Para madrasta, Isabella era "miniatura" da ex de Nardoni, diz promotor

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias
Em São Paulo

O promotor Francisco Cembranelli ironizou a defesa e pediu nesta sexta-feira (26), pela última vez, ao júri popular que condene Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá pela morte de Isabella, em março de 2008. A acusação terminou às 19h50 a réplica de duas horas que faz parte dos debates com a defesa e encerra, ainda hoje, o julgamento que acontece desde segunda-feira na capital paulista. A expectativa é que a sentença saia nas próximas horas.

O promotor disse que os réus são "mentirosos" e utilizou seus últimos minutos de palavra para atacar a atitude no casal no dia do crime. Ele usou uma linha do tempo para provar que os Nardonis estavam no apartamento no momento exato da queda de Isabella. E listou, em cerca de meia hora, todas as contradições encontradas por ele desde a "noite trágica". "Quase perdi a fala de tantas mentiras", disse, recuperando o fôlego. Continuou dizendo aos jurados que nenhum deles prestou socorro a Isabella, apenas a mãe, que, logo ao chegar ao jardim onde a filha estava estirada, "colocou a mão no peito dela para sentir seu coraçãozinho ainda batendo". E, apontando para um dos jurados: "O senhor deve ser pai, eu se fosse pai, socorreria a minha filha que estava entre a vida e a morte."

Cembranelli também ironizou se os advogados acreditavam haver um "conluio". "Então o senhor advogado acha que nós organizamos um conluio, eu e mais umas 70 pessoas, peritos, jornalistas, o povo em geral queremos vingança, até o ministro Joaquim Barbosa [do Supremo Tribunal Federal], para pedir a cabeça de duas pessoas inocentes?" Em seguida, defendeu que se tratava de um casal que tinha inúmeras brigas e que a madrasta tinha ciúme de Isabella. "Tenho sete páginas de mentiras contra ela", disse o promotor depois de enumerar 15 minutos de outras. "Para Jatobá, Isabella era a miniatura de Ana Carol", afirmou.

Contra Alexandre, o promotor desferiu mais de 40 itens em que o réu contradisse sua versão anterior do que acontecera naquela noite, como dizer que foi impedido por presentes de tocar na menina. "Não tinha ninguém lá quando ele chegou, Ele fez a opção pela família que o interessa até hoje, a mulher e os dois filhos", atacou. Ao final, mais uma vez bateu boca com o advogado, que interrompia a todo momento, sobre a suposta reunião relatada por Nardoni em que a polícia teria oferecido que ele assumisse um homicídio culposo. Podval chamou-o de deselegante, por citar a defesa anterior que abandonou o caso. "O Marco Polo Levorin tinha dito que abandonaria se não acreditasse na inocência dos clientes", disse Cembranelli. "Se os dois ficarem falando ao mesmo tempo não vai dar certo", interveio o juiz Maurício Fossen.

Última chance de defesa
Às 20h15 começou a tréplica da defesa, em sua última interferência para defender os dois antes do anúncio da decisão.

Em suas duas horas e meia nos debates entre acusação e defesa, Podval afirmou que, assim como os pais de Madeleine McCann, que foram acusados pelo sumiço da menina em Portugal, pai e madrasta de Isabella não podem ser condenados por um crime do qual se dizem inocentes. "Disseram que o pai de Madeleine teria dado um remédio para ela. Qual a prova? É que nem essas presunções todas. A perícia não chegou na autoria. Eles apenas presumem. Quem asfixiou? O promotor não tem certeza. Aí fica a sociedade clamando Justiça. A nossa sociedade não pode permitir isso", pediu Podval aos jurados, para que absolvam o casal.

Durante as argumentações, a madrasta de Isabella teve que ser retirada do plenário duas vezes, pois estava visivelmente nervosa.

Podval também usou uma frase de Chico Xavier: "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim", clamou aos jurados após reconstruir a cena do crime inserindo dúvidas, levantando a possibilidade de que uma terceira pessoa tenha agido sem que ninguém soubesse.

Ciúmes e terceira pessoa
O advogado utilizou todos os argumentos utilizados pelo promotor Francisco Cembranelli nesta tarde, durante a primeira fase dos debates, que é destinada à acusação. Segundo o advogado, quando as investigações afirmam que vizinhos ouviram barulhos no edifício, não levam em conta a que tenha sido uma porta de incêncio batendo e alguém fugindo, ao invés do som da queda da menina do jardim. "Dá para retirar alguma conclusão categórica?", questionou os jurados. "O que tem a ver a porta batendo? O que o senhor está sugerindo?", retrucou o promotor.

Já sobre os motivos levantados pela acusação para pedir a condenação, o descontrole de Anna Jatobá, as marcas da camiseta de Nardoni e o tempo que eles levariam da garagem até o apartamento, Podval retaliou dizendo que Ana Oliveira, mãe de Isabella, também tinha ciúmes da madrasta. "O que fizeram ontem com ela [no júri] foi maldade. O que nós não fizemos com a mãe. Disseram que ela era megera, louca, ciumenta. Aí fazem uma conta e dizem: mentirosos! A menina queria ficar na casa dela [Jatobá]. Ela iria asfixiar a menina que cuidava? E o pai era o grande vilão da história? Só porque eles brigaram? Todo casal briga", argumentou o defensor.

Insegurança do prédio x acordo por confissão
Podval também levantou suspeitas sobre a segurança do edifício London. "Não preciso nem falar desse prédio, vamos falar sobre os edifícios em São Paulo. Veio um jornalista aqui dizer que havia uma parte que alguém poderia entrar, um muro baixo. Dá para saber o que se passou ali?", perguntou, mostrando a reportagem com o pedreiro Gabriel Santos Neto no jornal "Folha de S.Paulo", onde afirmava ter visto o portão da obra vizinha ao London arrombado naquela noite.

