Laudo aponta mentiras em entrevista de delegada afastada do caso Bruno

Irineu Machado
Do UOL Notícias
Em São Paulo

Laudo elaborado com base em um programa de exame de frequência de voz concluiu que a delegada Alessandra Wilke, da Delegacia de Homicídios de Contagem (MG), mentiu em momentos da entrevista exibida no domingo à noite ao programa "Fantástico", da TV Globo. A delegada é uma das duas que foram afastadas ontem (19) do inquérito que investiga o desaparecimento de Eliza Samudio, ex-amante do goleiro Bruno Souza, suspenso no Flamengo.

Segundo o laudo, ela não foi verdadeira quando afirmou que "todos os depoimentos e declarações" do inquérito que investiga o desaparecimento de Eliza Samudio "apontam para o homicídio" dela. Também não disse a verdade, de acordo com a análise da voz, quando falou do sangue encontrado pela polícia em um colchão no sítio do goleiro, localizado na cidade de Esmeraldas.

O laudo foi produzido voluntariamente pela empresa Truster Brasil, especializada em tecnologia de análise de voz. Um computador verifica os índices de estresse na fala de uma pessoa e aponta se ela diz a verdade.

O texto abaixo reproduz uma transcrição das perguntas colocadas na reportagem e as respectivas respostas da delegada, que acabou sendo afastada do caso depois da divulgação de um vídeo com declarações do goleiro Bruno gravado quando ele estava sendo transferido pela polícia do Rio de Janeiro para Minas Gerais. Logo abaixo das respostas da delegada, as observações apontadas pelo perito em veracidade Mauro Nadvorny no laudo técnico de análise de voz.

Fantástico - Há provas de que Bruno participou do crime? Ele esteve no local?

Alessandra Wilke - "No local da execução, não; mas que ele está envolvido em todos os fatos: desde o momento em que Eliza foi ao encontro do Macarrão e do menor, foi para a residência do Bruno, no Recreio dos Bandeirantes, está comprovada a participação do Bruno."

O laudo aponta ALTO RISCO no trecho "mas que ele está envolvido em todos os fatos", o que leva o perito a concluir que ela "não está sendo verdadeira". O alto risco também é detectado em dois outros trechos desta fala: "foi ao encontro do Macarrão e do menor" e "foi para a residência do Bruno".

Fantástico - Está comprovado que o crime aconteceu na casa do ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos?

Alessandra Wilke - "Ainda continuamos procurando e buscando evidências da Eliza naquele local; alguns materiais foram coletados naquela residência. Está dependendo de laudos periciais."

O laudo aponta ALTO RISCO no trecho "está dependendo de laudos periciais", o que, na conclusão do perito, indica que ela tem receio de que os laudos periciais não comprovem isso.

Fantástico - A que atribuir as contradições no depoimento do menor?

Alessandra Wilke - "Eu atribuo a uma estratégia da defesa para conturbar as investigações, e ao próprio medo que o menor está sentindo. Quando ele narrou a figura do Bola; mostramos uma fotografia para ele, ele ficou aterrorizado, ele está com muito medo."

O programa de análise de voz dá a classificação ESTRESSADO aos trechos: "a uma estratégia da defesa" e "ele ficou aterrorizado". Na conclusão do perito, a delegada não está convicta de que se trate de uma estratégia da defesa, nem de que o menor tenha ficado aterrorizado. Ele observa que esta falta de convicção pode ter relação ao possível descumprimento do artigo 226 do Código de Processo Penal, que normatiza o reconhecimento de pessoa.

Fantástico - É possível indiciar os acusados por homicídio mesmo sem o corpo? Há provas suficientes para isso?

Alessandra Wilke - "Com certeza. Há materialidade indireta com relação à criança, todos os depoimentos e declarações contidas nos autos, o sangue da Eliza na Land Rover, e agora, dependendo da análise pericial com relação ao sangue que foi localizado em um colchão, no sítio do Bruno, nos remetem ao homicídio. As provas estão fortes. Mas não há a possibilidade de a gente divulgar tudo o que nós temos no inquérito."

O laudo técnico de análise de voz aponta ALTO RISCO no trecho "todos os depoimentos e declarações" e IMPRECISÃO no trecho "pericial com relação ao sangue que foi localizado em um colchão". Também classifica como ALTAMENTE ESTRESSADO os trechos "há materialidade direta com relação a" e "agora dependendo da análise". O perito conclui que ela não está sendo verdadeira quando afirma que todos os depoimentos e declarações apontam para o homicídio de Eliza, e também não está sendo verdadeira quando fala do sangue encontrado no colchão.

Fantástico - Qual a participação de cada envolvido no crime?

Alessandra Wilke -"Todos de alguma forma tiveram envolvimento em tudo o que ocorreu. A parcela de culpa e dolo de cada um vai ser esclarecida ao final das investigações. Já traçamos uma linha de raciocínio com relação a individualizar a conduta de cada um, mas eu prefiro, no momento, não externar isso, e sim ao final das investigações."

O laudo aponta ALTO RISCO no trecho em que ela menciona "traçamos" e em três momentos desta resposta indica a legenda ESTRESSADO. Na conclusão do perito, ela está sendo verdadeira quando afirma que todos tiveram algum envolvimento com o caso, mas não está quando afirma que foi traçada uma linha de raciocínio individualizando a participação de cada um.

Na opinião de Nadvorny, com base nas conclusões do laudo desta entrevista e no desdobramento do caso, há uma "guerra de egos" entre os delegados. Para ele, isso explica em parte a relação que os delegados do caso estão mantendo com a mídia e algumas declarações que têm sido dadas pelos investigadores do desaparecimento de Eliza. "A impressão é de que primeiro foi criada uma premissa para depois buscarem as evidências, estão querendo fazer a história se encaixar", disse.

Nadvorny critica a ausência do uso de tecnologia em investigações policiais como esta. "A tecnologia que estão querendo usar neste caso, por exemplo, é a da acareação", ironizou.

Equipamentos de análise de voz da Truster Brasil são utilizados por serviços de inteligência policial no Rio Grande do Sul e no Distrito Federal. A técnica também já foi utilizada para ajuda em decisões judiciais. Contudo, os laudos feitos a partir do uso do aparelho não são necessariamente aceitos como prova em inquéritos no país.

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