Alex de Jesus/ O Tempo/ AE

Caso Eliza Samudio

"Bruno foi aliciado", diz presidente do time que lançou goleiro em BH

Arthur Guimarães*
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Presidente do time que levou o goleiro Bruno Souza ao estrelato, o empresário Nival de Sá, "roupeiro, faxineiro e dono" do Venda Nova Futebol Clube, afirma que o jogador foi "aliciado" ainda na adolescência, quando não tinha estrutura para entrar no mundo competitivo do futebol. "Roubaram ele", diz.

Bruno atuou pelo Venda Nova dos 12 aos 17 anos. O clube é uma entidade amadora de Belo Horizonte, conhecida por revelar atletas para o futebol, que registra em seus quadros a passagem de jogadores renomados como Euller (hoje no América-MG), Fred (atualmente no Fluminense) e Palhinha (campeão mundial pelo São Paulo). 

Aos 17 anos, o goleiro chegou às categorias de base do Atlético-MG. Antes disso, no entanto, ele era um "destaque sempre positivo" no Venda Nova, que hoje disputa a série B do campeonato mineiro. Como diz Sá, Bruno sempre foi conhecido por ser um sujeito sem família. "Ele não sabia quem eram os pais dele. Somente a avó vinha nas reuniões. Foi a Globo (Rede Globo de Televisão) que descobriu quem era a mãe dele", conta.

O presidente do Venda Nova, em sua própria análise, acredita que o episódio criminoso no qual o goleiro está envolvido tem origem na falta de orientação. "O futebol é sujo. Nunca teve uma psicóloga, uma assistente social, alguém para ajudar o Bruno", diz. "Se tivesse esse apoio, ele não faria esse tipo de bobagem. Ele sempre foi uma mina de ouro sem ninguém para cuidar de perto", afirma.

Sá diz que, pelo o que "ouviu", Bruno foi tirado do Venda Nova por R$ 30 mil, impulsionado pelo empresário Eduardo Uram. "De graça não foi", diz. Na época que treinava no Venda Nova, o goleiro ia e voltava de casa com ajuda dos técnicos e dos assistentes. "Ele morava a 18 quilômetros do campo. Não tinha vale-transporte. A gente mesmo que dava um jeito de levar e trazer." A reportagem tentou contato com Eduardo Uram, mas não obteve retorno.

O início promissor da carreira de atleta de Bruno, principal suspeito pelo desaparecimento da ex-amante Eliza Silva Samudio, contrasta com a vida pessoal marcada pela infância pobre e por um drama pessoal, com a separação dos pais, Sandra e Maurílio, quando ele tinha apenas dois anos e morava na periferia de Belo Horizonte.

Ao ser abandonado, Bruno passou a ser criado pela avó paterna, Estela, que posteriormente se mudou com o neto para o município de Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A mudança impossibilitou que os pais localizassem futuramente o filho. O reencontro com o pai foi aos 18 anos e com a mãe, aos 21, quando já era conhecido publicamente e defendia o Corinthians.

Antes de ficar famoso e assinar contratos com clubes de futebol que mudariam sua vida, principalmente financeira, Bruno, atualmente atleta (suspenso) do Flamengo, teve de superar obstáculos. Começou a trabalhar cedo, aos 12 anos, para ajudar a avó nas despesas da casa. Paralelamente, ele dava os primeiros passos na carreira de atleta, mas antes de chegar ao futebol profissional passou por campos de várzea.

Levado ao Atlético-MG, foi promovido ao elenco profissional do clube mineiro em 2004. A primeira oportunidade na elite do futebol brasileiro ocorreu em 2005, ao virar titular do time de Belo Horizonte e barrar o badalado e experiente Danrlei, revelado pelo Grêmio.

Apesar de o Atlético ter sido rebaixado à Série B do Brasileiro naquele ano justamente em sua estreia no profissional, Bruno não se “queimou”. Pelo contrário. Foi um dos poucos destaques do time mineiro (disputou 59 jogos e sofreu 67 gols com a camisa atleticana). Em meados de 2006, foi negociado a um grupo de investidores e se transferiu para o Corinthians. Dois meses depois foi contratado pelo Flamengo.

