Índios disputam espaço na Raposa Serra do Sol e ameaçam conflito um ano após demarcação de terra

Luana Lourenço
Enviada especial da Agência Brasil

Em Boa Vista

A confirmação da demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima, há um ano pelo Supremo Tribunal Federal (STF) não encerrou a disputa por espaço na região. Indígenas que defendiam a permanência dos brancos na reserva estão insatisfeitos e ameaçam conflito direto com índios ligados ao Conselho Indígena de Roraima (CIR).

“Estamos sendo humilhados e isso vai acabar. Vamos ter que sacrificar alguém. Hoje vivemos em conflito, somos ameaçados por eles”, disse à Agência Brasil o coordenador da Sociedade de Defesa dos Indígenas Unidos de Roraima (Sodiu-RR), Sílvio da Silva.

Vestindo camisa e calça social, Silva fez questão de colocar um cocar de tuxaua (cacique) durante a entrevista. O líder macuxi acusa indígenas ligados ao CIR – que são maioria dentro da Raposa Serra do Sol – de intimidar e impedir a construção de casas e benfeitorias por índios associados à Sodiu.

“Eles dizem que não podemos construir nossas casas porque não derramamos nosso sangue para pedir a demarcação contínua. Não precisamos derramar sangue para ter direito a uma terra que é nossa também. Não está longe de acontecer uma guerra entre parentes”, disse.

Na mesa de trabalho, em uma sala abafada em Boa Vista, Silvio guarda um conjunto de flechas, que, segundo ele, foram utilizadas por índios ligados ao CIR para ferir e matar animais do grupo adversário.

Coordenador-geral do CIR, o também indígena macuxi Dionito José de Souza, principal líder da defesa da demarcação contínua, reconhece que há divisão entre indígenas no interior da Raposa, mas minimiza a possibilidade de um conflito. “Queremos trabalhar como parceiros, fortalecer a base das organizações indígenas. Temos que nos articular.”

Os dois grupos têm reunião marcada com o desembargador Jirair Mengherian, presidente do Tribunal Regional Federal da 1ª Região na próxima terça-feira (20) para tratar da tensão na reserva.

Um ano após a saída dos arrozeiros e pequenos produtores rurais não índios do interior da Raposa Serra do Sol, Silva disse que nada melhorou na vida dos indígenas que vivem na área de 1,7 milhão de hectares.

“A retirada dos arrozeiros só nos trouxe pobreza e dificuldade. Não existe mais o salário nem as diárias [pagas para quem trabalhava nas fazendas]. O governo não deu condições de desenvolvimento para a Raposa”, questiona Silva. “Não podemos derrubar uma árvore, porque disseram que só podemos preservar, proibiram a mineração. Querem nos matar de fome. Não somos mais como no passado, estamos aculturados”, completou.

Apesar de ser a segunda maior organização indígena do Estado, Silva afirma que a Sodiu não foi convidada para a Festa da Homologação, que vai ocorrer de amanhã (15) a terça-feira (20) de abril em uma das comunidades da Raposa Serra do Sol. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve participar do evento na segunda-feira (19).

“Não vai ser uma festa do Dia do Índio. Vai ser uma festa para o Lula, para os alemães, os americanos, os padres italianos que vivem lá e têm mais liberdade que nós, que também somos índios”, reclama.

O CIR, que coordena a organização da festa, afirma que todos os indígenas estão convidados para a comemoração.

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