Derrubar o Minhocão é bom para SP? Paulistanos respondem

Arthur Guimarães*
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Na sua opinião, o Minhocão deve ser destruído?

Tão intruso quanto o Minhocão na paisagem paulistana, os planos sobre sua demolição atravessaram bruscamente as rodas de conversa do centro de São Paulo. Com reações que vão do espanto ao sentimento de "déjà vu", os moradores e comerciantes que vivem ao redor do elevado Costa e Silva têm opiniões diversas quando o assunto é a implosão do polêmico cartão-postal da cidade.

Josenaldo Pereira, 28, trabalha no Quatro Irmãos, bar que recebe clientes para o almoço bem embaixo do viaduto. Lá, a limpeza tem que ser redobrada, para vencer a sujeira que flana dos escapamentos dos carros. Mesmo assim, enquanto serve uma tubaína aos clientes, ele analisa a nova intenção do governo municipal. “Não vai dar certo, não. Os carros vão parar onde? Desse jeito, o trânsito vai acabar lá na Lapa.”

Na banca logo ao lado, a jornaleira Moema Rodriguez, 36, narra uma relação de amor e ódio com o elevado. Moradora há 22 anos da região, ela finalmente comprou há 3 meses o estabelecimento onde hoje vende os periódicos e revistas que, por anos, costumava comprar como cliente. Onde fica a banca? Bem embaixo do concreto do viaduto. “É horrível trabalhar aqui. Muito barulho, poeira dos carros. Derrubar isso tudo visualmente ficaria bem melhor”, diz ela.

Andando mais adiante na calçada, chega-se ao prédio onde vive o vendedor Tiago Cunha, 27. Lá no alto do 4º andar, onde ele mora com a esposa e a família, a cena que se vê é caótica. Da janela, o visual são os capôs dos carros que passam velozes pelo elevado. No ouvido, o barulho que se escuta é altíssimo. “Realmente, de dia, é complicado. Mas fechamos a janela para abafar um pouco o ruído. Mas, à noite, é um silêncio total, já que o trânsito é interrompido”, afirma ele, que é um dos entusiastas do uso recreativo do Minhocão nos sábados e domingos. “É muito legal ter essa opção de lazer”, afirma.

Experiente no pedaço, José Vicente, 70, lembra de uma São Paulo ainda sem elevado. “Há 45 anos, antes disso tudo, aqui era uma beleza. As madames vinham passear à noite, vinham de manhã caminhar. Hoje, veja o que sobrou”, diz ele, apontando para um grupo de sem-teto que montavam uma cabana no canteiro central da avenida São João. “Tenho que contratar segurança. Aqui à noite, meu amigo, é um perigo. Esse elevado não tem refresco”, cravou, quase implorando pela retirada do viaduto da frente de sua loja de cortinas e puxadores.

A polêmica
O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), anunciou ontem pela manhã (6) um projeto que poderá culminar com a demolição do Elevado Costa e Silva, conhecido como Minhocão.

Para isso ocorrer, a prefeitura terá de estimular a ocupação pelo mercado imobiliário de uma área de 2.146 hectares entre a Lapa e o Brás, "enterrar" 12 km de linhas de trem que ligam as duas regiões e construir uma via expressa entre as zonas leste e oeste para substituir o trânsito que passa hoje pelo Minhocão. Não há previsão para a possível obra, mas o mercado aposta que, se de fato for concretizada, a demolição ocorrerá somente em 2025.

Nesta quinta-feira, a prefeitura divulgou apenas as diretrizes e propostas preliminares. Serão contratadas empresas para o desenvolvimento dos projetos sempre a partir das orientações propostas pelo poder público, com a participação da sociedade civil, segundo o governo municipal. Os termos de referência do projeto ficarão disponíveis durante um mês para consulta pública.

Os passos incluem a proposta do edital, que também será objeto de consulta pública, a licitação e o desenvolvimento dos projetos. A expectativa é de que os projetos estejam concluídos no segundo semestre de 2011. Os mesmos subsidiarão a elaboração das propostas de lei para essas operações urbanas a serem encaminhadas ao Legislativo, ainda de acordo com informações da prefeitura.

Inaugurado em 1971 pelo então prefeito Paulo Maluf, o Minhocão é frequentemente criticado por urbanistas pela degradação que provocou. O barulho dos carros, entre outros problemas, levou à desvalorização imobiliária da avenida São João.

Essa não é a primeira vez que a Prefeitura de São Paulo estuda a possibilidade de demolição do elevado. Outras análises para a demolição também ocorreram nas gestões de José Serra (PSDB) e Marta Suplicy (PT).

Transporte individual
O arquiteto e urbanista Cândido Malta Filho criticou as soluções propostas pela gestão de Gilberto Kassab (DEM) para revitalizar regiões centrais da capital e derrubar o Minhocão.

“Enterrar o trem de superfície encarece cinco vezes a obra. Vários terminais teriam que ser rebaixados, assim como a estação da Luz. É possível valorizar a região, promover o adensamento em torno das ferrovias, mantendo o trem na superfície, como foi feito em Palo Alto (EUA)”, diz.

“A obra valoriza o transporte individual, não o coletivo. Seria muito mais efetivo aplicar esse dinheiro na ampliação do metrô. O transporte individual possui uma demanda reprimida: quanto mais obras forem feitas, mais aumentam os carros nas ruas”, afirma Malta Filho, que acompanhou o anúncio do projeto.

“A obra vai atrair novos apartamentos, escritórios, serviços, entre outros. Para arcar com os custos e obter fontes de renda, a prefeitura vai ter que promover a capitalização imobiliária. Isso significa a expulsão das camadas de baixa e média renda e a elitização da região”, conclui.

*Com informações de Guilherme Balza, do UOL Notícias, e da "Folha de S. Paulo"

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