A passagem pelo Atlético foi marcada por confusões fora das quatro linhas. Em 2005, Bruno foi acusado de agredir dois estudantes na porta de uma escola em Ribeirão das Neves. No ano seguinte, quando ainda era atleta do clube mineiro, foi detido de madrugada por dirigir em alta velocidade e participar de “pega” (corrida ilegal de carros).

Já no Flamengo, durante a polêmica sobre a briga do jogador Adriano com a esposa, o goleiro também chamou atenção com uma declaração polêmica. “Quem nunca brigou com uma mulher?”, emendou.

Churrasco
No condomínio de casas onde possui endereço fixo, no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio de Janeiro, o goleiro Bruno é tido pelo chefe da guarita como um cara tranquilo, mas reservado. “É do tipo que para, conversa, normal”, diz o funcionário, sem querer se identificar.

Segundo ele, até antes do caso do desaparecimento e possível morte de Eliza Samudio – que dizia ter tido um filho de cinco meses com o jogador do Flamengo – a movimentação de Bruno não chamava atenção. Saía para o treino, depois voltava para casa.

Por outro lado, um funcionário do condomínio ao lado, afirma que nos finais de semana era frequente haver muitas pessoas na casa de Bruno. Ele chamava amigos – inclusive jogadores e amigos de Minas Gerais – para se reunir em sua residência. Raramente se arvoravam pela churrasqueira, parquinho, quadra poliesportiva ou quadra de areia, áreas comuns do condomínio. O último encontro teria ocorrido mês passado.

O condomínio do Recreio possui 144 casas, todas com a mesma planta. Todas com piscina. Padrão. Cada residência estimada no valor aproximado de R$ 800 mil. Recentemente, o ator Sérgio Loroza, procurou saber se havia casas à venda. Não há. Apenas duas casas estão desocupadas, embora nenhuma posta à venda ou oferecida para ser alugada. “Mas eu acho que tem uma que vai ficar vazia rapidinho”, ironiza o capitão da guarita.

Ninguém viu, ninguém ouviu
Nas redondezas, Bruno e sua mulher Dayanne são figuras desconhecidas. A não ser pelo noticiário, outrora esportivo, hoje policial. Num grande supermercado próximo, atendentes dizem não vê-los pelos corredores. “Tem outros famosos que vêm aqui. O Belo, Viviane Araújo, Sandra de Sá, Alcione, Dudu Nobre...”. Nada do goleiro.

No cartório das cercanias – o 4º Cartório de Notas do Rio de Janeiro – não existe firma aberta em nome de Bruno Fernandes das Dores de Souza. Na banca de jornal, ele nunca foi visto. E por aí vai. Drogaria, loja de móveis, de luminárias. Dayanne e Bruno tampouco constam do cadastro de clientes da loja de rações e utensílios para animais. Na lavanderia, após idêntica negativa, a dica: “E mesmo quem conhecer e for amigo, não vai dizer”. Está dito.

A vendedora da loja de colchões, também moradora da região, conta ter tomado conhecimento de que Bruno morava ali perto apenas quando ouviu helicópteros pela manhã e ligou a televisão. “Pera aí, eu conheço esse lugar. É aqui do lado!”, conta como reagiu ao acompanhar pela telinha a ação da Polícia Civil na casa do jogador, na manhã desta quarta-feira.

O entreouvido na vizinhança é ilustrativo. “O crime é hediondo. Dessa ele não escapa”, sentencia um senhor que toma chá mate. “É coisa de monstro”, completa um interlocutor. “Acho que isso tudo foi coisa da mulher”, ecoa a voz feminina.

Polícia e Justiça dispõem agora de todo o tempo necessário para fazer a verdade prevalecer. Por mais cruel que ela possa ser.

* Com informações do UOL Esporte em Minas Gerais e de Daniel Milazzo no Rio de Janeiro

 

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