Promotora do RS reafirma que morte de secretário da Saúde foi motivada por vingança

Flávio Ilha
Especial para o UOL Notícias
Em Porto Alegre

A promotora Lúcia Helena Callegari, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, que conduziu as investigações sobre a morte do secretário da saúde de Porto Alegre e ex-vice-prefeito Eliseu Santos, disse nesta segunda-feira (5) que chegou à conclusão de que houve um complô contra o secretário e um homicídio motivado por vingança. Santos, 63, foi morto a tiros na noite de 26 de fevereiro passado, quando o secretário saía de um culto evangélico.

 

“As diligências levam à participação de um grupo que fazia ameaças ao secretário e que pressionava pela renovação de contratos de segurança em postos de saúde da capital”, relatou Lúcia Helena.

Segundo ela, Eliseu Santos foi seguido pelo grupo um dia antes do crime e registrou ameaças de morte à polícia. O filho do secretário afirmou que o pai estava preocupado “com o pessoal da Reação (empresa de vigilância que atuava em postos de Saúde da capital gaúcha) ”, explicou a procuradora.

Na quinta-feira (1º), um grupo de promotores contestou o inquérito produzido pela Polícia Civil e indiciou outras cinco pessoas pelo assassinato de Eliseu Santos. Além do indiciamento, o MP conseguiu na Justiça a prisão preventiva dos acusados. Quatro dos cinco suspeitos foram detidos pela Brigada Militar durante o fim de semana. A denúncia foi aceita pela Justiça.

Foram indiciados os ex-PMs Jorge Renato Hordoff Mello e Marcelo Machado Pio, donos da empresa de segurança privada Reação. A empresa fazia a segurança de postos de saúde da capital e, segundo o MP, estaria ameaçando Eliseu de morte devido à perda de contratos e a um suposto prejuízo de R$ 1 milhão.

O inquérito policial, encerrado no dia 15 de março, diz que a morte foi provocada por uma tentativa de assalto frustrada contra Eliseu Santos. O trio de assaltantes, segundo a polícia, estava interessado no automóvel da vítima e foi surpreendido pela reação do secretário. Na ação, dois criminosos ficaram feridos.

Também foram indiciados por ordem do Ministério Público e da Justiça o servidor municipal Marco Antônio de Souza Bernardes, apontado como elo entre a Reação e a secretaria municipal da Saúde, e Robinson Teixeira dos Santos, que teria desempenhado a função de motorista no assalto simulado. Robinson continua foragido.

Bernardes, que se apresentou à Justiça no sábado (3), era funcionário de confiança de Eliseu na secretaria e, segundo a denúncia dos promotores, tentava cobrar comissão da empresa de segurança para a renovação dos contratos. O servidor foi demitido pelo secretário por conta das suspeitas de tentativa de extorsão.

Já haviam sido presos pela polícia os suspeitos Eliseu Pompeu Gomes e Fernando Treib Kroll, apontados como autores dos disparos. O quarto suspeito de estar na cena do crime, Marcelo Dias Souza, também foi preso. Segundo as investigações do MP, Gomes foi identificado por uma testemunha como segurança dos donos da Reação.

A auxiliar de enfermagem Janine Ferri Bitello, que prestou atendimento a Gomes na noite do crime e é cunhada de Marcelo Dias Souza, também foi apontada como suspeita de integrar a quadrilha. Ela, no entanto,não teve prisão preventiva decretada.

Cópias de extratos de ligações telefônicas continuam sendo analisadas pelo Ministério Público. Os promotores esperam agora encontrar conexões que provem a ligação entre os dois grupos. Segundo Lúcia, a ação de uma quarta pessoa na cena do crime, flagrada pelas câmeras de segurança de um supermercado, foi decisiva para a hipótese de homicídio.

“Essa pessoa se dirigiu à cena do crime em um movimento contrário ao normal, possivelmente empunhando uma arma”, disse a promotora. Além disso, ela informou que a viúva do secretário não relatou nenhum anúncio de assalto antes do crime.

A promotora reconheceu que alguns elementos de investigação ainda não foram analisados, entre eles escutas autorizadas pela Justiça e cruzamentos de ligações entre os suspeitos. Além disso, o MP também investiga a hipótese de o irmão de Eliseu Pompeu Gomes ser funcionário da Reação.

O procurador em exercício Delmar Pacheco da Luz afastou a hipótese de uma “crise”entre a Polícia e o MP em função das conclusões divergentes. “Não queremos desmoralizar a atividade policial. Esses fatos [a divergência] são comuns na nossa atividade. O Ministério Público tem autonomia para escolher a hipótese mais adequada”, disse.

Segundo ele, a polícia não excluiu nenhuma das versões – de homicídio ou latrocínio. “A investigação [da Polícia] foi célere, rápida e extremamente baseada em elementos técnicos e conclusivos quanto à autoria direta”, elogiou Luz. Mas a promotora optou por realizar diligências complementares – e não paralelas – já convencida.sobre a hipótese de homicídio, explicou.

Segundo os promotores, a investigação policial deixou de lado indícios importantes de que a morte do ex-vice-prefeito de Porto Alegre não foi acidental. Entre eles os depoimentos contraditórios dos suspeitos de fazer os disparos. “Eles sabiam que o secretário estava no culto. Isso não configura assalto”, justificou a promotora.

A conclusão do MP deve motivar a instalação de uma CPI na Câmara de Vereadores para investigar a suposta tentativa de extorsão praticada na secretaria municipal da Saúde. A oposição já contabiliza 11 assinaturas das 12 necessárias à instalação da CPI.

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