Alex de Jesus/ O Tempo/ AE

Caso Eliza Samudio

Juíza dá prazo para reenvio de habeas corpus feito pela internet ao goleiro Bruno

Rayder Bragon

Especial para o UOL Notícias
Em Belo Horizonte

A juíza Marixa Fabiane, presidente do 1º Tribunal do Júri de Contagem (MG), deu cinco dias de prazo para que o autor de um habeas corpus enviado ontem por e-mail em nome do goleiro Bruno, do Flamengo, apresente o pedido original em papel. O pedido foi feito por João Carlos Augusto Melo Moreira, 53, que não faz parte da defesa do atleta, investigado pela morte da ex-namorada, Eliza Samudio.

O autor do primeiro pedido de liberdade encaminhado à Justiça mineira em favor do goleiro mora há 28 anos na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, e afirmou nunca ter encontrado o acusado. Segundo a juíza, não é praxe receber esse tipo de pedido por e-mail, por isso, deu uma nova chance ao autor. "Se vier outro e-mail, não será distribuído", afirmou a juíza.

Ontem, ao UOL Notícias, o militar explicou sua motivação em fazer o pedido de liberdade em favor de Bruno: “Não tenho nenhum laço de amizade com o goleiro Bruno. Sou flamenguista doente, sou também adepto da Justiça. Até o momento a polícia não apresentou nenhuma prova material que levasse a autoria do crime para o Bruno. Fiz uma análise da situação e cheguei à conclusão de que os advogados estavam demorando muito a entrar com o habeas corpus, a que qualquer cidadão tem direito. Não tenho nada a ver com o Bruno, não sou amigo do Bruno, mas não gosto de injustiça. Isso é uma jogatina”.

Em entrevista pelo telefone, João Carlos criticou também a conduta do delegado Edson Moreira, chefe do Departamento de Investigações de Homicídios e Proteção à Pessoa (DIHPP) de Minas Gerais, à frente da apuração do caso. “No caso do Bruno, o delegado está chamando para si os holofotes. Ele está se empenhando de forma cruel. Ele está pré-julgando o Bruno na televisão. Ele não pode fazer isso, ele tem que se ater à apuração e deixar para o Ministério Público denunciar ou não”, disse.

Perfil
Em 2006, Moreira chegou a candidatar-se ao cargo de deputado federal pelo Estado do Ceará pelo PHS (Partido Humanista da Solidariedade). Recebeu 257 votos, insuficientes para elegê-lo. Atualmente, mora em Fortaleza e cuida de sua mãe, vítima de um AVC (acidente vascular cerebral) em 2003.

Reformado em 2003 pela Marinha, o então capitão-de-fragata diz ter sido afastado de suas funções porque “sabia demais” sobre supostos atos corruptos dentro da corporação. Já no Diário Oficial da União, de 31 de agosto de 2007, a procuradora-geral da Justiça Militar, Maria Esther Henriques Tavares, escreve que o militar foi “reformado ao ser considerado ‘incapaz para o Serviço Ativo da Marinha definitivamente, por sofrer de transtorno depressivo recorrente e transtorno de personalidade emocionalmente instável’, conforme demonstra a cópia da Certidão nº 138/2003, emitida pelo Centro de Perícias Médicas da Marinha, em 22 de abril de 2003, Anexo C.”

Moreira diz já ter passado pelo mesmo que Bruno está vivendo hoje, isto é, na sua visão, amargar o papel de perseguido. O militar reformado conta ter sido considerado “personna non grata” na Marinha.

“Se ele for culpado, ele vai pagar pelo crime. Mas até o momento eu acho que não existe nada contra o rapaz. [...] Gostaria de ver esse rapaz solto, para que ele pudesse se defender livre”, alega em seu pedido de habeas corpus.

Além de entrar com o pedido, Moreira colocou no correio, na quarta-feira (14), uma carta endereçada ao goleiro, na qual dizia para o acusado “rezar e entregar nas mãos de Deus a vida dele”. “Mesmo que provem que é inocente, já condenaram ele”, afirma João Carlos.

O ex-militar conta que também está prestes a concluir sua formação em Direito. “Faltam apenas três cadeiras”, diz, justificando que faz uma cadeira a cada semestre, por razões financeiras. Ele gaba-se do texto enviado à Justiça mineira (leia trechos abaixo) e diz não temer dizer o que pensa.

“Já estão me ligando, dizendo que a polícia quer falar comigo... Eu não temo nada. Tenho segurança, tenho meus cachorros. Quem tentar entrar na minha casa vai ser devidamente decapitado. Não estou a fim de aparecer em nada.”

Leia trechos do pedido de habeas corpus feito por João Carlos:
“No que preze o saber jurídico da autoridade co-autora não existe uma análise criteriosa e fática com a rima na legislação pertinente na fumaça do bom direito, presente na atual doutrina penal existente nesse País, não resistirá a uma análise fidedigna e criteriosa a decisão de manter em cárcere privado de liberdade, restringindo totalmente a liberdade de indivíduo paciente com endereço e profissão certa, sem antecedentes criminais, uma vez que o mesmo é um jovem bem sucedido e trabalhador, um homem de bem que nunca e não oferece perigo à sociedade.”
[...]
“Existe uma prematura e precipitada condenação de um suposto réu sem provas cabais [...] O paciente já está condenado à desgraça pela opinião pública, por essas manobras abusivas de ser considerado culpado sem transitar sentença em julgado. Que manobra nefasta é essa, de primeiro julgar para depois apurar?”
[...]
“Cadeia não resolve nada. Cadeia nesse país não ressocializa. Cadeia não reintegra a pessoa nem faz com que o delinquente volte a viver com dignidade. Cadeia motiva mais ainda o criminoso ao crime. Na verdade, em vez de cadeia, o que resolve é pena alternativa.”
[...]
“Somente o tempo poderá apagar essa grande injustiça de primeiro condenar, execrar e depois apurar um suposto crime hediondo, encomendado e supostamente macabro.”

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