Mapeamento da rede é a melhor prevenção contra explosão de bueiros, diz pesquisador

Daniel Milazzo
Especial para o UOL Notícias

No Rio de Janeiro

Em menos de trinta dias, a cidade do Rio de Janeiro já registrou dois casos de explosão em câmaras subterrâneas. O mais grave deles, ocorrido no dia 29 de junho, em Copacabana, zona sul, feriu um casal de norte-americanos. No último domingo (18), outro bueiro explodiu na rua das Laranjeiras, também na zona sul. Não houve feridos. Nos últimos dez meses, esse foi o oitavo registro de acidente.

No final de junho, casal de turistas foi atingido por explosão de bueiro

De acordo com o especialista Moacyr Duarte, coordenador do Grupo de Análise de Risco Tecnológico Ambiental da Coppe/UFRJ, acidentes desse tipo podem ser causados por contaminação da câmara subterrânea (por gás ou combustível automotivo) ou operação anormal de um equipamento (como um curto-circuito).

Para Duarte, a prevenção começa no mapeamento da utilização da rede subterrânea. “Um mapeamento vai determinar onde as caixas de gás ficam mais perto das caixas elétricas mais perigosas, e a partir disso vai fazer um modelo de manutenção com uma frequência adequada para o risco de cada câmara, ou conjunto de câmaras, e com um procedimento de inspeção adequado.” Tal mapeamento não existe na cidade.

O pesquisador da Coppe/UFRJ apresenta outra forma de prevenção: em câmaras onde haja o risco de pressão elevada devido à explosão de algum equipamento, pode ser criado um duto de alívio de pressão, “de tal maneira que se a explosão ocorrer, ao invés de projetar a tampa do bueiro e o fogo na calçada, ela sai por esse duto de alívio e não acerta ninguém”.

Mas o pesquisador pondera que “não tem senso pensar na aplicação da tecnologia antes de saber em que áreas essa aplicação vai trazer maior redução do risco para a população”. “Por isso tem que haver o mapeamento e a integração daqueles que utilizam o subsolo. [...] O mapeamento deve produzir também algum tipo de integração institucional principalmente na esfera técnica”, afirma Duarte.

Sem soluções a curto prazo
Nesta segunda-feira (19), a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Econômico, Energia e Serviços do Rio de Janeiro informou que não existe solução a curto prazo para as explosões de bueiros. Houve uma reunião entre o secretário Julio Bueno e representantes das concessionárias de energia elétrica – Light – e gás – CEG. A Light informou que a reforma das câmaras subterrâneas não será possível antes de 2013, e a CEG, somente a partir de 2014. A justificativa apresentada foi a limitação de pessoal e de equipamentos.

“Não é uma questão de carência do conhecimento técnico ou carência de profissionais habilitados, tanto na engenharia quanto na manutenção direta. Acho que é mais uma questão de integração entre profissionais de empresas diferentes, que resultaria em redução do risco à população”, ressalta Duarte

A Light afirma que são inspecionados cerca de 9.000 bueiros por ano, numa periodicidade que pode variar entre 30, 60 ou 90 dias. A empresa informou ainda que a cada inspeção são verificadas a parte estrutural da câmara subterrânea, a funcionalidade e o estado dos equipamentos elétricos, ventilação, entre outros aspectos.

Além disso, a concessionária argumenta que o capital voltado à manutenção da rede subterrânea, que atende cerca de 500 mil consumidores, foi ampliado de R$ 6 milhões em 2009 para R$ 10 milhões este ano.

Casal ainda está em estado grave
O casal de norte-americanos feridos no dia 29 de junho em Copacabana ainda encontra-se em estado grave na clínica São Vicente. Sarah Nicole Lowry, 28, que teve 80% do corpo queimado, está desde 9 de julho na UTI, acompanhada de sua mãe e ainda corre risco de morrer. David James McLaughlin, 31, teve 30% do corpo queimado.

De acordo com o médico Marco Aurélio Pellon, responsável pelo tratamento do casal, uma pessoa que tenha 80% do corpo queimado possui apenas 10% de chance de sobreviver. Segundo Pellon, um adulto que tenha 20% do corpo queimado já corre risco de morrer.

A assessoria de imprensa da clínica informa que Sarah está numa “fase delicada, mas prevista” e acrescenta que está mantida a previsão de recuperação dos dois pacientes: 45 dias para Sarah e 30 para David, que está se recuperando bem e já voltou a andar há uma semana.

Sarah e David estavam a passeio no Rio quando atravessaram, na faixa de pedestres, a rua República do Peru, exatamente no momento da explosão de um bueiro da Light. A tampa do bueiro, que pesa mais de 300 quilos, voou a quatro metros do chão. Sarah também foi arremessada a oito metros de distância e seu corpo caiu na calçada, em chamas. David se atirou sobre o corpo na tentativa de apagar o fogo.

A Light informou que os transformadores daquela câmara subterrânea tinham sido trocados e um novo exaustor fora instalado no início de junho. Jerson Kelman, presidente da empresa, sustenta que o acidente não está relacionado com sobrecarga elétrica.

A perícia que investiga as causas do acidente também analisará se havia vazamento de gás na galeria. A CEG, companhia de gás, negou haver vazamento. O Instituto de Criminalística Carlo Éboli analisará o que restou das roupas do casal em busca de resíduos que expliquem as causas da explosão. O laudo deve ficar pronto até o final do mês.

Para Moacyr Duarte, pesquisador da Coppe/UFRJ, é improvável ter havido contaminação da câmara por gás. “Quando há queima do gás, pela natureza da própria substância e da maneira como ele se mistura ao ar, ele queima todo, instantaneamente, ele não deixa resíduo. Naquele caso de Copacabana, a roupa da moça queimou a ponto de o marido não conseguir apagar. Havia fogo residual no bueiro, isso não é característica de contaminação por gás”, explica o especialista.

Paralelamente ao trabalho dos peritos do Instituto Carlos Éboli, a Light informa que contratou técnicos do Centro de Pesquisas em Energia Elétrica (Cepel) para elaborar um diagnóstico sobre as causas do acidente.

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