Com 153 vítimas, número de mortes no Rio já é maior do que no desastre de Santa Catarina

Guilherme Balza

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 06h52

O número de mortes decorrentes das chuvas que atingiram o Rio de Janeiro nos últimos dias superou os óbitos ocorridos na tragédia que abalou Santa Catarina em novembro de 2008. Enquanto em SC foram 135 mortos em 16 municípios, no Rio 153 pessoas morreram em apenas sete cidades --a capital (48 mortes), Niterói (85), São Gonçalo (16), Nilópolis (1), Paracambi (1), Magé (1) e Petrópolis (1).

O desastre catarinense eclodiu após três meses de chuvas quase que diárias, seguidos por dois dias de chuva recorde: em 22 e 23 de novembro choveu o equivalente à média histórica para o mês em diversas cidades próximas ao litoral do Estado. Foi o mês de novembro que registrou a maior quantidade de chuvas desde que o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) começou a fazer medições na capital catarinense, em 1961.

Mais de 80 mil pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas na época. As mortes se concentraram nos municípios de Ilhota (47 óbitos), Blumenau (24) e Gaspar (21), todos na região do Vale do Itajaí. A maioria dessas mortes ocorreu em deslizamentos de terras que atingiram moradias localizadas em encostas de morros.

No Rio de Janeiro, segundo a Coordenação da Defesa Civil do Estado, o número de desabrigados no Estado está em cerca de 3.000, enquanto que o total de desalojados é de 11 mil.

Na época, Maria Lúcia de Paula Hermman, geóloga e pesquisadora do grupo de estudos de Desastres Ambientais da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), afirmou que a tragédia foi resultado da combinação da chuva excessiva com anos de descaso do poder público, que não impediu a ocupação de áreas de risco e não soube orientar a população para se proteger da chuva.

Com grande destaque na mídia, a tragédia em SC suscitou o debate sobre as razões dos desastres causados pelo mau tempo e as medidas necessárias para impedir que eles se repetissem. Assim como em SC, a principal causa das mortes na tragédia atual no Rio de Janeiro foram os deslizamentos de terra ocorridos em encostas.

Poder público falha mais uma vez
Para Júlio César Wasserman, geógrafo e professor do Departamento de Análise Geoambiental da Universidade Federal Fluminense (UFF), tanto no desastre catarinense, quanto no do Rio de Janeiro, o poder público falhou. “As pessoas que ocupam as áreas de risco têm alguma culpa, mas o povo faz as coisas sem muita consciência. Cabe principalmente ao poder público a tarefa de educar e preparar a população para impedir que as tragédias aconteçam”, diz.

De acordo com o geógrafo, o Rio tem particularidades que tornam a região ainda mais propícia para os desastres. “Só a capital tem sete milhões de habitantes, grande parte vivendo nas encostas. O solo no RJ é mais espesso e com rochas grandes, o que aumenta o risco e a proporção dos acidentes”, afirma.

Na avaliação de Wasserman, o descaso maior foi da prefeitura de Niterói, que realizou poucas ações para evitar a tragédia. “Niterói é uma cidade rica. O IPTU (Imposto Predial Territorial Urbano) é caríssimo, mas a prefeitura fez muito pouco, realizou apenas algumas obras em beira de estradas.”

Para o pesquisador, na capital fluminense houve uma preparação maior com relação à prevenção da tragédia, mas faltou à prefeitura comunicar melhor a população da chuva. “No Rio, a prefeitura possui um sistema de monitoramento e instalou cerca de 30, 40 pluviômetros em lugares críticos. Talvez tenha faltado um pouco mais de atenção ao avisar o público antes da chuva chegar”, diz

Contudo, segundo ele, a tragédia poderia ter sido ainda maior na capital: "Diante da dimensão do evento, o número de mortos no Rio não foi tão grande. Mas, é uma lição de que a situação na capital ainda não está no ponto ideal. Em Petrópolis e Teresópolis, cidades em que no passado foram cenário de grandes tragédias, ocorreu apenas uma morte, e lá também houve várias quedas de barreira”.

O caminho para evitar que o desastre se repita, na avaliação de Wasserman, é o poder público ser “implacável” ao impedir a ocupação das áreas de risco. “É preciso impedir essas ocupações e retirar as famílias dos locais de risco, oferecendo soluções para elas”, diz.

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