Promotor tenta provar que casal Nardoni é mentiroso e que madrasta tem "rompantes e descontroles"

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias*
Em São Paulo

Atualizado às 15h08

O promotor Francisco Cembranelli afirmou nesta sexta-feira (26) que o casal Nardoni estava no apartamento quando a menina Isabella foi atirada pela janela do sexto andar do edifício London, em São Paulo, em março de 2008.

Cembranelli afirmou mais cedo que a perícia demonstra que "os Nardonis são mentirosos" e não conseguem contestar provas técnicas. Também de acordo com o promotor, os depoimentos das testemunhas indicam que a madrasta Anna Carolina Jatobá tinha "rompantes e descontroles". Cembranelli ainda ironizou a versão da defesa de que uma terceira pessoa teria cometido o crime.

O quinto dia do julgamento do caso Isabella Nardoni, morta aos 5 anos de idade, começou às 10h26 de hoje, com a fala do promotor. Cembranelli terminou de falar por volta de 13h e houve uma pausa para almoço. Depois disso, a defesa começou sua exposição e o promotor adiantou que pedirá réplica.

Cembranelli falou sobre o trabalho feito pelos peritos, que, segundo ele, é de qualidade, e citou as gotas de sangue e os exames de DNA para comprovar que o sangue encontrado no apartamento era de Isabella. Para o promotor, Alexandre Nardoni, pai da menina, não tem como explicar as marcas em sua camisa que se assemelham às de uma tela de proteção de janela. 

“Como não podemos questionar a perícia, vamos desmoralizar a perita. É isso que a defesa quer”, disse. “Para quem veio prometendo que ia arrasar com todas as provas, cometendo um verdadeiro tsunami, vimos que não passava de uma onda de criança.”

Sobre as manchas de sangue no apartamento, Cembranelli desafiou o advogado a comprovar por que um reagente utilizado em todo o mundo seria falho apenas no Brasil. “Além do sangue no apartamento, temos manchas parcialmente removidas. A defesa agora quer fazer crer que havia gotas de água no chão”, disse, referindo-se a um teste com o reagente Bluestar, que a defesa deve apresentar aos jurados e que traria o falso positivo em contato com alimentos. 

“Tudo isso é prova científica. Quando o FBI (espécie de polícia federal dos EUA) faz, está ótimo. Quando a polícia de São Paulo faz, é uma porcaria. Eu tenho certeza de que o Podval não entende nada de Bluestar, assim como eu não vou pegar um manual e sair fazendo cirurgia no cérebro”, disse.

O advogado interrompeu novamente e o promotor ironizou: disse que faria o teste do reagente com uma banana. “Vou mostrar o que é uma banana”, provocou Podval.

O promotor também argumentou que “a cronometragem do tempo indica que o casal está mentindo". "Prova técnica que não admite contestação. Se a versão deles fosse verdadeira, chegariam no apartamento depois da meia-noite. Eles não podem ter chegado depois de Ana Oliveira, mãe de Isabella, lá embaixo”, disse.

"Eles estavam no apartamento quando Isabella foi jogada", afirmou o promotor ao comparar as ligações telefônicas entre vizinhos e polícia no dia do crime. Com base em uma reprodução cronológica das ligações, o promotor cravou: "Contra fato não há argumento."

Descontrole da madrasta
Segundo Cembranelli, o casal tinha brigas constantes, principalmente quando Isabella ia visitar o pai. Ele citou testemunhas que disseram que Anna Jatobá tinha ciúmes de Ana Oliveira. Certa vez, dizem, a madrasta quebrou uma vidraça com as próprias mãos por causa da presença de Isabella.

“Todas as discussões eram fruto de ciúmes, porque a madrasta disputava a atenção de Alexandre com Isabella. Então, não me venha com essa balela de que eles viviam bem, doutor”, falou. 

O promotor citou ainda outras testemunhas que teriam dito que a Anna Jatobá só se referia a mãe de Isabella como “vagabunda” e que tinha "ferrado com a vida dela”.

A madrasta também já teria atirado uma chave de fenda contra Nardoni e arremessado o próprio filho ainda bebê por causa do ciúme. Jatobá teria dito a um taxista, segundo o promotor, que Isabella "infernizava sua vida todas as vezes que ia ver o pai". 

Cembranelli tentou invalidar a imagem de uma família tranquila, trazida ontem pelos dois réus em seus depoimentos. Segundo ele, Anna Jatobá era dependente financeiramente de Nardoni, engravidou duas vezes por acidente, era depressiva e tinha "rompantes e descontroles".

