Líder indígena reconhece dificuldades para retomada da produção na Raposa Serra do Sol

Luana Lourenço
Enviada Especial da Agência Brasil

Em Boa Vista

Um ano depois da decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que confirmou a demarcação em área contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol (RR) e da saída dos grandes produtores de arroz da área, os índios ainda estão “arrumando a casa”, uma área de 1,7 milhão de hectares, e preparando projetos para chegar a opções de produção e renda.

“Depois de 35 anos de luta, a reconstrução não é assim rápida. Depois de dez anos vamos poder ver de fato os resultados”, disse o coordenador-geral do Conselho Indígena de Roraima,(CIR), o índio macuxi Dionito José de Souza, em entrevista à Agência Brasil.

“Sofremos este ano por causa da seca. Não tivemos todo o apoio do governo federal para colocar estrutura, projetos. Mas temos esse planejamento para trabalhar com agricultura e pecuária.” A área das antigas fazendas de arroz, por exemplo, até agora só foi ocupada com pastos para criação de gado coletivo.

Apesar das dificuldades, Souza – principal líder em defesa da demarcação contínua – diz que o povo “está mais feliz” e que há mais liberdade para os 19 mil indígenas macuxi, wapixana, patamona, ingaricó e taurepang que vivem na reserva.

Sorridente e muito mais à vontade do que na época do auge do conflito com os arrozeiros, o líder macuxi recebeu a reportagem em uma das sedes do CIR em Boa Vista, pouco antes de seguir para a comunidade do Maturuca, no interior da Raposa Serra do Sol, que vai sediar a Festa da Homologação, entre amanhã (15) e terça-feira (20), e deve receber o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Dia do Índio (19 de abril).

Após a festa simbólica, a prioridade é executar projetos para garantir a produção de alimentos e buscar financiamento – no governo e em instituições “de fora”, segundo Souza. “Não queremos assistencialismo. Não entraremos em projetos a troco de boné. Os povos indígenas não precisam viver de migalhas.”

Há previsão de parcerias com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). O líder do CIR aposta na organização coletiva para alavancar a produção, com trabalho e divisão comunitária de alguns bens, numa espécie de socialismo indígena.

Entre os planos do CIR também está a exploração turística do Lago Caracaranã, no interior da Raposa. De acordo com Souza, a ideia é cobrar pela visitação do lago com praia de águas cristalinas, considerado uma das paisagens mais bonitas do estado.

Na prática, a iniciativa contraria a decisão do STF, que proibiu a exploração econômica de áreas da reserva e a cobrança de tarifas ou ingressos para entrada ou permanência na região. O coordenador disse que a proibição deverá ser negociada.

O líder indígena disse que após a saída dos arrozeiros não teve notícia de conflitos entre indígenas e os grandes produtores e evitou comentar a relação com antigos desafetos, como o rizicultor Paulo César Quartiero, líder da resistência à demarcação em área contínua. “Nem escuto mais falar em arrozeiro. Só sei que há muita terra no Brasil onde eles podem plantar arroz”, desconversa.

À frente da Coordenação-Geral do CIR desde 2008, Souza diz que não tem pretensões políticas para a disputa eleitoral de outubro, mas não descartou uma candidatura nas eleições municipais de 2012, provavelmente como candidato à prefeito de Uiramutã, município nos arredores da Raposa.

Até lá, o macuxi disse que pretende descansar e “ficar um pouco em casa”, com os dez filhos. O mais novo, de 9 meses, foi batizado de Dionito Ayres, em homenagem ao ministro do STF Carlos Ayres Britto, que deu parecer favorável à demarcação contínua da Raposa e teve o voto seguido pela maioria do tribunal.

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