Famílias já enterram as vítimas da tragédia no Rio

Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

Leandro Monteiro dos Santos Sousa, 26, vive um drama semelhante ao de muitas famílias no Rio de Janeiro após a tragédia que já matou mais de 220 pessoas no estado. Dois dos três corpos retirados neste sábado (10) do morro dos Prazeres, comunidade no bairro de Santa Teresa, são de familiares seus: o de sua mãe, Jurema Monteiro dos Santos Sousa, de 47 anos, e de Marcos Vinícius, seu sobrinho de apenas oito meses de idade.

Acompanhado da noiva, Leandro, filho mais velho da família, identificou os dois corpos ontem à noite, no Instituto Médico Legal (IML). Nesta tragédia, também faleceram seu pai, Marcos Antônio, dois irmãos, Gabriel e Leonardo, e Sheila, uma de suas irmãs. Todos já foram enterrados no cemitério do Caju, na zona norte do Rio. O corpo de Jurema foi sepultado na tarde deste domingo (11).

“Estou contando com a força espiritual, o apoio da família e de amigos e, principalmente, com a ajuda do pessoal da comunidade”, relata Leandro, que é evangélico. “Ficamos emocionalmente dilacerados. Fica até difícil de raciocinar”, lamenta visivelmente abalado.

O IML instalou um posto avançado próximo ao morro do Bumba, em Niterói, cidade que contabiliza o maior número de vítimas – já são mais de 140. Mesmo assim, alguns corpos ainda são encaminhados ao IML no bairro de São Cristóvão, região central da capital fluminense. Segundo informações de Tânia Soares, subcorregedora da Defensoria Pública Geral do Estado do Rio de Janeiro, um corpo foi reconhecido em Niterói e outros três foram encaminhados ao IML no Rio.

Tristeza e resignação no saguão do IML
Apesar de triste, o clima era tranqüilo no saguão no IML neste domingo. Não havia revolta, mas, sim, expressões de esgotamento físico e emocional no semblante de pessoas que perderam parentes e amigos por causa das fortes chuvas.

Júlio César,43, é comerciante e morador do bairro Viçoso Jardim, onde está localizado o morro do Bumba. Neste domingo, ele reconheceu em Niterói o corpo de José Ivanildo do Nascimento, 47, nascido em Timbaúba-PE. Segundo Júlio, Ivanildo não possuía família no Estado.

“Ele era conhecido nosso. Estou fazendo isso para não deixar que ele seja enterrado como indigente”, explica. O comerciante já enterrou seu pai, sua irmã e uma sobrinha, todos moradores do morro do Bumba.

Por muito pouco, Júlio também não foi vítima, pois deixou a casa da irmã minutos antes do deslizamento. “Houve explosões. Logo em seguida vimos o que tinha acontecido e corremos para ajudar. Ainda consegui ajudar a tirar algumas pessoas com vida.”

Em Niterói outro lixão em morro
também preocupa moradores

Ao lado de Júlio, outra história trágica: a de Alberto da Silva Barcy, ajudante de cozinha que mora em São Gonçalo, município vizinho a Niterói. “Cheguei do trabalho na noite de quarta-feira e liguei a TV para ver o noticiário. Vi o que tinha acontecido. Fiquei muito preocupado e fui direto pra lá pra tentar ajudar”. O esforço não suficiente para impedir a morte de seu irmão, sua cunhada e dois sobrinhos. Três dos quatro corpos já foram sepultados.

Assistência jurídica aos sobreviventes
Desde sexta-feira, a Defensoria Pública está trabalhando 24h no morro do Bumba. De acordo com Simone Estrellita, assessora da subcorregedoria da Defensoria Pública, equipes de dois a quatro defensores estão se dividindo em turnos para emitir os requerimentos de alvará de sepultamento e agilizar o processo de enterro das vítimas.

O órgão ainda não possui dados precisos sobre o número de sepultamentos. Mas Estrellita aponta, por exemplo, que somente entre a noite de sexta-feira (9) e a manhã de sábado (10), 18 procedimentos foram realizados.

Segundo Tânia Soares, subcorregedora da Defensoria e que passou parte do domingo no posto montado no bairro Viçoso Jardim, em Niterói, muitos sobreviventes procuraram ajuda para reemitir documentos perdidos na tragédia, como certidões de nascimento e documentos de identidade.

O trabalho da Defensoria permite a gratuidade desse serviço. Há também um posto do Detran montado na localidade atingida, para agilizar a emissão da Carteira Nacional de Habilitação dos moradores.

Soares conta que ainda há muita dúvida quanto ao aluguel social prometido pela prefeitura de Niterói. As pessoas ainda não sabem direito como deve ser feito o cadastramento das vítimas.

“Após essa fase de busca dos corpos, nossa intenção é fazer o atendimento direto nos abrigos para a restauração da cidadania”, complementa Simone Estrellita.

Veja as cidades do Rio de Janeiro que registraram mortes

 

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