Um mês após incêndio no Rio, comerciantes improvisam à espera de novo camelódromo

Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

Às 5h29 de quarta-feira (26), ainda é noite no Rio de Janeiro. Um senhor caminha em ritmo brando pelo saguão da Central do Brasil. Mancando da perna direita, José Pereira de Lima, 64, precisa do apoio da bengala para ir adiante. Conhecido como “Russo”, ele é um dos cerca de 1.500 trabalhadores que testemunharam a transformação do próprio sustento em cinzas no último dia 26 de abril, quando um incêndio destruiu o camelódromo do local.

Sem ter onde trabalhar, os camelôs literalmente disputam um lugar ao sol nas calçadas das ruas Senador Pompeu e Bento Ribeiro. Por cima dos cavaletes, bolsas, mochilas, chicletes, ferramentas, bolas, pilhas, controles remotos, colares, lenços, meias, gorros, garrafas térmicas, balas, lanternas. Todo cuidado é pouco para impedir a chegada de ambulantes intrusos. E a atenção é constante contra a fiscalização.

“Você chegar em casa e não levar o dinheiro para a sua família é uma coisa séria”, lamenta Russo. No entanto, o senhor de barba branca e cabeça chata mantém a tranquilidade e o bom humor. Até paga o café de seu interlocutor enquanto observa o vazio deixado pelo desaparecimento do camelódromo.

Há 28 dias, cerca de 20 homens da construtora Fábio Bruno têm a tarefa de remover entulho, quebrar resquícios de piso e criar um cordão de isolamento na área atingida pelo incêndio. As cifras do serviço contratado pelo governo são nebulosas. Segundo Hércules de Sousa e Silva, gerente da demolição do que restou do camelódromo, a fatura ainda não foi calculada pois trata-se de obra emergencial.

Nos dias úteis, o trabalho é menos intenso, devido às restrições sobre a circulação de caminhões na região. De segunda à sexta-feira, saem diariamente entre 20 e 25 caminhões daquele quarteirão-fantasma rumo a um aterro industrial em Caxias. Já nos finais de semana e feriados, o número de caminhões praticamente dobra. O recorde até hoje foi de 54 veículos numa só jornada, conta um encarregado.

Enquanto uns destroem, outros vigiam. Seguranças da empresa Hopevig se revezam em turnos. Durante o dia, são dez. À noite e de madrugada, 16 homens trabalham para evitar transtornos. A maioria dos notívagos diz que a madrugada é tranquila, sem contratempos. É à luz do dia que os problemas aparecem.

Na rua Bento Ribeiro, por volta das 7h30, uma jovem de vestido roxo, salto alto e cabelos molhados vai até a farmácia da esquina. Minutos depois, reaparece no mesmo ponto, olhando para a rua de braços cruzados. Passados mais uns minutos, arranja tumulto com os camelôs.

O que se vê em seguida são pontapés, tapas e empurrões. A mesma jovem de boa aparência, agora perambula enraivecida. Com um enorme galo na testa e o rosto ensanguentado, brada: “Eu respeito quem não me toca. Quem me toca eu não respeito.” Apanhou de uma senhora vestida de verde. A mão pesada do vendedor de relógios e bijuterias a fez bater com a cabeça na sarjeta. De sutiã rasgado e vestido todo empoeirado, ela continua revoltada à procura de mais confusão.

Mexe nas mercadorias de outros comerciantes enquanto grita mensagens de sentido confuso. Uns dizem que isso é efeito da droga, do pó. Talvez crack. Outros falam que é briga de mulher da vida, por causa de R$ 30. Dois homens, rindo, entoam um sonoro “xô, bicho ruim” assim que ela se afasta. Dois jovens surgem para tentar conter a moça. Os dois de moletom, boné e pochete atada ao peito, eram seguranças do falecido camelódromo. Até momentos antes do alvoroço, poderiam ser vistos de pé na calçada da Bento Ribeiro. Serenos, porém, alertas.

Comerciantes revelam que são esses homens que cobram R$ 5 por noite pela garantia do espaço vago na calçada na jornada seguinte. É a opção para quem depende das vendas na calçada para garantir alguma renda.

É o caso de Lorência. Ela vende desde cortador de unha até pilha. Por dia, desembolsa R$ 17 para trabalhar. Gasta R$ 10 para ir e voltar de Inhaúma, bairro da zona norte da cidade. Outros R$ 5 vão parar nas mãos dos seguranças do lugar. E R$ 2 são para as duas visitas diárias ao banheiro da Central do Brasil. Em média, fatura R$ 25 diários com as vendas. Isto é, lucro de R$ 7.

