Artigo: Jornalista do UOL descreve dias de apreensão durante o julgamento do casal Nardoni

Rosanne D'Agostino
Do UOL Notícias

Em São Paulo

Meia noite e quinze minutos. A sala do júri lotada não comportava mais a espera de cinco dias por um veredicto que já se queria havia quase exatamente dois anos, quando a menina Isabella, de apenas cinco anos, fora jogada da janela do edifício London –29 de março de 2008. Na mesa do plenário, o juiz Maurício Fossen agradecia o colega, promotor Francisco Cembranelli, que, segundo ele, “demonstrou com maestria seus argumentos”. Os advogados dos réus dividiam a expressão de ansiedade com os curiosos, que esperavam em pé e nos corredores. Dez minutos depois, a conclusão: “culpados”. E um grito abafado, quase inaudível, fez com que os presentes se entreolhassem em espanto. Centenas comemoravam a condenação do casal Nardoni em frente ao Fórum de Santana, ao som do Tema da Vitória, famoso nas voltas de Ayrton Senna, e de fogos de artifício. Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá estavam condenados.

Por uma semana não se falou de outro assunto. A caminho do fórum, a pergunta quase sempre era a mesma: “Foram mesmo eles?” A resposta, nem sempre. As quatro mulheres e três homens que compuseram o júri popular de Alexandre e Jatobá, pai e madrasta de Isabella, também não pareceram ter certeza desde o início. Anotavam, perguntavam. Difícil ver um Conselho de Sentença tão participativo. Sabiam, porém, da responsabilidade que carregavam, resumida por um dos manifestantes que já protestava na porta do tribunal mesmo antes de o julgamento começar. Era uma “Copa do Mundo”. Àquela hora, nenhum dos jurados podia mais saber o que acontecia fora daquelas paredes, enquanto decidiam o futuro do caso que parou o país. Estavam isolados, em busca da verdade.

Você concorda com a condenação do casal?

A imprensa também tentava entender o que havia acontecido no dia fatídico. Cerca de 150 jornalistas se espremiam para repassar cada momento, as reações do casal, o espetáculo montado como uma espécie de caça às bruxas. Na sala de imprensa, as brigas não eram apenas por causa do ventilador e do calor por vezes insuportável, fruto da falta de espaço. Também faltavam cadeiras, e nem todos podiam assistir às frequentes discussões travadas por acusação e defesa em plenário. “Vou te mostrar o que é uma banana”, rebatia Roberto Podval levando a plateia às gargalhadas. Mas nenhuma delas capaz de fazer esquecer que ali, no banco dos réus, dois possíveis inocentes estavam face a face com uma pena por homicídio triplamente qualificado. Clamaram inocência e choraram.

 

Um “choro sem lágrimas”, para o promotor e para a plateia. Não só de Alexandre, mas principalmente de Jatobá. O pai visivelmente se abalava ao falar da filha. A madrasta, somente ao falar dos próprios filhos. Assim como Ana Carolina Oliveira, a primeira a ser ouvida por todos sobre como funcionaria todo aquele mundo em que vivia antes de perder Isabella. Um pai ausente, que não queria pagar a pensão alimentícia, que se casara com uma mulher ciumenta, que a importunava. O choro de mãe. Choro de mães e pais que acompanhavam o julgamento de seus filhos. E a revolta que invadiu a todos quando foi a mãe de Isabella foi impedida de deixar o fórum caso necessária fosse uma acareação com os réus. Saldo: quatro dias de total isolamento, uma visita psiquiátrica e um ponto a menos para a defesa.

Ainda assim, a dúvida permanecia. Seria uma mulher ressentida? Traída? O júri foi se delineando, graças ao promotor, em um crescente. Pela primeira vez falou-se em certeza, no depoimento da delegada Renata Pontes, quem atendeu a ocorrência da queda da janela. Depois, peritos deixaram claro que houve asfixia, que Isabella foi jogada por alguém com força contra o chão enquanto ainda estava no apartamento. Estática, ficou sangrando até que a tela de proteção fosse cortada. Fotos do corpo chocaram jurados, e a avó materna da menina deixou o julgamento aos prantos. Não conseguiu ouvir o perito trazer a constatação científica de que os ferimentos mostravam uma tentativa de calar os gritos da menina. Crueldade. E uma prova quase inconteste foi apresentada: as marcas na camiseta de Alexandre comprovavam que somente ele poderia tê-la arremessado.

Quase sem saída, a defesa dispensou todas as suas testemunhas. Mas não conseguiu ganhar credibilidade até que os debates começassem, já no último dia de julgamento. Recorrendo a um outro grande mistério que ainda atrai olhares desde 2007, o desaparecimento da britânica Madeleine McCann, o advogado Roberto Podval tentava fazer reacender a chama da dúvida que se apagava pouco a pouco. E encerrou com uma frase de Chico Xavier: "Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim".

Faltavam apenas poucas horas para a sentença, e só quem não tinha dúvida alguma eram os que gritavam em coro: “Justiça, Justiça”. A multidão havia crescido ao longo dos dias. Já não havia mais nada a ser dito. A decisão estava nas mãos dos sete jurados, enclausurados por mais de uma hora na sala secreta. Quando a votação atingiu os quatro votos pela condenação, Maurício Fossen interrompeu e tirou todos do local. Se foi unânime, ninguém jamais saberá.

A madrugada avançava quando Cembranelli deixou o fórum aplaudido e ovacionado, recebido como um verdadeiro herói. Acenou com um gesto positivo e sorriu. O júri de sua vida. Do portão lateral, saía Roberto Podval: “O brilho da noite é do Dr. Cembranelli”, dizia um recado do defensor. Se chamasse a atenção, poderia fazer jus a outro proclamo dos populares: “Pega lá, pega lá, pega lá! Pega lá para nóis linchar!”

Trinta e um anos de prisão para Alexandre. Vinte e seis para a madrasta. O casal deixava o fórum em camburões, perseguidos, chutados. Gás de pimenta irritou os olhos até dos jornalistas mais distantes. Um “buzinaço” invadiu as ruas da capital paulista. Parecia final de Campeonato Brasileiro. “Foram eles?”, uma dona-de-casa perguntou. “Sim. Agora, é certeza”, respondi.


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