Rio pode ter terreiros de candomblé na lista de patrimônio nacional

Cristiane Ribeiro
Da Agência Brasil
No Rio de Janeiro

Depois da Bahia, o Rio de Janeiro pode ser o segundo estado brasileiro a ter terreiros de candomblé incluídos na lista de patrimônio imaterial histórico nacional. Trinta e dois centros onde a religião afrobrasileira é praticada há mais de 30 anos já foram mapeados pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e dois deles já estão em processo de tombamento.

Os resultados do inventário que vem sendo feito pelo Iphan há quatro anos serão apresentados no 1º Fórum dos Terreiros de Candomblé do Rio de Janeiro, que será realizado hoje (5) e amanhã (6) na sede da Superintendência do instituto, no centro do Rio. No evento, serão discutidas ainda as medidas a serem adotadas para a preservação dos terreiros, que, segundo o superintendente do Iphan no Rio, Carlos Fernando Andrade, podem ser de ajuda financeira ou de realização de oficinas.

Andrade explicou que as religiões com matriz africana, como é o caso do candomblé, interessam ao Iphan para deixar registrado na memória do país esse tipo de expressão cultural, desde a manifestação de um orixá, as cantigas, suas comidas e suas formas de dançar. Por isso, disse ele, “nesse levantamento usamos uma metodologia que chamamos de Inventário Nacional de Referência Cultural e agora vamos trabalhar um plano de salvaguarda para a preservação dessa cultura”.

“Estamos tratando o candomblé como uma questão cultural e não religiosa. Assim, a noção de patrimônio imaterial passa pela questão dos saberes, das crenças, das festas, da mesma forma como trabalhamos a Festa do Divino, em Paraty, e a Congregação de São Benedito, em Angra dos Reis, ambas no sul do estado do Rio”, acrescentou.

A museóloga Márcia Neto, responsável pela pesquisa no Iphan, reconhece que o trabalho está sendo feito por amostragem, já que existem centenas de terreiros de candomblé no estado. Segundo ela, o primeiro critério usado no mapeamento é o da antiguidade. “Quanto mais antigo o terreiro, mais memória ele tem”.

Os dois primeiros centros visitados foram os de Nitinha de Oxum, em Nova Iguaçu, e de Valdomiro de Xangô, em Duque de Caxias, ambos na Baixada Fluminense, onde as atividades começaram há quase 50 anos. O processo de tombamento está tramitando no Iphan e segundo a pesquisadora, ainda não há previsão de conclusão. Outros dois terreiros já visitados também entraram com pedido de tombamento.

“Qualquer zelador de santo, ou seja, o babalorixá (se for homem) ou ialorixá (se for mulher), pode pedir o tombamento imaterial da casa, que para nós do Iphan significa o resgate da cultura pelos saberes, rituais, danças, cantigas, indumentária e linguagem. Neste fórum vamos ouvir as comunidades dos terreiros para elaborarmos propostas de salvaguarda para conservação, preservação e registro desses locais”, afirmou.

Para escritor, iniciativa de preservar terreiros é positiva
O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, autor de vários livros sobre o culto do candombé, avaliou como positiva a iniciativa do Ministério da Cultura, de preservar os terreiros com o título de patrimônio imaterial.

Ele alertou, porém, que os cultos não são somente manifestações lúdicas do povo negro, como a capoeira ou o samba, mas sim uma prova da continuidade da fé nos orixás e de uma forma de vida e que, por isso, os terreiros deveriam ser vistos como locais de manifestação religiosa.

“Os terreiros são comunidades que unem o cotidiano ao sagrado, onde as manifestações das entidades atravessam as inquietações sociais, as relações intersubjetivas de negros e brancos”, disse o escritor.

Ele acredita que a partir desse contato entre o Poder Público e os trabalhadores do candomblé, que vai ocorrer durante o 1º Fórum dos Terreiros de Candomblé do Rio de Janeiro, hoje (5) e amanhã (6), podem surgir propostas para estreitar a relação e trazer melhorias para os terreiros.

Expectativa positiva também tem Mauro Nunes, relações públicas da Sociedade Nossa Senhora das Candeias, o terreiro de Nitinha de Oxum, o primeiro do Rio de Janeiro que deu entrada ao processo de tombamento no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

“Sei que o processo ainda está em andamento e, enquanto isso, continuamos dependendo da boa vontade dos freqüentadores em dar uma contribuição e dos filhos de santo, que também colaboram com uma mensalidade para manter a casa. Nossa expectativa é de receber subsídios, a exemplo do que ocorre com a Casa Branca, da Bahia, da qual somos descendentes e que desde que recebeu o título de patrimônio imaterial, vem sendo conservada pela prefeitura, com pintura, troca de lâmpadas e outros consertos”.

Para o babalorixá Sérgio Pina de Oxossi, a possibilidade de receber um título do governo federal e ter um registro de seu terreiro traz a expectativa de dias melhores. Ele ficou de fora do mapeamento feito pelo Iphan, mas tem esperança de que o centro que comanda há 26 anos em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, possa ser incluído no inventário e, assim, receber melhorias do governo. Segundo ele, as dificuldades são muitas, a começar pela parte financeira, pois a responsabilidade com os santos é muito grande e os rituais preveem gastos com comida, roupas e velas, além de luz, água e gás.

“Antes, os filhos de santo moravam nos terreiros, mas agora a maioria trabalha e não tem disponibilidade para ajudar no dia a dia. Então, estabelecemos uma mensalidade para dividir os custos e evitar que a casa feche as portas”.

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