A situação da camelô, que prefere se identificar como Rosa Maria, é ainda pior. Na semana passada, de segunda-feira a sábado, ela vendeu magros R$ 80. Avó de dois netos, moradora da Tijuca, Rosa Maria tira seu sustento da venda de meias, as quais protege da poeira –que levanta com o movimento da retroescavadeira– com uma lona de plástico transparente e pedras. Perto das 9h, ela pede licença e sai. Tem que comparecer à prefeitura. Sua senha é a 023 do credenciamento. “Tem gente com senha 050 que já foi embora. Tenho que me apressar.”

Desde o incêndio, o prefeito Eduardo Paes (PMDB) reuniu-se uma vez com uma comissão dos comerciantes e prometeu ajudar. A prefeitura ressalva que a responsabilidade prioritária era do Estado –já que é o proprietário do local– mas alega estar fazendo “todo o possível”. As autoridades municipais se organizam para registrar os donos dos 601 boxes que viraram cinza.

De acordo com o secretário municipal do Trabalho e Emprego, Augusto Ribeiro, esse cadastramento deve ser concluído na próxima semana. Ribeiro explica que essas pessoas poderão ser inseridas num programa de intermediação de mão-de-obra, ou seja, seriam beneficiadas com o esforço da secretaria em reinseri-las ao mercado de trabalho.

“Nós não queremos cesta básica. Queremos trabalhar. Não vivi morrendo de fome, vivi sempre trabalhando”, diz indignada Maria de Fátima do Nascimento, 57, há 11 vendendo bolsas e carteiras no camelódromo. O incêndio lhe causou R$ 80 mil de prejuízo em mercadorias. Até o acidente, Maria de Fátima faturava até R$ 500 diários. Hoje, suas vendas não ultrapassam os R$ 50.

Zélia Moreno, 48, desde 1984 faz o dinheiro movimentar na região. Perdeu R$ 120 mil. “Era roupas femininas lindas, de qualidade. Agora olha só o que a gente tem que vender”, diz apontando para uma blusinha infantil de algodão. Mesmo em dificuldade, Zélia considera ter sorte por ter conseguido negociar sua dívida de R$ 28 mil com o fornecedor. Como tantos outros colegas, Zélia viu suas vendas despencarem, inclusive pelo fato de não mais poder receber pagamentos via cartão de débito ou crédito.

Os camelôs pedem às autoridades algum auxílio financeiro enquanto não há outro local para retomarem o comércio legal. “Milagre a gente não tem como fazer. Se você perder o seu emprego, você também vai querer compensação financeira... Isso não existe nem num mundo de sonhos”, rebate Ribeiro.

Novo complexo comercial e assistência
A prefeitura está buscando uma nova área próxima ao antigo camelódromo para a construção de um novo complexo comercial. Segundo Ribeiro, há duas áreas em negociação. Mas não há prazos e o processo é demorado. “Se for através de desapropriação litigiosa, isso vira um inferno”, afirma.

A principal solicitação de Russo é poder trabalhar sem estar sujeito à fiscalização repentina –o famoso e temido “rapa”– da Guarda Municipal. “É difícil de correr com essa perna assim. Minha filha já disse para eu tomar cuidado.” Segundo ele, há duas semanas, o rapa era diário. Hoje a frequência é menor.

Carlos Nicodemos é membro da comissão de Direitos Humanos da secção fluminense da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-RJ) e acompanha a aflição dos camelôs. Segundo ele, o Ministério Público do Trabalho (MPT) acolheu uma representação com as demandas dos camelôs e já designou uma procuradora para poder receber os camelôs e discutirem quais reivindicações serão encaminhadas ao governo estadual. Dentre elas, consta o pedido de uma assistência social para os trabalhadores e a elaboração de um plano de recolocação no mercado de trabalho

Porém, Nicodemos esvazia qualquer esperança de prazo para a solução jurídica do imbróglio. “Espero que com o Ministério Público intermediando, aquela pauta possa acelerar, mas nesse momento não dá para prever quando haverá conclusões. O Ministério Público recebeu a denúncia que nós fizemos, vai oficiar as autoridades responsáveis e a partir daí pode desdobrar na instalação de um inquérito civil ou na proposição de uma ação civil”, esclarece.

Até lá, Russo seguirá seu passo trôpego pelas cercanias da Central do Brasil. Torcendo para não ter de correr.

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