que, segundo ele, é de qualidade, e citou as gotas de sangue e os exames de DNA para comprovar que o sangue encontrado no apartamento era de Isabella. Para o promotor, Alexandre Nardoni, pai da menina, não tem como explicar as marcas em sua camisa que se assemelham às de uma tela de proteção de janela.

“Como não podemos questionar a perícia, vamos desmoralizar a perita. É isso que a defesa quer”, disse. “Para quem veio prometendo que ia arrasar com todas as provas, cometendo um verdadeiro tsunami, vimos que não passava de uma onda de criança.”

"Eles estavam no apartamento quando Isabella foi jogada", afirmou o promotor ao comparar as ligações telefônicas entre vizinhos e polícia no dia do crime. Com base em uma reprodução cronológica das ligações, o promotor cravou: "Contra fato não há argumento."

 

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