RJ já contabiliza 80% das mortes por chuva deste ano no país

Rosanne D'Agostino

Do UOL Notícias
Em São Paulo

Em pouco menos de uma semana, o número de mortes em razão das chuvas no Rio de Janeiro já supera a cifra de todo o restante do país desde janeiro. A atual tragédia, somada à de Angra dos Reis no último Réveillon, contabiliza 288 óbitos e 42 municípios afetados em 2010 no Estado, segundo dados da Defesa Civil até as 22h30 desta sexta-feira (9). Apenas nesta semana, mais de 200 pessoas morreram.

O total de óbitos no Estado desde janeiro representa cerca de 80% das mortes ocorridas no período em todo o país. Segundo a Defesa Civil nacional, os demais Estados registraram 72 mortes em razão da chuva de janeiro até abril.

A tragédia ainda deve ser maior se concretizada a estimativa de que, no morro do Bumba, em Niterói, cerca de 200 estejam soterrados. Nas palavras do governador Sérgio Cabral (PMDB), a situação é "estarrecedora". “A responsabilidade é de todos nós. Não só autoridades, mas de toda a sociedade. Não quero fazer catarse de culpados, essa demagogia de ocupação irregular não vale à pena”, afirmou ao visitar na sexta-feira o local, um antigo lixão ocupado irregularmente.

Em São Paulo, onde alagamentos causam transtornos desde janeiro, houve 43 óbitos. Se somadas as mortes ocorridas no último mês de 2009 (período levado em consideração pela Operação Verão, da Defesa Civil estadual de SP), foram 78. Nem a metade do que foi registrado no RJ em quatro dias.

Com relação ao volume de chuva, na terça (6) houve um acúmulo de 288 milímetros na cidade do Rio, o que superou o recorde histórico de 1966, que era de 245 mm. Mais de 60 pontos de alagamento foram registrados.

Já São Paulo teve o primeiro trimestre mais chuvoso em 15 anos. Mais da metade da precipitação foi registrada em janeiro, com 461,3 mm, um recorde desde que o CGE (Centro de Gerenciamento de Emergências) começou a medição.

Natureza + omissão
Em ambos os casos, a influência veio do fenômeno El Niño (aquecimento das águas do oceano Pacífico equatorial). Ainda assim, SP ficou bem longe do Rio em número de mortos. Segundo o geógrafo Julio César Wasserman, o grande fator é o relevo. “Eu diria que o relevo é crucial, porque o Rio tem inúmeras encostas íngremes, onde inclusive é proibido construir, por causa do risco”, afirma.

Como ocorre o deslizamento

Em comparação com outra grande tragédia, as chuvas que devastaram diversas cidades em Santa Catarina e causaram 135 mortes no final de 2008, o geógrafo diz que a situação do Rio ainda se agrava em razão da composição do solo. “Em Santa Catarina é diferente, porque aqui [RJ] temos a presença de pedras soltas. Quando está seco, fica firme. Quando chove muito, a água retira esse material de sustentação, ela solapa a pedra, o que provoca o deslizamento”, explica.

Conforme Wasserman, no entanto, a geografia influencia tão significativamente o aumento das mortes apenas quando o poder público é omisso. “Isso [chuvas e deslizamentos] não é um processo novo. As comunidades ocupam encostas há muitos anos. Mas, em Niterói, a situação foi mais crítica desta vez porque não houve investimento na prevenção. Na capital, criou-se o Geo-Rio, para avaliar as áreas de risco. Então, não houve tantas mortes. É um conjunto de fatores”, completa.

A fundação Geo-Rio, a que se refere o especialista, é o Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro, órgão da Secretaria Municipal de Obras da prefeitura, criado em 12 de maio de 1966 após as chuvas que castigaram a cidade no mês de janeiro daquele ano. O saldo de 70 mortos e mais de 500 feridos deixou a cidade em calamidade pública e obrigou o poder público a dar uma resposta efetiva a uma tragédia anunciada.

Saiba mais sobre os desastres provocados pelas chuvas na capital Rio de Janeiro:

Janeiro de 1966 - 70 mortos e mais de 500 feridos - situação de calamidade pública
Fevereiro de 1967 - Cerca de 100 mortos - estado de calamidade em diversos bairros
Fevereiro de 1988 - 58 mortos - Precipitações de até 449 mm, em quatro dias, e de 177mm, em 24 horas - principalmente no Morro da Formiga, no bairro da Tijuca, no Morro Santa Marta, em Botafogo e em Santa Tereza, onde um deslizamento catastrófico atingiu a Clínica Santa Genoveva
13 e 14 de fevereiro de 1996 - 52 mortos - Precipitações superiores a 190mm em sete horas nos bairros do Alto da Boa Vista e do Jardim Botânico. Escorregamentos em morros da Tijuca e Pedra Branca destruíram centenas de moradias
  • *Com informações da Geo-Rio

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