“Nós mostramos aqui que a madrasta chamava Ana Oliveira de vagabunda na frente de Isabella e outras crianças. Ela é extrema em tudo, quando xinga, quando agride. Quando ela agride, ela agride mesmo. Esta é a realidade da moça", afirmou.

Em relação à asfixia, ele disse: “Se não foi ela, foi ele. A perita já comprovou o que houve”. 

Podval interrompeu mais uma vez e afirmou que nada conta que a ré tenha feito isso. O promotor rebateu, dizendo que pelas marcas e pelas unhas, foi a madrasta quem asfixiou Isabella. “Se fosse Alexandre, teria matado a menina em instantes”, disse.

Tese da terceira pessoa
Por fim, o promotor ironizou a versão da defesa de que uma terceira pessoa teria entrado no apartamento naquele dia. “A defesa diz que essa pessoa resolveu fazer um absurdo. Entrou no apartamento, tentou matar a menina e não conseguiu e, então, resolveu dar o alarme jogando-a da janela bem perto de um quartel policial”, disse.

Em seguida, no relato do promotor, esse “matador” agiria descalço não deixando marca do solado do sapato na cama dos irmãos. “Como o apartamento estava uma bagunça, ele teria resolvido fazer uma faxina e limpado tudo com um pano, guardado a tesoura na gaveta e, em um gesto de solidariedade, lavado uma única fralda em meio a toda aquela roupa suja. Depois, ele saiu, trancou a porta e, num gesto verdadeiro, apagou a luz”, ironizou.

O promotor também minimizou a importância do depoimento das duas testemunhas da defesa que restaram. "Havia um repórter, que não esclareceu nada e cuja participação só vai ficar marcada no corpo de maquete, e o outro investigador, que só fez o trabalho dele”, disse. “A Justiça caminha em um sentido. A defesa pede que os senhores votem na contramão”, afirmou. 

Nesse momento, Podval interrompeu e disse que irá usar as próprias testemunhas da acusação para provar que não há nada de concreto contra seus clientes.

O promotor retomou em seguida e atacou o laudo do perito George Sanguinetti, apresentado no início do processo pela defesa. “O trapalhão de Alagoas chegou a falar que Isabella tinha sofrido abuso sexual. Quando viram que ele só estava tentando divagar e conquistar fama, eles mesmo o descartaram”, acusou.

A referência se deve ao fato de Sanguinetti, que já atuou em vários casos de grande repercussão, ter trabalhado no caso da morte de Paulo César Farias, homem forte do governo de Fernando Collor de Mello (1990-1992).

PC foi tesoureiro da campanha do hoje senador por Alagoas e foi assassinado em circunstâncias misteriosas. Em 1997, um laudo do legista descreditou a versão inicial de que Farias teria sido morto pela namorada, Suzana Marcolino, que depois teria se suicidado. Mas o crime segue sem solução.

No final de sua fala, o promotor disse que pedirá réplica para mostrar ainda mais provas e condenar o casal. Ele classificou o júri como “divisor de água”. “Vocês vão dizer, jurados, se temos que caminhar para frente com a tecnologia ou se voltamos para trás com o subjetivismo das testemunhas”, disse.

Cembranelli afirmou ainda que a própria mãe de Isabella poderia não ter acreditado em sua versão, dizendo que não seria possível que o casal fizesse tudo aquilo. “Ela optou pela versão que para ela é a verdadeira. Ela quer fazer justiça à filha. O Brasil olha para esta sala. O Brasil espera. Eu peço apenas justiça”, clamou.
 


Entenda o que deve acontecer hoje, último dia

O julgamento teve início nesta segunda-feira (22), quando o casal se encontrou pela primeira vez desde maio de 2008, e deve durar até o final desta semana. Pai e madrasta são julgados por quatro mulheres e três homens, sorteados no primeiro dia de sessão. Destes, cinco nunca participaram de um júri.

Em seguida, foram tomados os depoimentos das testemunhas. Os réus foram os últimos a serem ouvidos. A última fase é a dos debates, quando defesa e acusação apresentam seus argumentos. São duas horas e meia para cada (por se tratarem de dois réus), o que deve ocupar toda a sessão de sexta-feira (26). Se o Ministério Público pedir réplica, de duas horas, a defesa tem direito à tréplica, também de duas horas.

Ao final, o júri se reúne em uma sala secreta para responder a quesitos formulados pelo juiz. Eles decidirão se o casal cometeu o crime, se pode ser considerado culpado pela atitude, e se há agravantes ou atenuantes, como ser réu primário. De posse do veredicto, se houver condenação, o juiz dosa a pena com base no Código Penal. Se houver absolvição, os Nardoni deixam o tribunal livres. A sentença deve sair ainda na noite de sexta.

* Com informações da Agência Estado.

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