População do morro dos Prazeres resiste a procurar abrigo municipal

Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

Moradores do morro dos Prazeres, no Rio de Janeiro, permanecem em áreas onde cerca de 400 casa foram interditadas pela Defesa Civil. Muitos resistem à ideia de ir para um abrigo montado pela prefeitura.

A comunidade de 7 mil habitantes foi a mais afetada na capital fluminense após as fortes chuvas dessa semana. No local, já foram encontrados 28 corpos que estavam soterrados em virtude do deslizamento de terra ocorrido na manhã de terça-feira (6).

Janice Delfim, 27, moradora do morro dos Prazeres, diz que não deixará a comunidade. “A população não sabe direito quais áreas estão em risco. Recebemos informações diferentes. Se vou sair, vou pra onde?! Se eu for para o colégio, não sei quanto tempo vou ter que ficar lá. Um dia? Uma semana? Um mês? E depois? Minha vida é aqui”, justifica. A maioria da população tem preferido ir para a casa de amigos ou parentes.

Poucas famílias decidiram deslocar-se até o abrigo montado pela prefeitura no Colégio Estadual Monteiro de Carvalho, na Rua Almirante Alexandrino, no bairro de Santa Teresa. A dona de casa Inês Alves da Silva, 46, resolveu abrigar-se no colégio com seu marido, dois filhos e dois netos.

Segundo ela, o abrigo está limpo e organizado, e as seis famílias lá presentes estão bem-instaladas: há colchões, cobertores, toalhas, banho quente e refeições. Inês afirma, no entanto, que ainda há falta de fraldas descartáveis e roupas para criança.

“Estamos unidos. Todo mundo tem que ter calma, para que a situação não fuja do controle”, pondera.

Muitas pessoas estão receosas de que toda a comunidade seja removida à força. Nesta quinta-feira (8), um decreto do prefeito Eduardo Paes (PMDB) permite que autoridades retirem compulsoriamente moradores de 158 áreas do município declaradas em situação de emergência.

Moradia provisória
Um posto de cadastro foi montado por subsecretarias municipais da área social numa Assembléia de Deus na Rua Gomes Lopes, principal via do morro dos Prazeres. Os moradores cujas casas receberam um auto de interdição são aconselhados a se deslocar para algum abrigo ou lugar social. Engenheiros da Geo-Rio estão trabalhando no local para averiguar as condições de cada residência.

De acordo com Pierre Batista, secretário municipal de Habitação, “está sendo feita a avaliação de risco e a prefeitura está oferecendo alternativas à população afetada”. Questionado sobre a presença de moradores em áreas interditadas, Batista afirmou que a prefeitura está “procurando retirar as famílias das áreas de risco e proporcionar uma moradia provisória. Mas a comunidade é grande”.

28 corpos encontrados
Na tarde deste sábado (10), foram encontrados mais três corpos no morro dos Prazeres, totalizando 28 ao longo da semana. De manhã, foi retirado o corpo de uma mulher de meia idade que ainda não foi reconhecido, mas moradores afirmam ser de Jurema, que tinha 47 anos.

Os corpos retirados da comunidade estão sendo levados até a Delegacia Legal de Santa Teresa (7º DP), para em seguida serem encaminhados até o Instituo Médico Legal (IML).

Uma equipe de 78 bombeiros, 15 civis de uma empresa particular contratada pela prefeitura e 10 voluntários segue buscando corpos. Duas retroescavadeiras estão sendo utilizadas nas atividades.

Para o Tenente Coronel do Corpo de Bombeiros Valdinei Dias da Silva, é cada vez mais remota a esperança de resgatar alguém com vida.

Fábio Leonardo, 32, é um dos voluntários que estão ajudando nas buscas. “O sentimento aqui na comunidade é o pior possível. Horrível. O terreno [onde houve o deslizamento] está perigoso, mas nós só vamos parar quando tirarmos o último corpo dali”, diz o morador que nasceu na comunidade e perdeu duas primas, vítimas da tragédia.

Marcos de Lima, 37, relata que o clima ainda é de tensão no morro: “Está tudo muito tenso. Não tem condições da vida voltar ao normal”.

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 * Com informações de André Naddeo, no Rio de Janeiro, agências internacionais e Agência Brasil.

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