Problemas persistem, e moradores da zona leste vão à CPI das Enchentes cobrar respostas do governo

Fabiana Uchinaka
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Atualizada às 10h34

Passados mais de quatro meses do grande temporal do dia 8 de dezembro do ano passado, que desencadeou as enchentes na zona leste de São Paulo, os moradores das áreas da várzea do rio Tietê puderam pela primeira vez discutir os problemas da região com técnicos da Sabesp e do Daee (Departamento de Águas e Energia Elétrica), do governo do Estado. O encontro aconteceu nesta quarta-feira (14) na CPI das Enchentes, que foi instaurada em fevereiro na Câmara Municipal e pretende analisar as causas e os responsáveis pelos alagamentos.

Os moradores, que lotaram a sala da CPI e vieram munidos de fotos e vídeos da situação, cobraram explicações sobre o tratamento de esgoto na região, o fechamento das comportas da barragem da Penha no dia 8, a falta de comunicação entre as barragens, a diminuição da verba para o desassoreamento do rio Tietê e dos seus afluentes, a forma como é feito o recapeamento das ruas dos bairros e a manutenção dos bueiros e a falta de um programa de habitação para pessoas que serão removidas.

“Foi decretado estado de calamidade pública na região. Os moradores esperavam que com isso aumentaria o número de funcionários trabalhando ali. Mas isso não aconteceu. A água continua voltando pelo esgoto das casas e continua acumulando nas ruas do bairro. Na rua Capachos [no Jardim Romano, uma das mais atingidas pelas enchentes], o caminhão [de drenagem da subprefeitura] fica ali permanentemente, porque se sair, volta a alagar. Os bueiros e as bocas de lobo estão entupidos. Não tem vazão. E a prefeitura não aparece”, resumiu Euclides Mendes do Nascimento, morador da Vila Itaim.

Segundo a moradora da Vila Aimoré Vivian Souza, a chuva diminuiu, mas os problemas não se resolveram. “As pessoas ficaram doentes, com leptospirose e diarreia, perderam seus emprego, porque precisaram faltar, perderam móveis e tiveram as casas comprometidas por causa da água”, contou.

Já o morador Jorge Luiz Aguiar questionou o fechamento da comporta da Penha, próxima ao Jardim Pantanal, que, segundo reportagem do UOL Notícias, serviu para preservar as marginais de uma inundação. Para ele, a falta de comunicação entre as barragens do sistema Alto Tietê é uma “barbeiragem”.

“A barragem da Penha é operada pelo Emae [Empresa Metropolitana de Águas e Energia] e as do Alto Tietê por uma empresa tercerizada pela Sabesp. A barbeiragem é que elas ficam de costas uma para outra, assim como os prefeitos das cidades que circundam São Paulo. Elas não se comunicam. Nós, que moramos na divisa, sabemos muito bem como é ver os prefeitos de costas para nós”, afirmou.

Ele cobrou ainda que a Sabesp seja responsabilizada pela situação do esgoto nos bairros da zona leste. “A Sabesp não tem condições de operar o sistema de esgoto, que não sai da casa do povo até hoje, e deveria assumir criminalmente a indenização das famílias atingidas. A destruição causada pela chuva foi uma. Mas a do esgoto, que deteriora paredes, portas, móveis e a saúde das pessoas é outra. Muito se fala de área de invasão. Minha casa é escriturada, não é invasão. E se aquele bairro existe é porque autorizaram. Tem empreendimento legalizado, tem água, luz, telefone, creche, ônibus, escola, toda infraestrutura do poder público”, falou Aguiar aos vereadores da CPI.

Em resposta, o gerente de operações leste da Sabesp, Marco Antonio Lopez Barros, que cuida da distribuição e do tratamento da água na região, culpou a chuva e a enchente pelos problemas no trabalho de manutenção. “É uma situação crítica para a Sabesp também”, afirmou. “Não podemos negar o efeito da chuva torrencial que atingiu São Paulo desde o meio do ano passado, com chuvas atípicas e acima da média histórica. Isso traz prejuízos para o trabalho. Não conseguimos nem abrir uma tampa de esgoto com 60 cm de água em cima. Nós temos que esperar a água baixar para fazer o serviço de limpeza.”

De acordo com ele, “enquanto as águas permanecerem, acontecerão os entupimentos”, porque o sistema de esgoto “não está comportando toda a água que ainda persiste na região”. Ele não disse, porém, o que será feito para tirar a água represada no bairro há tantos meses.

Barros afirmou ainda que os problemas no tratamento persistem porque a implantação do sistema de esgoto não está completa e deve demorar mais oito anos para atender a toda a população da região. Ele confirmou as denúncias dos moradores de que, enquanto isso, o esgoto é jogado em córregos da zona leste sem receber qualquer tratamento.

“Ainda existem situações onde o sistema não está completo e onde acontecem lançamentos em galerias e córregos”, disse. “Desde 1991, quando o governo começou o projeto de despoluição do Tietê, nós fizemos duas etapas. Outras virão até o ponto que a gente não tenha nenhum esgoto lançado em córrego. A terceira etapa começa agora com previsão de durar três anos e uma quarta etapa está sendo planejada para mais três anos. A ideia é que até 2018 o serviço de esgoto esteja universalizado.”

Já o coordenador do Projeto Linear Várzeas do Tietê, Genivaldo Maximiliano de Aguiar, que representou na CPI a Secretaria de Estado de Saneamento e Energia e o Daee, respondeu que a barragem da Penha foi fechada no dia 8 de dezembro porque “existe uma regra de operação que determina que a água na barragem não pode ultrapassar um determinado nível”.

“É uma coisa regulamentada, que segue uma legislação da Secretaria de Meio Ambiente e da Secretaria de Energia. Então, não poderíamos fazer diferente”, afirmou.

Segundo ele, não há relação entre o manejo das comportas e os alagamentos “porque a cota máxima da barragem está oito metros acima do nível à região do Jardim Pantanal”. Ele não explicou, no entanto, qual é a relação entre as duas coisas.

Em nota enviada às 10h35 desta quinta-feira, a Secretaria de Saneamento e Energia informou que "o bairro está em um nível 10 metros acima do nível máximo que pode ser atingido pela água acumulada na barragem. Além disso, essa água forma um lago que chega a no máximo 10 km de distância da barragem. Como a região do Jardim Romano está a 14 km da barragem, jamais seria atingida pelo alagamento. Basta observar que, mesmo após o escoamento de toda a água das chuvas pelo rio Tietê, a região continua com áreas alagadas".

“Não querendo procurar um culpado, mas a ocorrência de chuva nos anos de 2009 e 2010 foi atípica. Foram 47 dias de chuvas ininterruptas e com isso a capacidade de escoamento do solo estava esgotada. A capacidade de escoamento estava limitada”, respondeu Aguiar, ao comentar as denúncias dos moradores.

O coordenador também fez questão de dizer que quanto mais crítica é a ocupação da várzea, mais cara e difícil é a solução dos problemas. 

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