Abalada por casos pedofilia, Igreja Católica já sente perda de fiéis em Arapiraca (AL)

Carlos Madeiro
Especial para o UOL Notícias

Em Arapiraca (AL)

As denúncias de que padres e monsenhores abusaram sexualmente de coroinhas abalou não só a cúpula da Igreja Católica em Arapiraca (AL), mas também afugentou os fiéis das celebrações religiosas. Com 200 mil habitantes, a cidade é a segunda maior de Alagoas e tem maioria absoluta católica.

Desde março, quando veio à tona uma série de denúncias, os moradores acompanham os fatos perplexos, e nas ruas da cidade o assunto que predomina é a pedofilia.

Na maior Igreja da cidade, a Concatedral, a missa do sábado à noite era uma das mais tradicionais. Em local privilegiado, no calçadão do centro, a Igreja é a principal do município. Até março, ela era liderada pelo padre Edílson Duarte – acusado de pedofilia e afastado pela Diocese de Penedo (responsável pela cidade). Em um mês, o número de fiéis que vão à missa caiu para menos da metade.

Vendendo pipoca há 20 anos na porta da igreja, Antônio Pereira, 63, conta que nunca viu a Igreja com tão pouca gente como nas últimas semanas. “Eu vendia 45, 50 pipocas à cada missa. Hoje, são 15, 20 no máximo. Caiu demais a quantidade de gente que vem à missa”, afirmou.

Embora o assunto domine as ruas, o silêncio é a marca da Igreja. O UOL Notícias conversou com vários paroquianos da Concatedral e todos foram unânimes em dizer que o assunto pedofilia não foi tocado em nenhuma celebração até o sábado (17).

  • Carlos Madeiro/UOL Notícias

    O pipoqueiro Antônio Pereira, 63, conta que nunca viu a Igreja com tão pouca gente

  • Carlos Madeiro/UOL Notícias

    Os bancos vazios da principal igreja da cidade

No último sábado, poucas horas depois do padre Edílson Duarte admitir em depoimento à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Pedofilia, que manteve relações sexuais com dois coroinhas, a missa foi celebrada normalmente e o padre Hidelbrando ignorou por completo o assunto.

“Ele pediu - de forma genérica - que rezássemos pelos padres. Não citou nomes nem tocou no assunto. Ninguém aqui falou sobre os casos”, afirmou a católica Claudênia Maria da Silva, 28.

Segundo ela, embora a confissão do padre tenha sido uma “surpresa”, algumas pessoas desconfiavam do padre e o comentário sempre existia. “Ele sempre vivia com adolescentes aqui na porta da Igreja após às missas”, relatou.

A família Alves também continua indo à Igreja. O fiel Genival Alves, 47, confirma que o número de pessoas que freqüenta a Igreja diminui muito nas últimas semanas, mas criticou os que deixaram de ir às celebrações. “Minha fé é na Igreja, e não no padre. Embora ele seja o instrumento de Deus, e nós discordemos do que ele fez, a fé é na Igreja”, destacou.

Se para uns o envolvimento de padres está separado da Igreja, para outros, nem tanto. Francisca Cavalcante, 67, disse que jamais voltará à Igreja após as denúncias de pedofilia. “Receber hóstia da mão desse monsenhor [Luiz Marques]? Mais nunca. Passeia desconfiar de tudo e de todos na Igreja, que não agiu corretamente”, disse, perplexa com a situação dos padres que “adorava”.

O aposentado João Vicente, 62, também criticou o episódio e foi um dos que largou às missas após o escândalo estourar. “Estou aqui [nos depoimentos da CPI] para ver o que eles [padres] vão dizer. Não tem como dizer que eles não são a Igreja, porque a palavra era pregada por eles. Se eu não posso confiar neles, como posso confiar na Igreja? Por isso que Arapiraca ganha igrejas de outras religiões em tudo que é canto”, afirmou, confessando que vai pensar se deve voltar a frequentar as missas.

O UOL Notícias tentou conversar com dois líderes da Igreja Católica, na Concatedral e durante os depoimentos da CPI, mas nenhum deles quis comentar a queda do número de fiéis nas igrejas.

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