Falando muito baixo, para ser ouvido apenas pelos jurados, Podval também disse que o próprio promotor admitiu, durante o interrogatório de Alexandre Nardoni no júri popular, ter participado da reunião em que a polícia teria proposto ao pai de Isabella que assumisse a culpa sozinho por homicídio culposo (quando não há intenção de matar), livrando a madrasta. "Isso é uma canalhice sem precedentes", rebateu Cembranelli. "Os jurados sabem muito bem que não é o delegado quem diz que tipo de homicídio é. O Dr. Ricardo [Martins, outro membro da defesa do casal] estava lá e pode afirmar que nada disso aconteceu. Hoje ele fugiu aqui da bancada para não ter que assumir a verdade", alfinetou Cembranelli. "Isso nunca aconteceu. Na época ninguém fez nada, e aí vem o réu, que não presta compromisso com nada, falar isso", repudiou.

Podval começou a falar pouco antes das 15h desta sexta-feira (26) em favor dos acusados de matar Isabella. Antes dele, argumentou a acusação, que já adiantou que pedirá réplica dos comentários da defesa.

 O casal nega ter matado a menina. Na quinta-feira, Podval disse não ter "falsas expectativas ou esperanças" sobre o resultado do julgamento e comentou ter entrado em um "júri perdido".

Dezenas de pessoas estão acompanhando o julgamento do lado de fora do Fórum de Santana, na zona norte de São Paulo, e houve tensão no local por conta de discussões entre populares. Um suposto pastor irritou aqueles que pedem a condenação do casal por ter defendido Alexandre Nardoni e Anna Jatobá.

Promotoria
Em sua primeira fala, o promotor Francisco Cembranelli afirmou que o casal Nardoni estava no apartamento quando a menina Isabella foi atirada pela janela do sexto andar do edifício London, em São Paulo. Segundo ele, a perícia demonstra que "os Nardonis são mentirosos" e não conseguem contestar provas técnicas.

Também de acordo com o promotor, os depoimentos das testemunhas indicam que a madrasta tinha "rompantes e descontroles". Cembranelli ainda ironizou a versão da defesa de que uma terceira pessoa teria cometido o crime.

O quinto dia do julgamento do caso Isabella Nardoni, morta aos 5 anos de idade, começou às 10h26 de hoje, com a fala do promotor.

Cembranelli falou sobre o trabalho feito pelos peritos, que, segundo ele, é de qualidade, e citou as gotas de sangue e os exames de DNA para comprovar que o sangue encontrado no apartamento era de Isabella. Para o promotor, Alexandre Nardoni, pai da menina, não tem como explicar as marcas em sua camisa que se assemelham às de uma tela de proteção de janela.

“Como não podemos questionar a perícia, vamos desmoralizar a perita. É isso que a defesa quer”, disse. “Para quem veio prometendo que ia arrasar com todas as provas, cometendo um verdadeiro tsunami, vimos que não passava de uma onda de criança.”

"Eles estavam no apartamento quando Isabella foi jogada", afirmou o promotor ao comparar as ligações telefônicas entre vizinhos e polícia no dia do crime. Com base em uma reprodução cronológica das ligações, o promotor cravou: "Contra fato não há argumento."

Entenda o que deve acontecer hoje, último dia
O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana. Pai e madrasta são julgados por quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão. Destes, cinco nunca participaram de um júri.

 

Em seguida, foram tomados os depoimentos das testemunhas. Os réus foram os últimos a serem ouvidos. A última fase é a dos debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São duas horas e meia para cada (por se tratarem de dois réus), o que deve ocupar toda a sessão de sexta-feira (26). Se o Ministério Público pedir réplica, de duas horas, a defesa tem direito à tréplica, também de duas horas.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres. A sentença deve sair ainda na noite de sexta.

Quesitos dos jurados
Quatro mulheres e três homens decidem ainda hoje o destino de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá, pai e madrasta de Isabella, que caiu da janela do 6º andar do edifício London, em março de 2008. O júri popular já dura cinco dias no Fórum de Santana e entrou na fase decisiva.

A Promotoria já encerrou a réplica dos debates pedindo a condenação, e a defesa ainda terá duas horas para apresentar seus argumentos e tentar convencer os jurados de que o casal é inocente. Veja a seguir os quesitos a que os sete jurados responderão. Os jurados devem se reunir em uma sala secreta para responder "sim" ou "não" para cada um dos quesitos.

Perguntas relacionadas a Alexandre Nardoni:
1 - Existiu a esganadura que contribuiu para a morte de Isabella Nardoni?
2 - Isabella foi jogada da janela do 6º andar do edifício London provocando sua morte?
3 - Alexandre omitiu-se quando deveria, por dever legal, proteger a filha?
4 - Foi Alexandre quem jogou Isabella pela janela?
5 - O jurado absolve o réu?
6 - Existem qualificadoras para o crime, no caso, o meio cruel (asfixia), uso de recurso que dificultou a defesa da vítima (arremessada pela janela inconsciente), e com o intuito de assegurar impunidade de outro crime (o casal teria jogado a menina para ficar impune do que haviam feito no apartamento)?
7 - Houve alteração da cena do crime para enganar as autoridades?

Perguntas relacionadas a Anna Carolina Jatobá:
1 - Existiu a esganadura que contribuiu para a morte de Isabella Nardoni?
2 - Isabella foi jogada da janela do 6º andar do edifício London provocando sua morte?
3 - Anna Jatobá colaborou com a morte de Isabella ao aderir a toda a ação?
4 - O jurado absolve o réu?
5 - Existem qualificadoras? (as mesmas de Alexandre)

 *Com informações do Última Instância

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